Paulistanos
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Alguns personagens comuns da cidade - e suas neuras, e seus dilemas, e seus gostos

Edison Veiga

01 Fevereiro 2015 | 07h11

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão


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Alecrim não tem a menor ideia do motivo que levou seus pais a lhe darem esse nome. Ele até gosta.

Em 1992, quando os caras-pintadas foram às ruas, Alecrim nem sequer tinha nascido. Em 2013, quando as manifestações contra quase-tudo-o-que-estava-aí-e-ainda-continua se tornaram históricas, ele preferiu fazer ativismo de sofá via internet – tinha uma conta no Twitter onde postava frases que viviam gerando trending topics, como se diz.

Agora, Alecrim acompanha com interesse grande os novos protestos contra o aumento da tarifa do ônibus. Torce pelo quanto pior, melhor. Não vê a hora de retomar sua fama virtual.

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Eurípedes sempre gostou de viajar. Para uma pousadinha bucólica no interior, porque ali não pega celular. Para um hotel no meio da selva amazônica, porque ali não tem energia elétrica, nem água encanada.

Para Eurípedes, viajar é um exercício zen de desapego. A aventura já começa no trajeto, quando o desapego necessário é o do tempo. Viajar para longe significa perder horas e horas e horas – dentro de um carro, dentro de um trem, dentro de um ônibus, dentro de um avião, dentro de um navio.

Em suma, Eurípedes usa as férias para abrir mão. De confortos e de tempo.

Como Eurípedes mora em São Paulo, ele percebeu que não precisa mais viajar para lugar algum para ser feliz. Hoje em dia, na maior cidade do Brasil, ficou fácil não ter: luz elétrica, água, sinal de celular, tempo.

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Dona Lurdinha é daquelas que apreciam amizades fortuitas adquiridas em filas. Em sua casa, sempre se prontificou a fazer as tarefas burocráticas, portanto. Banco toda semana. Correio, também. Cartório, por que não precisamos de cartório todos os dias meu Deus? As melhores filas são as do cartório. Loooooongas. Cheeeeeias. A-le-a-tó-ri-as.

Dona Lurdinha descobriu uma vez um restaurante famoso na Vila Medeiros. Comida boa, bebida boa, isso quase ninguém discute. Mas o melhor, para Dona Lurdinha, é que lá ela pode chegar na hora do almoço e só ser servida para o jantar. Uma maravilha. Quantas amizades Dona Lurdinha faz numa tarde de sábado?

Aí que nos últimos anos veio o suprassumo da alegria para ela: as exposições bacanas que viraram moda em São Paulo. O sonho de Dona Lurdinha é que seja inventado um dia com 72 horas. Então ela poderá ir ao correio, ao banco, ao cartório, almoçar nesse restaurante e ainda visitar duas exposições em cartaz. Tudo no mesmo dia. O dia perfeito.

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Réveillon para Vanessa só tem sentido se passado à beira-mar. O ritual das sete ondinhas. O pé na areia. Os fogos de artifício sobre as águas.

Se Vanessa só tem o próprio dia de folga, não tem problema. Para Vanessa, não há nada de errado em ficar oito horas na ida e oito horas na volta para chegar até a praia, ver o mar, pular sete ondinhas, sentir o pé na areia, ver os fogos de artifício. Mesmo que lá acabe ficando apenas outras oito horas.

Vanessa começa o ano assim. Pé direito molhado na água salgada. Depois, pé direito entre acelerador, freio, acelerador, freio. Ela ignora cãibras.

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Jorge é um rapaz descolado, tem bigodes e está sempre antenado com a última moda comportamental. Ultimamente, tem comemorado a volta da comida de rua em São Paulo.

Porque agora Jorge não precisa mais ir para a gringa comer um sanduba num trailer. Eu disse trailer? É food truck. Repita: food truck.

(Mas que estranha é essa versão paulistana de comida de rua. Todos os trailers ficam em um mesmo endereço, um ao lado do outro. É um cercadinho. São vários cercadinhos, espalhados pela cidade. Comida de rua não era para ser na rua?)

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Seu Alfredo acredita em Deus. Não estou aqui para discutir a existência ou não de Deus, muito menos para tornar expostas, assim, para todos, minhas próprias crenças pessoais. Mas Seu Alfredo, posso atestar aqui, acredita em Deus.

Por isso ele sempre se fiou na conversa do governador – que, ao que consta, também acredita em Deus – de que a culpa pela iminente caos que enfrentaremos, esse colapso histórico do abastecimento, é de São Pedro.

São Pedro é o cara que tem, além das chaves do céu, o acesso direto ao registro geral lá do Céu. Ele abre as toneiras e, cabrum!, chove chuva, chove sem parar. E realmente estamos enfrentando a pior estiagem da história.

Mas fico imaginando aqui quão bravo deve estar esse São Pedro. Um ano ouvindo isso de que é culpado, etc. etc. etc. Tanto desacato, tanto impropério ouvido, não é mesmo de se admirar se o dito cujo resolver cruzar os braços de vez, dar ao Seu Alfredo, ao governador e a tantos milhões uma lição.

Tempo para investimentos, houve. Faz mais de dez anos que especialistas alertam para o que vivemos hoje.

Pobre São Pedro!

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