As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quase centenário, Edifício Guinle passa por restauração

Edison Veiga

14 de abril de 2011 | 00h01

FOTO: TIAGO QUEIROZ/AE

Um dos prédios mais simbólicos do centro velho de São Paulo passa por minuciosa restauração. Desde fevereiro, 25 pessoas – entre pedreiros, carpinteiros, restauradores e arquitetos – fazem do Edifício Guinle, na Rua Direita, um movimentado canteiro de obras. A meta é recuperar, o mais fiel possível ao original, sua fachada. Construído entre 1913 e 1916, o prédio já sofreu várias reformas – mas nunca um restauro.

Considerado o primeiro arranha-céu da cidade – já que foi erguido em uma época em que seus 36 metros e apenas 7 andares impressionavam, e muito – e um dos pioneiros do concreto armado no Brasil, o Guinle é o precursor da verticalização paulistana. O prédio saiu das pranchetas do arquiteto Hipólito Pujol Júnior (1880-1952), mas sua construção só foi aprovada pela prefeitura depois de um laudo oficial. Explica-se: o então prefeito Raimundo da Silva Duprat, o Barão de Duprat (1863-1926) duvidou que um edifício de tal porte tivesse estabilidade. Pediu um aval ao engenheiro Antônio Francisco de Paula Souza (1843-1917), que era diretor da Escola Politécnica.

FOTO: TIAGO QUEIROZ/AE

Toda essa história só aumenta a responsabilidade dos encarregados da obra, com entrega prevista para outubro. “Vamos deixar o prédio autêntico, sem tirar qualquer resquício de sua história”, garante a restauradora Janaína Guisato, que vem se dedicando à recuperação dos ornamentos de argamassa na fachada – há figuras que lembram folhas e frutos de café, remetendo à riqueza do “ouro verde” que viabilizou a construção do prédio no início do século 20.

Orçada em R$ 700 mil, a restauração é bancada pela empresa proprietária do prédio, uma rede de calçados que, desde 1997, mantém uma de suas 14 lojas no andar térreo do edifício. Dois outros andares são utilizados para armazenar o estoque, um é salão de eventos e os restantes permanecem vazios – sem planos de nenhuma utilização. A administração da empresa não esconde o orgulho por ter adquirido o histórico edifício. Na loja, um cartão postal com foto e história do prédio é distribuído aos clientes. No site da rede, também há um destaque para o passado do endereço. E é comum que a empresa receba estudantes de arquitetura interessados em conhecer o espaço.

FOTO: TIAGO QUEIROZ/ AE

Percurso. Antes de colocar a mão na massa, os funcionários da Companhia do Restauro – empresa contratada para a obra – tiveram um ano para planejar cada etapa. “Foi quando fizemos um estudo para identificarmos as características originais, lavamos a fachada e realizamos a prospecção de cores”, explica o arquiteto Paulo Danilo Machado. “Também foi nesse período que submetemos o projeto técnico à aprovação do Conpresp”, conta o proprietário da Companhia do Restauro, Francisco Zorzete, lembrando que o prédio é tombado, desde 2007, pelo órgão municipal de proteção ao patrimônio.

FOTO: TIAGO QUEIROZ/ AE

De acordo com as pesquisas, originalmente a fachada não tinha pintura: era massa raspada – e assim voltará a ser. O telhado, atualmente metálico, também voltará a ser de cerâmica. Medidas pontuais vêm sendo tomadas em outros pontos: elementos decorativos metálicos, que há anos eram pintados de dourado, voltarão a ser na cor grafite; e 74 novas cremonas (tipo de trinco usado nas janelas do prédio) tiveram de ser fundidas conforme o desenho original, para substituir aquelas que foram trocadas com o passar do tempo. “E quando encontramos sinais de podridão no madeiramento, fazemos aquilo que chamamos obturação”, diz o arquiteto Machado, apontando para um remendo na esquadria de pinho de riga.

Tudo para que o Guinle volte a ser imponente. Se não mais graças ao tamanho, ao menos pelos detalhes de sua arquitetura.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 14 de abril de 2011
Fotos: Tiago Queiroz/AE

Tem Twitter? Siga o blog

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.