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Outras São Paulos

CRÔNICA

Edison Veiga

30 Maio 2017 | 00h58

Imagem: Arquivo Histórico Municipal

Chamava-se São Paulo, Tramway, Light and Power – mas todo mundo dizia apenas Light – a concessionária dos serviços públicos de transportes e energia da cidade. Em 1927, a empresa administrava 250 quilômetros de linhas de bondes e propôs a instalação de “linhas de trânsito rápido”. O projeto, batizado de “São Paulo do Futuro”, afirmava ser necessário criar o “subterrâneo”, não pela “intensidade do tráfego”, mas “pela insuficiência das ruas”.

Sim, tivessem topado a ideia e São Paulo teria um metrô quase centenário. De repente não seria tão avarenta nossa coleção de parcas linhas e suas insuficientes estações…

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A primeira viagem de metrô de São Paulo, ainda como teste, ocorreu em 1972. Oitenta e quatro anos antes, o engenheiro alemão Alberto Kuhlmann quis fazer uma via férrea que poderia muito bem ter sido o marco inicial do transporte urbano sobre trilhos por aqui.

Eis a história: em 24 de março de 1888, o alemão obteve da Assembleia Legislativa Provincial o direito de explorar por 50 anos a estrutura elevada metálica entre os largos do Rosário e do Paiçandu – unindo, portanto, o centro ao outro lado do Anhangabaú, justamente para onde a cidade crescia. Os moldes lembravam o de uma PPP.

Sua ideia era oferecer um transporte por carros puxados por pequenas locomotivas a vapor.

Só que Kuhlmann fracassou. Não conseguiu cumprir os prazos do contrato e teve de desmontar tudo o que já estava feito.

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A Lina era já renomada arquiteta. Mas não inventou o Masp assim, de uma sentada só, de uma ideia só, da noite para o dia. Na casa onde ela morava, no Morumbi, hoje convertida em museu, há cerca de 700 croquis e estudos que ela fez até chegar ao projeto definitivo para a icônica sede da instituição paulistana.

No mais inusitado deles, ela aventava a possibilidade de que o Parque Tenente Siqueira Campos, mais conhecido como Trianon, avançasse sobre a Avenida Paulista – de maneira a ficar integrado ao vão livre do museu.

Pelo seu projeto, nesse quarteirão da Paulista o trânsito de veículos seria subterrâneo. Uma curiosidade presente no desenho é o apelido com o qual ela se referia à área verde: “Central Park dos pobres”.

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Um dos principais projetos do conselheiro Antonio Prado, primeiro prefeito de São Paulo desde que o cargo foi criado em definitivo, em 1899, jamais saiu do papel. Ele queria fazer um imenso parque de 1,3 quilômetro quadrado na região da Avenida Paulista.

O plano era preservar a vegetação da encosta do espigão da Avenida Paulista voltada para o lado de Pinheiros, onde hoje ficam os Jardins América e Paulista. Na região, havia uma reserva de Mata Atlântica conhecida como Mata do Caaguaçu.

Na virada do século 19 para o 20, a especulação imobiliária tratou de acelerar o loteamento de tudo. O projeto de Antonio Prado nem sequer chegou a ser apreciado pela Câmara.

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O centro de São Paulo poderia ser igual ao de Paris. Ou, pelo menos, ao de Buenos Aires.

Em 1911, logo que assumiu seu mandato, o prefeito Raimundo Duprat investiu 5 mil libras esterlinas e contratou o arquiteto e urbanista francês Joseph-Antoine Bouvard para repensar a organização da cidade.

Bouvard era dono de belo currículo. Diretor honorário dos serviços de arquitetura, passeios, viação e do plano da cidade de Paris, ele tinha sido o responsável pela remodelação urbanística de Buenos Aires em 1907.

O francês ficou 40 dias em São Paulo, chegou a fazer um relatório dos pontos prioritários a serem melhorados, propôs um traçado mais orgânico das ruas centrais… Até 1914, algumas mudanças chegaram a ser feitas: a Rua São João, por exemplo, transformou-se em avenida; a Líbero Badaró foi alargada, assim como outras vias centrais; a Praça do Patriarca teve sua criação aprovada.

Aí veio a Primeira Guerra Mundial. Bouvard não apareceu mais, o dinheiro ficou curto, e restou a São Paulo um destino urbanístico mais caótico do que os de Paris e de Buenos Aires.

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Em 1940, o interventor federal Ademar Pereira de Barros desapropriou a Fazenda do Jaraguá, onde estavam os dois pontos mais altos do município – os Picos do Jaraguá, com 1.135 metros, e do Papagaio, 1.127 metros.

O governo montou, então, uma comissão de notáveis para pensar ali um parque – da qual fazia parte o historiador Afonso d’Escragnolle Taunay. O anteprojeto, veja só, foi apresentado em aquarelas de José Wasth Rodrigues. Previa estátuas de 12 bandeirantes, lagos e, a cereja do bolo: uma escultura de 90 metros de altura de São Paulo, o apóstolo, no alto do pico.

Seria o Cristo Redentor paulistano. Desta, ao menos, escapamos.

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