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Oscar Freire enfrenta ‘fuga’ de lojas

Edison Veiga

05 de outubro de 2013 | 18h14

Valorização do trecho mais nobre da rua – onde fios foram aterrados e as calçadas, alargadas – resultou no aumento do preço do aluguel

Com colaboração de Adriana Ferraz


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Sete anos após a reforma que lhe conferiu ares de bulevar, o trecho mais nobre da badalada Rua Oscar Freire sofre uma consequência da súbita valorização imobiliária: não está fácil achar inquilinos dispostos a pagar aluguéis de até R$ 300 por metro quadrado – fora o preço das luvas.

Só com placas de “passo o ponto” ou “aluga-se”, a reportagem contou sete imóveis ao longo das últimas duas semanas, considerando apenas os seis quarteirões com fios aterrados e calçadas mais largas, entre as Ruas Dr. Melo Alves e Ministro Rocha Azevedo. Ou seja: o frequentador atento da estrelada Oscar Freire já percebeu que, cada vez mais, avisos de imobiliárias convivem com letreiros das caras e exclusivas lojas de grife que marcam espaço ali.

Mas há também imóveis vazios. “Fico em uma sinuca de bico: ou abaixo o preço e corro o risco de perder dinheiro ou mantenho o nível e a pompa do ‘custo Oscar Freire’ e demoro meses para conseguir alugar”, admitiu um proprietário que pediu para não ter o nome revelado. Ele afirmou que constantemente é procurado por empresas e, durante a negociação, percebe que algumas preferem se instalar em shoppings, em vez da badalada rua.

A presidente da Associação dos Lojistas da Oscar Freire, a empresária Rosângela Lyra, concorda que houve um aumento no valor das luvas e dos alugueis “provocado pela revitalização da área”. Mas não acredita que a rua vive um momento de crise, com imóveis vazios. “Eles vão se alternando. Os que estão fechados hoje estarão ocupados amanhã”, diz.

Mercado. Com participação em 70% dos negócios imobiliários realizados na Oscar Freire, a imobiliária Moisés Gomes é a que tem mais informações sobre os valores atualmente praticados no endereço. “Sem dúvida que a reforma influenciou bastante no preço”, afirma o atual proprietário da empresa, Adriano Gomes.

Ele conta que recentemente um imóvel foi negociado – um restaurante na esquina com a Haddock Lobo – com luvas de R$ 5,5 milhões. Para os envolvidos no mercado, luvas é o preço combinado pelo valor do “ponto”, sem contar o aluguel. Em geral, os valores praticados hoje na Oscar Freire vão de R$ 500 mil a R$ 2 milhões.

“Mas os aluguéis também subiram muito nos últimos quatro anos”, conta Gomes. “É um pico imobiliário.” Atualmente, os aluguéis pedidos vão de R$ 75 a R$ 300 o metro quadrado. “Mas varia muito de acordo com o proprietário. Tem lugar que vale R$ 20 mil por mês mas o sujeito pede R$ 45 mil”, exemplifica o empresário.

“Sempre digo: mais importante é ter um bom inquilino, como um casamento saudável”, afirma o corretor. “Se todo mundo começar a pedir R$ 100 mil de aluguel, os empresários vão embora da Oscar Freire. E isso ninguém quer. É ruim para o proprietário do imóvel, é ruim para as marcas que estão na rua, é ruim para gente que trabalha com isso.”

Valorização. A subida dos preços da Oscar Freire confirmou-se oficialmente na última semana, quando a nova Planta Genérica de Valores (PGV), usada como base para o cálculo do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), foi apresentada pela Prefeitura.

De acordo com a nova PGV, o valor venal – abaixo do de mercado, utilizado para fins de cálculo de taxas – mais baixo da Rua Oscar Freire hoje é de R$ 2.178 o metro quadrado.

Em 2009, data da última atualizada da PGV, o metro quadrado mais barato na via custava R$ 1.062 – uma valorização, portanto, de 105%. Já o metro quadrado mais caro da Oscar Freire, que compreende exatamente o trecho transformado em bulevar, saltou de R$ 3.547 para R$ 8.396 de 2009 para cá, ou seja, a área valorizou no período 136%.

O valor corresponde à média de subida dos custos imobiliários da cidade, conforme o Estado apurou depois da divulgação da PGV.

PARA LEMBRAR
Desde 2005, duas obras transformaram o trecho mais nobre da Oscar Freire. Em seis quarteirões, entre a Rua Dr. Melo Alves e a Alameda Ministro Rocha Azevedo, os fios elétricos foram aterrados; as calçadas, alargadas; e bancos, instalados. Depois disso, a rua passou a atrair novas grifes, aumentou o número de frequentadores – estimados em uma média de 30 mil por dia – e registrou uma forte valorização imobiliária.

Reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 6 de setembro de 2013

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