Retícula
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Retícula

CRÔNICA

Edison Veiga

19 Setembro 2017 | 01h54

Acervo MoMA The Museum of Modern Art/ Reprodução

Mascava horizontes feito chiclete. Cada bola que estourava era um sol se pondo.

À noite, todas as linhas são do Equador.

Separação. Confirmar se o mar era mesmo aquela distância enorme cansava meus ensimesmados olhos de exatidão e cemitério. Parado na praia, feria-me com o soslaio de pensamentos: sonhar com Deus, correr na chuva, casar, comer uma torta de limão, me perder nas rimas de um poema velho assinado por Leminski. Ler mais.

Gosto. Mas tem sempre uns instantes de dor e sobra. Sombras para me esconder são poucas. Procurei por você todas as noites esta semana, na segunda esmagada num pesadelo, na terça borboleta azul, na quarta um punhal no peito, na quinta solidão. Hoje não sei como vai ser.

– Vamos pegar um cinema?

– Ah… Tá frio, melhor sorrir em casa.

Entre nós dois foi se firmando um continente. Depois, as lágrimas, um oceano. Atlântico. Eu África, você América. Pacífico. Eu uma ilhota a ver navios.

Van Gogh. Porque curtia ecos, tudo o que lhe pesava era o vazio no estômago e aquele ruído interminável e rouco. Sacolejava o nada quando e enquanto caminhava pelas ruas, madrugada afora, sem juízo, sem asco, sem virtude.

Assoviava o silêncio noturno, louvava a escuridão profana. Bastavam as primeiras riscas de sol surgirem para partir, eterna busca e fuga, eclipse impossível. Fé cega. Montanhas, amanhã, Maomé, manhã. Amígdalas. A protuberância exata entre o ir-vir, ser-descer. O soluço.

Na rua, um caco de vidro e um tropeço. Um cadáver sem jazigo, seu sangue ressequido. A podridão, a miséria, o caos metropolitano reverberando pelas reentrâncias absurdas do cimento. Guimbas, restos de camisinha, uma gilete. Tudo o que conta a breve história do segredo humano, com seus flagelos, prazeres e vociferações de ódio, acumulado em objetos abjetos. Ele circulando, oco, famélico. Desviando para não desmaiar. Ignorando. Como todos fazemos fingindo-nos cidadãos, atropelando a realidade vil.

Nenhuma moça bonita exalando sensualidade, nenhum rapaz corado com cheiro de meia-noite, sequer uma garota de programa na flor da idade ou um vigia bem-apessoado. Nenhum espírito com carne, nem sonâmbulo perdido ou notívago encontrado. Nem eu na rua. Nem eu.

Do eco interno, porque curtia ecos, tudo o que sentia era o que lhe pesava, o vazio no estômago, aquele ruído interminável e rouco. Examinava seus dentes e, desolado, percebia que ainda não sabiam o que ser definitivamente. Louco, Van Gogh ia pirar se não se aprendesse logo vampiro. Sangue na tela.

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