“São Paulo poderia priorizar a recuperação de seus rios”
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“São Paulo poderia priorizar a recuperação de seus rios”

Arquiteta e paisagista colombiana, em entrevista ao blog, destaca sua visão de São Paulo

Edison Veiga

07 de dezembro de 2015 | 01h04

Foto: Divulgação

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Uma das palestrantes do Congresso Internacional de Paisagem Urbana, a arquiteta e paisagista Diana Wiesner é fundadora e diretora da Fundación Cerros de Bogotá. Diana integra o Conselho de Ordenamento Urbano da cidade colombiana. Ela foi entrevistada pelo blog.

Em sua opinião, quais são as principais semelhanças e diferenças entre São Paulo e Bogotá, considerando que ambas são grandes cidades latino-americanas?

Diana Wiesner: São Paulo, uma das maiores cidades do mundo, com quase 22 milhões de habitantes vivendo em sua região metropolitana e mais de 11 milhões na própria cidade. Bogotá, com uma área urbana de 384 quilômetros quadrados e uma área rural de 1.298 quilômetros quadrados, com uma população de 7,3 milhões de habitantes e mais quase 2 milhões na região metropolitana.

Bogotá é uma das cidades mais densamente povoadas da América Latina. Tem grandes oportunidades de se converter em uma cidade muito agradável e humana se resolver as questões de mobilidade e oferta de transporte público e der prioridade a seu sistema geográfico e natural para melhorar a qualidade de vida.

As semelhanças entre as duas cidades são resultado de um processo histórico de desenvolvimento coincidente, em que se tem dado prioridade a um sistema econômico e funcional de infraestrutura, em vez de valorizar os sistemas geográficos – no caso de São Paulo, não se evidencia a presença de seus rios na imagem da cidade. Ainda que São Paulo conte com um enorme sistema de mobilidade pública, o impacto da infraestrutura urbana em sua legibilidade e na escala humana de suas áreas públicas fazem da cidade um local difícil para os visitantes.

Atrevo-me a mencionar que se percebe o contraste entre grandes parques predominantes e um sistema de parques locais acessíveis e integrados aos bairros. Se em Bogotá a falta de vegetação também é evidente, a percepção de uma cidade mais verde existe pela presença de suas colinas e, em alguns bairros, pela intensa arborização urbana.

Entre as semelhanças também destaco a negligência ao cuidado integral e ecológico aos rios e à negativa em utilizá-los como articuladores urbanos, espaços públicos e conectores regionais.

Quais são os principais desafios contemporâneos de Bogotá? O que se está fazendo para resolvê-los?

D.W.: São muitos. Entre os mais relevantes estão a mobilidade, a segurança, a desigualdade social e a própria visão de cidade.

A mobilidade, tema central comum de muitas administrações, é algo que mais gera descontentamento da população – ao lado da segurança. Atualmente, está se discutindo a atualização do Plano Diretor e as visões preponderantes são de uma cidade compacta, em contraposição a de uma que abrange também os municípios vizinhos. Este tema está associado diretamente à visão ecológica da cidade, protegendo as reservas ambientais e bacias hidrográficas.

Em sua opinião, quais são os principais pontos já resolvidos por Bogotá? De que maneira São Paulo pode seguir o exemplo e adaptar por aqui soluções adotadas por Bogotá?

D.W.: Uma cidade compacta como Bogotá, fazendo uso eficiente de sua infraestrutura, tem o potencial de ser um local focado na recuperação do espaço público e do sistema de vegetação. Programas de arborização urbana, implantação de ciclovias, cultura cívica e participativa são exemplos que tornaram Bogotá referência para outras cidades. Bogotá se destacou também por projetos de escolas, bibliotecas e melhorias de acesso ao espaço público. Na sequência, outras cidades colombianas começaram a implementar estratégias semelhantes, e Medellín deu um salto enorme para programas inclusivos dando prioridade às populações marginalizadas e recuperando espaços públicos.

É evidente que quando há vontade política para dar prioridade às questões estruturais, as mudanças nas cidades se tornam evidentes. São Paulo poderia dar prioridade à recuperação dos rios como um componente estrutural do espaço público, integrando áreas isoladas e gerando uma nova vitalidade para a cidade, uma nova maneira de percebê-la – a pé ou de bicicleta.