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São Paulo higienizada – ou como 3 milhões cabem em um espaço para 100 mil

OPINIÃO

Edison Veiga

06 Dezembro 2016 | 13h27

FOTO: ALEX SILVA/ ESTADÃO

Por Paulo Rezzutti*

Sempre amei São Paulo e passei a amar mais ainda depois das aulas de urbanismo que tive com o professor Jairo Ludmer, na Faculdade de Belas Artes – onde me formei já há décadas.

Jairo nos levava para o centro da cidade, à noite. As aulas eram in loco. Seu ensino peripatético cravou na minha alma ainda mais o amor à história da cidade. Aprendi com ele como o tecido urbano guarda elementos representativos de nossa história material e imaterial por meio de suas construções e, até mesmo, por meio da fala de seus espaços vazios – que igualmente revelam tanto como os ocupados.

A Virada Cultural, com um público estimado em 3 milhões de pessoas, fazia dessa cidade, em horas antes mortas, o cenário a ser vivenciado e apreciado entre o deslocamento de um palco a outro, de um show a outro. O centro pulsava, revivia como na época dos grandes cinemas e espetáculos e de outros tempos em que tudo lá ocorria, antes que a nossa generosa geografia permitisse que São Paulo se espraiasse deixando para trás, como áreas necrosadas, espaços que não mais interessavam para a elite.

A atual gestão Fernando Haddad (PT) perdeu uma excelente oportunidade de juntar a Virada do Patrimônio à Virada Cultural. Mostrar e explicar melhor para a população que ali estava o que era tudo aquilo que viam, ou não. Perderam a chance de terem aberto o terraço do Martinelli para se ver a cidade à meia-noite, terem o hall do velho Banco de São Paulo, melhor exemplo de arquitetura e decoração art-decô da cidade, ocupado com algum espetáculo. Isso para falarmos em apenas dois, das centenas de espaços possíveis e, quase, anônimos, que poucos viram e sabem do que estou falando.

Agora, o novo prefeito, que sonha com um parque no Jockey Club, em uma das áreas que mais tem opções de lazer de São Paulo – ao contrário do Capão Redondo, onde as traves dos gols, quando existem, viram locais enlameados quando chove -, anunciou que irá levar a Virada Cultural, de 3 milhões de pessoas, para Interlagos. Como fazer 3 milhões de pessoas caberem em um espaço que dificilmente comporta 100 mil? Isto não deve tirar o sono do atual alcaide eleito. Algum gráfico deve ter contentado o gestor, altamente capacitado para gerar uma das maiores metrópoles do mundo, após o seu merecido descanso em Miami, necessário após vencer a disputa eleitoral.

A cidade é vida, é pulsante. Assim como a história. Tecnocratas já tentaram domá-la, e falharam miseravelmente. Prestes Maia que o diga. Seu arrojadíssimo Plano Avenidas tornou-se defasado após alguns anos de implementado. O alcaide eleito, ainda não empossado, além de domá-la quer higienizá-la, a começar pelo próprio centro – a quem nega a vida levada pela Virada. Quer limpá-lo, quer trocar lâmpadas, limpar jardins, arrumar o que está quebrado e pintar tudo. Falta saber quando virá a cúpula de cristal Swarovski para cobrir e, assim, preservar, sem vida, o centro de São Paulo puro, lindo e belo, como uma pintura de Romero Britto.

* Arquiteto e historiador, é autor de diversos livros e um dos fundadores do projeto Turismo na História.

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