Os patrimonialistas
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Os patrimonialistas

ARTIGO

Edison Veiga

25 Janeiro 2016 | 00h49

Foto: Alex Silva/ Estadão

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Por André Rocha e Paula Dias*

Em uma tarde no Sesc Bom Retiro, escutamos uma pessoa contar a história sobre a casa onde nascera ali, naquele mesmo bairro. Mexia e revirava a mochila em busca de três blocos de cimento que apontava com um orgulho irônico para a plateia e dizia: “isso aqui é a minha casa, ou o que sobrou dela, ou melhor… o que a cidade me permite lembrar dela.”

A construção da estação Bom Retiro significou não apenas a mudança de muitas famílias e a demolição de suas moradas, junto com a casa foi-se a memória daquele lugar.

Em São Paulo esse fato acontece quase que diariamente, perdas materiais e imateriais, em locais históricos e culturais, em espaços vivos que, com o passar do tempo, acabam esquecidos ou desaparecidos. O dano é patrimonial, mas mais do que isso, é um apagamento memorial.

Das “sobreviventes”, temos o exemplo da Casa da Memória de Itaquera, de nome auspicioso, o Centro Cultural faz a salvaguarda de lembranças que os antigos moradores do bairro guardam em diferentes formas de registro. Ao contrário do importante Museu do Bixiga, que se encontra deteriorado e fechado. Com belíssimos registros do bairro, é uma pena que não esteja aberto para a população.

Ainda na região central apaga-se cultura. Quem se lembra dos cinemas de rua? Cine Joia, Cine Bijou, Cine República (demolido), Cine Coral, Cine Ritz. Nos acostumamos com os “CineShoppings”, mas antigamente (e não muito tempo atrás), as sessões tinham capacidade para mais de 4 mil pessoas. O andar a pé aos finais de semana para uma ronda nos cinemas, e espiar os filmes em cartaz, ou paquerar pelo decorrer das filas que cruzavam esquinas na região central. Lotados de gente, lotados de vida.

O tempo passa e as histórias muitas vezes não ficam. Na busca em recuperar nossos prédios históricos, como o Cine Joia, instalado em um cinema especializado em projeções de cineastas japoneses, inaugurado em 1952, conseguiu reabrir as portas para festas musicais. Alguns empresários estão investindo e empresas estão pegando carona – ainda bem! – na restauração de nossa memória. Também os clássicos teatros no centro, como o Teatro Record, inaugurado em 1959 e onde era gravado o programa sensação da TV na década de 60, “Jovem Guarda” do Roberto Carlos, além dos históricos Festivais de MPB e shows internacionais do naipe de Ella Fitzgerald e Charles Aznavour. Atualmente o local é ocupado por uma loja de lustres.

Ser morador da cidade de São Paulo é isso: nunca poder permanecer.

Quando o filho nasce, a cidade onde os pais foram crianças não está mais lá. E a memória não encontra apoio nem reforço no que existia. Como uma maldição daquelas dos contos de fadas.

Do contexto budista de impermanência, onde nada é e tudo está, é preciso que estejamos presentes na cidade atual, resgatando e preservando a memória do nosso patrimônio. Essa construção envolve todos os setores de nossa sociedade; demolir ou resgatar esse sentimento de pertencer é uma responsabilidade nossa, e mais do que isso, é um exercício que fazemos à nossa percepção de estar presente, de fazer a diferença no momento atual que vivemos essa (jovem) cidade.

Recentemente foi “descoberta” pelo pesquisador José Roberto Walker, no centro de São Paulo, a lendária garçonnière do escritor Oswald de Andrade. O prédio já é protegido como patrimônio material desde 1992, mas existe um patrimônio cultural por trás que está esquecido. São questões que a sociedade e o poder público precisam refletir para colocar em prática. Como disse o pesquisador Walker, “agora seria bom também dar um uso para esse local tão importante para a história de São Paulo”.

Um depósito no bairro do Canindé que abrigava pedaços esquecidos de estátuas e monumentos históricos, foi resgatado para a montagem da exposição “Memórias da Amnésia” que, em cartaz até fevereiro, recupera um pouco dessa história e traz à tona a memória invisível de São Paulo. São obras que precisam ser (re)conhecidas pelos paulistanos para que seu valor cultural não fique no esquecimento da cidade.

A Jornada do Patrimônio, na qual a Hey Sampa ajudou na construção e colaborou com algumas atividades, mostrou a importância de se integrar o patrimônio na efervescente vida cultural de São Paulo, para sensibilizar o cidadão paulistano da necessidade em proteger os locais históricos e resgatar a nossa memória.

Precisamos ampliar os registros simbólicos e o estímulo em sentido de apropriação, de pertencimento, de construção de identidade para gerar diversidade das relações humanas e assim, aproximar o coração do paulistano ao coração da cidade.

Não é absolutamente intragável saber que um dos mais importantes acervos do Brasil (150 mil peças) esteve encarcerado no Museu do Ipiranga, que por força do tempo e de falta de cuidados está fechado e só reabrirá em 2022? E o Museu da Língua Portuguesa, atingido pelo fogo no último mês de dezembro, uma perda memorial irreversível para a cidade. Como disse o historiador Carlos Dias: “um patrimônio histórico e cultural deveria ser melhor protegido para que coisas assim não aconteçam”.

E você? Quais são suas memórias com a cidade? Temos a cidade que precisamos? Como podemos resgatar ou preservar o sentido de lugar e a individuação que determina o caráter benéfico e a alma da cidade?

Questionamentos que transcendem o ato cívico para o pessoal, no sentido de buscar viver o dia a dia com mais amor e harmonia no espaço que habitamos. Deveríamos ter a vontade de (re)descobrir, (re)conhecer, (re)ocupar e (re)aprender com o local em que vivemos.

Espaços públicos, edifícios, museus, locais históricos e culturais contribuem para o encanto da cidade. Inacabada, complexa, dinâmica e transitória, é o reflexo da quantidade de energia que dispomos para seu cuidado. A cidade somos nós. Comemoremos, então, nossos 462 anos de história.

* André Rocha e Paula Dias são cofundadores da Hey Sampa

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