Professora Paula e outras dedicatórias
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Professora Paula e outras dedicatórias

CRÔNICA

Edison Veiga

04 Abril 2017 | 07h00

Foto: Fernando Mafra/ Flickr/ Creative Commons

Foto: Fernando Mafra/ Flickr/ Creative Commons

“À Professora Paula, com o abraço forte e a disposição de luta do Fernando. 8.11.82” é a pequena dedicatória manuscrita que está na folha de rosto do meu exemplar de A Ilha – Um repórter brasileiro no país de Fidel Castro, 18ª edição ilustrada com fotos e um capítulo inédito do livro de Fernando Morais, publicada pela Editora Alfa-Omega em 1981.

Por onde andará a Professora Paula, assim Professora com inicial maiúscula? Professora do quê terá sido? Ainda é? Qual foi o caminho deste livro, das mãos e olhos e óculos e estante da Professora Paula até um sebo, até minhas mãos, até meus olhos, até meus óculos, até minha estante?

Professora Paula pode ter morrido e seus herdeiros simplesmente encaixotado os livros. Que, depois, foram doados para alguém, talvez? Que, em seguida, foi ao sebo com todos os livros lidos e resolveu trocar por livros não lidos? Professora Paula pode ter morrido e seus herdeiros vendido o nobre acervo incrível para o livreiro que melhor quantia ofertou. Professora Paula pode ter morrido e nem deixado herdeiros; um belo dia, sabe-se lá como, o livro perdido foi encontrado dentro de uma bolsa velha ocre, entre um estojo de maquiagem, uma carteira com notas de cruzeiros, uma agenda telefônica, um talão de cheques do Bamerindus com duas folhas ainda em branco e um chaveiro com o logotipo do Mappin.

Dedicatórias em livros de sebo. Ricardo Lombardi, o alfarrabista mais cult e cool e hipster e entendido que São Paulo já teve, precisa organizar é uma exposição disto, lá em seu Desculpe a Poeira. Dedicatórias de autores para afetos e desafetos. Dedicatórias que eram para ser guardadas, preservadas em estantes pessoais, mantidas junto ao dedicado – mas que por caprichos, relaxos e acasos terminam à venda. Algumas vezes, confesso, já comprei livro tão-somente por conta da dedicatória manuscrita.

Sob a proteção indelével do subterfúgio eternizado pela expressão “conto o milagre mas não dou o nome do santo” – exatamente o extremo oposto de “mato a cobra e mostro o pau” –, permito-me invocar aqui duas histórias anedóticas envolvendo dedicatórias, autógrafos e receptadores não muito lá cuidadosos.

A primeira me ocorreu quando eu reportava para outro veículo desta cidade, no caso uma revista semanal. Cerca de um mês após entrevistar um famoso jornalista, então âncora de programa de televisão, passava eu próximo a uma comunidade rural em município do interior paulista. Lembrei-me que era este o ermo bairro, o jornalista havia me contado, o beneficiário das centenas de livros que o famoso colega costumava receber de editoras e afins, à guisa de divulgação.

– Encho as caixas e, de tempos em tempos, mando para lá – foi o que ele me disse. – Sei que já até montaram uma biblioteca comunitária com esse material.

Bibliófilo inveterado, pedi para o motorista fazer um pequeno desvio de minha pauta da vez para que eu pudesse gastar uns 15 minutos entre as estantes metálicas e empoeiradas da tal biblioteca.

Como sói acontecer nesses espaços, os livros estavam classificados sob temas. Notei que o espaço dedicado a obras teóricas e técnicas do mundo do jornalismo era desproporcionalmente grande – o que, obviamente, entregava a origem de tal acervo.

Olhei para o relógio e decidi apanhar um livro, à esmo, só para folhear. Era uma obra assinada por um outro jornalista famoso, à época colega de emissora do referido benfeitor da biblioteca. Ao abrir o livro, deparei-me com uma dedicatória, manuscrita e seguida de autógrafo do autor, das mais longas e derramadas que já vi em livros:

“Ao meu querido e estimado mestre Fulano de Tal, com quem aprendi tudo o que sei de jornalismo e, por que não admitir, da vida, ofereço estas garatujas em forma de humilde obra. Não com a pretensão de que você daqui aprenda algo – afinal, nada do que escrevi neste livro ser-lhe-á novidade –, mas, sim, com a sincera expectativa de que reconheça nas lições deste aprendiz os ensinamentos obtidos com suas aulas diuturnas de profissionalismo, ética e método.”

(Não eram exatamente tais as palavras, claro, porque eu não sou nenhum Google para ter memória cache.)

O segundo fato anedótico foi justamente quando contei esta história a um muito conhecido escritor brasileiro contemporâneo – na ocasião, inclusive, dando nome aos bois.

Conversávamos em seu escritório pessoal. Ao fundo, uma imensa coleção de livros, que mal cabiam nos vãos de sua imponente estante. Entusiasta de novos talentos, este escritor havia me confessado receber, todos os meses, dúzias e dúzias de publicações editoriais – em geral de paupérrimas literaturas.

– É por isso que eu tenho uma regra. A primeira coisa que faço quando ganho um livro, tão logo o escritor sai da minha sala, é arrancar a folha de rosto. Assim, pouco importa se a obra será eleita a figurar em minha biblioteca ou se será descartada: jamais alguém poderá alegar descaso do presenteado com o presenteador, mesmo em vis casos em que o segundo cometera crime de lesa-idioma.