Em um ano, adoção de praças mais que triplica
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Em um ano, adoção de praças mais que triplica

Reportagem identificou, entretanto, problemas nos cuidados com essas áreas verdes

Edison Veiga

13 Março 2016 | 22h00

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Foto: Sergio Castro/ Estadão


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Desburocratizado pela gestão Fernando Haddad (PT), o programa municipal de adoção de praças – em que a iniciativa privada se responsabiliza pela manutenção de áreas públicas da cidade – saltou de 140 para 520 parcerias do fim de 2014 para o início deste ano. No total, 466 empresas, entidades ou pessoas físicas são zeladoras de praças paulistanas.

Quando o projeto foi relançado, em março de 2015, a ideia era agilizar as adoções, que agora são formalizadas em, no máximo 22 dias, e descentralizar os termos. Antes, todo contrato precisava ser firmado junto ao gabinete do prefeito; agora, para áreas menores do que 5 mil metros quadrados, caso da maioria delas, o acordo é feito diretamente na subprefeitura responsável.

Mas nem tudo são boas notícias. Nos últimos dias, a reportagem foi conferir a situação de algumas dessas praças. Uma delas, bastante emblemática por sinal, é a Victor Civita, em Pinheiros (foto acima). No último dia de 2015, chegou ao fim a parceria entre o Grupo Abril e a Prefeitura de São Paulo. A praça, inaugurada em 2008, ocupa um espaço de 14 mil metros quadrados de um solo contaminado por conta do funcionamento de um antigo incinerador de lixo.

Da inauguração, em novembro de 2008, até quatro anos atrás, a Praça Victor Civita foi gerida pelo Instituto Abril, entidade da empresa editorial homônima. Desde 2011, a gestão do logradouro foi assumida pela Associação Amigos da Praça Victor Civita, formada pelas empresas Elemidia – que chegou a pertencer ao Grupo Abril –, Sabesp, além da editora Abril. “Embora todas as atividades oferecidas venham de forma graciosa, manter uma estrutura com tantas particularidades exige tratamento diferenciado, o que custa alguns milhares de reais por mês”, justificou a associação, em nota, no fim do ano. “Seria de se estranhar se a crise que o país enfrenta não nos atingisse. Perdemos empresas parceiras mantenedoras e outras não aderiram ao projeto.” A associação não informou, entretanto, o valor médio necessário para a manutenção da área verde.

A reportagem esteve no local na última semana do ano e constatou que todos os equipamentos erguidos pela parceria foram entregues em boas condições. Desde então, a Subprefeitura de Pinheiros assumiu a gestão. Na quinta retrasada, quando o Estado voltou ao endereço, pôde-se notar que as instalações seguem em ordem, mas sem o mesmo esmero da administração privada. Nos vãos do piso, por exemplo, já há mato nascendo. “Como se trata de um praça peculiar, pelo histórico e pela estrutura, decidimos abrir um chamamento público para empresas interessadas em assumir a gestão”, anuncia a subprefeita de Pinheiros, Harmi Takiya. O processo deve ser divulgado ainda neste mês, de acordo com a pasta.

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Mais praças. Com 75 praças adotadas, Pinheiros é a subprefeitura com mais parcerias do tipo, segundo informa a administração municipal. “Em 99,9% dos casos, é um acordo muito simples: a empresa ou a pessoa física faz um projeto de manutenção da área verde e nós aceitamos e fiscalizamos”, explica Harmi. “Em alguns casos, o proponente também oferece serviços de segurança e outras melhorias.” Em contrapartida, a empresa pode instalar no local uma plaquinha de publicidade de 60 cm por 40 cm a cada 1,5 mil metros quadrados.

A diferença entre a gestão privada e a pública é notável. No mesmo bairro em que a Victor Civita persiste como exemplo, há casos como a das praças dos Omaguás e Reverendo João Yasoji, que não são adotadas e onde, frequentemente, há acúmulo de lixo e entulho – como a reportagem notou em duas visitas realizadas a cada uma no início deste mês. Questionada, a Prefeitura limitou-se a responder, em nota, “que os locais recebem os serviços de limpeza diariamente”.

Outro exemplo é a Praça Ramos de Azevedo, no centro da cidade. Em 2013, a empresa Votorantim, que conservava a área, “devolveu” o trabalho para a administração municipal. O cuidado não é mais o mesmo. Na última semana, havia bastante sujeira nos gramados e os chafarizes não estavam funcionando. Questionada sobre ambas as questões, Suprefeitura da Sé apenas afirmou, em nota, que a praça “não possui termo de cooperação e recebe os serviços diários de limpeza e coleta”.

Análises. Arquitetos e urbanistas veem com bons olhos esse tipo de gestão privada do espaço público. “Seria ótimo se a Prefeitura conseguisse dar conta de oferecer o serviço com qualidade, mas não é assim. Nossas praças são ambientes sujos, desestruturados e inseguros. Deste modo, a parceria me parece uma solução muito boa para estimular a reativação destes nossos espaços, mantendo-os limpos, seguros, equipados, iluminados e bem cuidados. Tem tudo para dar certo”, avalia o arquiteto e urbanista Henrique de Carvalho, do ateliê Tanta (leia artigo em que o profissional apresenta seus pontos de vista). “São felizes possibilidades de casamento entre o privado e o público”, acredita a arquiteta e urbanista Adriana Levisky, do escritório Levisky Arquitetos Estratégia Urbana – autor, inclusive, do projeto da citada Victor Civita.

Parece funcionar bem. Na Rua Avanhandava, região central da cidade, a Brookfield cuida, desde junho, da Praça Recanto do Palhaço Sputnik. Pequeno, o espaço foi totalmente recuperado, com novo paisagismo. A empresa faz a limpeza semanal do local. Entretanto, há pichações – de acordo com a assessoria da imprensa da Brookfield, eliminá-las não faz parte do termo firmado com a Prefeitura.

Foto: Eliaria Andrade/ Estadão

Foto: Eliaria Andrade/ Estadão

Importante marco do centro paulistano, a Praça Princesa Isabel (foto acima) é cuidada pela Porto Seguro desde 2013. A empresa investe R$ 9 mil mensais na manutenção do espaço público. Em visita ao local, na quinta da semana retrasada, a reportagem notou lixo acumulado em diversos pontos e pichações no monumento central – Monumento à Duque de Caxias, de Victor Brecheret (mais fotos abaixo). “Nosso termo de cooperação com a prefeitura prevê a manutenção geral da área de jardinagem, plantio de espécies adequadas ao local e poda de espécies de pequeno e médio portes. Além disso, varremos os resíduos (lixo de pequeno porte) dos passeios e calçadas da praça todos os dias pela manhã e à tarde”, respondeu a empresa, em nota.

A Prefeitura ressaltou que o termo de cooperação firmado ali é somente para os cuidados com o paisagismo. “A Praça Princesa Isabel possui termo de cooperação apenas para serviços de jardinagem. Os serviços de limpeza e coleta são realizados por equipes da Subprefeitura”, explicou a administração municipal, em nota. “Em relação às pichações, a limpeza, que é um serviço orientado pelo Departamento de Patrimônio Histórico, entrará na programação.”

Foto: Eliaria Andrade/ Estadão

Foto: Eliaria Andrade/ Estadão

Foto: Eliaria Andrade/ Estadão

Foto: Eliaria Andrade/ Estadão

A Porto Seguro também cuida das praças Liceu Coração de Jesus, nos Campos Elísios; Davi Raw, na Barra Funda; além de um canteiro da Avenida Governador Carvalho Pinto, na Penha.

Na Mooca, zona leste da cidade, o supermercado Extra é responsável pela Praça Ciro Pontes, visitada pela reportagem em duas ocasiões desde o início deste mês. Ali, foram notados pontos com acúmulo de lixo, pichações em bancos e até no tronco de uma árvore, além de mato alto sobretudo no canteiro mais central. Em nota, a empresa informou que vai “analisar os pontos levantados” pela equipe do Estado e então deve tomar “medidas cabíveis necessárias para a manutenção da praça”. Questionada, a Subprefeitura da Mooca informou que “já acionou o cooperante para que realize as manutenções necessárias”.

Outro modelo. Em um modelo semelhante, a Sabesp, empresa de economia mista, transformou alguns de seus terrenos em áreas públicas. Instalados no ano passado, os parques Sabesp Butantã, Cangaíba e Mooca, todos projetados pelo escritório Levisky Arquitetos Estratégia Urbana, venceram a última edição do Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), na categoria Arquitetura – Espaços Públicos. “Ali há um trabalho de conteúdo, já que os parques são também museus a céu aberto, em que a água é personagem principal”, comenta Adriana.

>> Em artigo, arquiteto contextualiza problemas e soluções do programa.

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