Passeata em São Paulo: a cidade exige ópera
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Passeata em São Paulo: a cidade exige ópera

Edison Veiga

25 de outubro de 2013 | 12h36

O Movimento Passe Livre (MPL) marcou uma manifestação para hoje, a partir das 17h, com saída em frente ao Teatro Municipal. Quase cem anos atrás, essas mesmas escadarias foram palco de outro protesto contra tarifas – mas, naquele caso, a briga era pelo preço das óperas. Abaixo, um dos capítulos do livro O Theatro Municipal de São Paulo – Histórias surpreendentes e casos insólitos, que escrevi em parceria com Vitor Hugo Brandalise.

FOTO: EDISON VEIGA/ ESTADÃO

As ruas do centro da cidade, naqueles dias de setembro de 1915, amanheceram barulhentas. Em passeata, os imigrantes italianos gritavam furiosos – faziam um protesto que São Paulo jamais havia visto. Um século depois, o motivo seria impensável: o que revoltava os imigrantes eram os altos preços da temporada lírica praticados pelos empresários do Municipal.

A paixão pela ópera em São Paulo, nas primeiras décadas do século XX, chegava a este extremo: conseguia levar às ruas seu maior público, os imigrantes italianos, que cobravam da organização ingressos mais baratos.

Walter Mocchi, o empresário que promoveu as primeiras temporadas do Municipal, estava acostumado a lidar com a pressão – era um tempo em que quase não havia opções de lazer, e as temporadas no Municipal eram curtas e disputadíssimas. Produtor já experiente do Teatro Colón, de Buenos Aires, Mocchi não costumava decepcionar. Foi ele o primeiro responsável por colocar São Paulo na rota operística mundial. De 1912 a 1926, promoveu todos os espetáculos líricos do Theatro: por suas mãos, estrearam artistas como a soprano Amelita Galli-Curci (1912) e os tenores Tito Schipa (1914), Enrico Caruso (1917), Beniamino Gigli (1920) e Bidu Sayão (1926) – célebre soprano que, mais tarde, seria sua esposa.

Na explosiva temporada de 1915, as principais atrações eram Titta Ruffo, Galli-Curci e Hipólito Lázaro. Mocchi, também italiano, entendia perfeitamente a forma exaltada como os conterrâneos apreciavam a ópera e a frustração por não conseguir assisti-la: o amor ao lírico era sentimento que vinha da infância, brotava da lembrança das cantilenas em casa, das árias entoadas pelas mães nos quintais da pátria. Em São Paulo, os bairros do Brás, da Mooca, da Barra Funda e do Bixiga eram refúgios desse amor.

Respeitando o sentimento que causava nos imigrantes italianos reações tão intensas quanto as provocadas pelos times de futebol – e, naturalmente, assustados com o que viram e ouviram nas ruas –, os empresários Mocchi e Faustino da Rosa decidiram ceder. Dariam um jeito de acalmar os ânimos.

Mas não mexeriam na temporada do Municipal.

O que fizeram foi promover um concerto extra de Aida – com Rosa Raisa, Bernardo De Muro e Giuseppe Danise nos papéis principais – a preços populares, no estádio do Palestra Itália. Com um requinte: na plateia estava Titta Ruffo, o mesmo que inaugurara o Municipal quatro anos antes. Tentava passar despercebido, mas a estratégia não funcionou: foi descoberto e, sob os gritos do público, teve de subir ao palco e dar uma palhinha. À paisana, com terno discreto e chapéu, interpretou o prólogo de I Pagliacci.

A passeata, o protesto, as palavras de ordem no centro da cidade, pelo visto, tinham valido a pena. Mais uma vez, os italianos exigiam – mais uma vez, eram atendidos.

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