Para devorar livros
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Para devorar livros

Lanchonetes e restaurantes de SP apostam em bibliotecas coletivas para descontrair ambiente e cativar clientela

Edison Veiga

04 de outubro de 2015 | 07h17


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Esqueça poeira, silêncio, organização exagerada, carteirinha de empréstimo. Nas pequenas bibliotecas que surgem em lanchonetes, restaurantes e até parklets de São Paulo, as palavras de ordem são outras: horizontalidade, coletivo, bookcrossing, autogestão. Com boas pitadas de marketing, é claro.

Foto: Cesar Cuninghant/ Estadão

Foto: Cesar Cuninghant/ Estadão

É o caso da Rock’nRoll Burger, lanchonete que existe desde fevereiro de 2012 no burburinho da Rua Augusta, região central de São Paulo. Há um ano, o local passou a integrar o projeto Esqueça o Livro, inaugurando ali uma estante para cerca de 100 exemplares. “A ideia é que as pessoas deixem livros diversos e levem para casa quais quiserem. Isso gera uma rotatividade, fazendo com que tenham a oportunidade conhecer outros títulos e gêneros literários”, afirma o proprietário da casa, Gabriel Gaiarsa.

Inicialmente, os títulos que compunham a biblioteca eram apenas das áreas de Gastronomia e Música – pela própria ligação com a lanchonete. Como a participação do frequentador é ativa na composição do acervo, hoje a coleção é mais heterogênea.

Foto: Cesar Cuninghant/ Estadão

Foto: Cesar Cuninghant/ Estadão

“Além de despertar a curiosidade e o interesse pela leitura de quem passa por ali, o projeto é importante para criar um senso de comunidade”, avalia Gaiarsa. “Ou seja, fortalecer o laço entre a lanchonete e as pessoas do bairro, da região. Muitos acabam voltando para trocar ou ceder livros para o projeto.”

Cinco meses atrás, quando resolveu que queria um parklet em frente ao seu restaurante – o Maíz, em Pinheiros – o chef colombiano Dagoberto Torres pensou em livros. “Porque além de um espaço, queria oferecer alguma atividade para as pessoas”, conta. Saiu garimpando pelos sebos da região e comprou 25 títulos – todos de literatura hispano-americana, em destaque obras de seu conterrâneo Gabriel García Marquez (1927-2014). “Mas os próprios sebos acabaram gostando do projeto e doando mais de 50 obras. No dia seguinte, então, uma senhora parou o carro aqui na frente e acabou deixando outros 30 e tantos livros”, recorda-se.

Com a integração dos usuários, a temática hispano-americana se perdeu. “Outro dia, vi que tínhamos a coleção completa do Harry Potter, por exemplo”, conta. Torres não vê nisso um problema. Pelo contrário. “É superlegal. A biblioteca ficou viva e natural”, avalia.

No discurso da sorveteria Ben & Jerry’s, na Rua Oscar Freire, está a preocupação com o “prazer do consumidor”. A biblioteca comunitária existe ali desde setembro do ano passado, quando a unidade foi inaugurada. “É um cantinho de prazer, inspiração e sabedoria. Ao entrar ali, esperamos que o nosso consumidor, não só se delicie com um sorvete cheio de pedaços e história, mas também pare para fazer algo que lhe dê prazer”, afirma a publicitária Renata MCNair, porta-voz da Ben & Jerry’s no Brasil. “Como a sorveteria é frequentada por um público heterogêneo, usamos nosso espaço para oferecer leitura de qualidade ao paulistano.”

Em maio, o acervo passou a ser melhor pinçado. Foi quando o estabelecimento firmou parceria com o jornalista Ricardo Lombardi, proprietário do sebo Desculpe a Poeira. Desde então, ele atua como curador da coleção, oferecendo cerca de 40 títulos por mês para repôr os levados pelos frequentadores. “Nessa tarefa, acho que o mais importante é escolher livros que não estão no radar da maioria das pessoas, pois é mais divertido esbarrar em títulos que você não conhecia”, comenta Lombardi. “Conectar novos leitores com livros desconhecidos é o mais interessante desse tipo de trabalho.”

Pequenos leitores também têm vez. Na rede America, em 2008 houve um projeto chamado Ponto Livro Livre, em que crianças podiam levar livros para casa – deixando exemplares usados para que outras pegassem. Foi uma ação por tempo limitado, de apenas três meses. “Mas a ideia foi tão bacana que resolvemos, então, implantar logo na sequência o Cantinho da Leitura, com pequenas estantes recheadas de livros do universo infantojuvenil”, conta Mirella Scorza, gerente de marketing da empresa. “Diferentemente do projeto inicial, entretanto, agora a proposta era que as crianças fizessem a leitura dentro dos restaurantes.” Atualmente, há livros em todas as unidades paulistanas da rede.

“Foram selecionadas obras das principais editoras infantojuvenis do mercado, e entre seus títulos buscamos comprar os mais interessantes entre os lançamentos e os best-sellers”, diz Mirella. “Achamos que os livros são uma forma de diversão que estimula o lúdico e o prazer pela leitura, tão importantes nessa fase da vida. Para nós é um orgulho ver que algumas crianças chegam no America e vão direto escolher seu livro, antes mesmo de se sentar à mesa.”

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