Por dentro da Seção de Denominação de Logradouros
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Por dentro da Seção de Denominação de Logradouros

Edison Veiga

06 de agosto de 2013 | 17h53

(Em coluna recentemente veiculada pela rádio Estadão, falei sobre alguns curiosos nomes de ruas de São Paulo. Como é um tema bem bacana, reproduzo abaixo, aos interessados, uma matéria que escrevi para o Estadão em 2010 – e que ajuda a entender um pouco como funciona a Seção de Denominação de Logradouros, do Arquivo Histórico Municipal.)

Não é fácil resumir em um catálogo o emaranhado de ruas, avenidas, praças, viadutos e demais logradouros públicos paulistanos. Mas isso existe. E guarda um pedaço da memória da cidade. Na Seção de Denominação de Logradouros Públicos – que funciona em duas salas contíguas no prédio do Arquivo Histórico Municipal, no bairro da Luz – estão registrados 48.138 nomes. Todos podem fazer muito sentido aos moradores desses endereços, mas 5.288 deles – quase 11% do total – não têm explicação registrada.

“Em geral, são processos de denominação muito antigos, em que não foram apresentadas justificativas oficiais”, conta o historiador Maurílio Ribeiro, chefe da seção. “E nossa função é administrativa, não técnica. Não podemos nem temos equipe para fazer pesquisa de campo.”

Esse buraco nas informações pode inviabilizar a intenção da Prefeitura de colocar nas placas de endereço, a partir deste ano, minibiografias das pessoas que batizam as ruas. “Só conseguiríamos ter um histórico de tudo com uma força-tarefa.”

Além dos 11% que não têm detalhamento, há ruas cujas informações são insuficientes. O registro da General Jardim, na Consolação, por exemplo, só diz que ele foi um notável “defensor da legalidade”. A Rodrigues Pais, em Santo Amaro, refere-se ao “primeiro juiz municipal”.

O problema foi enfrentado entre 2001 e 2003 pela nutricionista Silvia Costa Rosa. Ela escolheu as ruas cujos nomes mais chamaram a sua atenção e decidiu escrever um livro. 1001 Ruas de São Paulo foi publicado em 2003. “Mas tive de deixar várias de fora, como a Wisard, na Vila Madalena, porque as informações não eram suficientes.”

MEMÓRIA URBANA
A seção foi criada na década de 30, quando Mário de Andrade (1893-1945) era diretor do Departamento Municipal de Cultura – hoje Secretaria Municipal de Cultura. A ideia era ter um órgão responsável por prestar consultoria sempre que uma rua fosse batizada – ou tivesse o nome alterado. A seção também se encarregaria de pesquisar a origem das vias.

Hoje, o trabalho de Ribeiro e equipe é dividido em várias frentes. Todos os meses, de 10 a 15 ofícios chegam da Prefeitura pedindo uma consultoria com relação à nomeação de novas ruas ou alterações. A origem desses documentos pode ser tanto do Executivo quanto do Legislativo – Ribeiro conta que há vereadores que são verdadeiros “especialistas” em batizar ruas. “Nosso parecer é apenas consultivo, não deliberativo.” Ou seja: mesmo que a seção recomende a não alteração de um nome, os poderes podem resolver mudá-lo.

“Na mudança da Avenida Águas Espraiadas para Jornalista Roberto Marinho, por exemplo, fomos contra.” Em 2010, chegou até ele outra proposta. O vereador Carlos Apolinário (DEM) apresentou à Câmara projeto para mudar o nome do Viaduto Pedroso, na Liberdade, para Pedroso Dr. José Aristodemo Pinotti. “Pelo crescimento da metrópole, é garantido que não faltará logradouro importante para ser nomeado”, diz o parecer, desfavorável à mudança.

Outro trabalho da seção é ler o Diário Oficial do Município. “Quando há alguma alteração ou nomeação de logradouros, ficamos sabendo por meio da publicação.” Desde 2003, esse material pode ser consultado no site Dicionário de Ruas. Ainda há a função de alimentar as pastas com informações colhidas em jornais e revistas.

Por último, um trabalho de formiguinha. “Descobri no arquivo umas fichinhas, dos anos 70, com informações de nomes que não estavam em nossa base de dados”, revela o historiador. “Estou fazendo uma seleção para usar as informações.” Um ano depois, Ribeiro estava na letra C.

RUAS “PERDIDAS”

Wisard, Vila Madalena
O trecho entre as Ruas Girassol e Fidalga recebeu o nome em 1939. Posteriormente, entre 1940 e 1943, outros trechos foram acrescentados. Acredita-se que o nome tenha sido sugerido pelo loteador ou pelos primeiros moradores.

Purpurina, Vila Madalena
O nome foi registrado em 1939. Até então, era uma rua particular. Vinte anos depois, a denominação foi oficializada. Não há explicações nos registros sobre a origem do nome.

General Jardim, centro
Registro afirma apenas que o general João José Jardim foi um defensor da liberdade, entre os anos de 1893 e 1894.

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