Quarta-feira de cinzas e a dor que não sai no jornal
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Quarta-feira de cinzas e a dor que não sai no jornal

CRÔNICA

Edison Veiga

01 Março 2017 | 18h17

Foto: Werther Santana/ Estadão

Foto: Werther Santana/ Estadão

A doméstica Josefa Pires Barbosa tinha 33 anos e quatro filhos quando o fogo consumiu seu barraco. Morava na Favela Diogo Pires, no Jaguaré, zona oeste da cidade.”Perdi tudo o que tinha”, ela me disse.

Eu já estava caminhando cabisbaixo, bloquinho debaixo do braço, olhar perdido entre fogo e nada, entre cinzas e dor. Ela me alcançou. “Moço, tudo não. Corrige aí. Eu salvei meus filhos.”

Uso óculos, então deu para disfarçar as lágrimas.

Josefa, para mim, é o símbolo da máxima que nos machuca diariamente: a dor das pessoas não sai no jornal. Nas letrinhas miúdas, nas aspas todas, nos relatos. Por mais humanos que busquemos ser, falta a alma, o âmago, o cheiro impregnado do incêndio que fica por dias povoando narinas de quem, fortuita ou casualmente, participa da combustão terminal de uma favela.

Por onde andará Josefa? Como estarão seus quatro filhos? Onde ela vive hoje, trabalha ainda como doméstica, refez casa, comprou nova geladeira, fogão de segunda mão, ganhou roupas, cama, colchão? Tem novas fotografias na parede, naquele albinho guardado no gaveteiro da sala? Perdeu para sempre o passado?

Quarta-feira de cinzas. Penso na dor dela e de tantos paulistanos em tantos incêndios em tantas favelas. Quando um incêndio destruiu 50 lares em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.

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