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“Os concretistas tentaram me cooptar de diversas maneiras”

Edison Veiga

05 de novembro de 2010 | 15h18

Na sequência da série de entrevistas por escrito, o blog conversa com o poeta Mário Chamie, 77 anos. Paulista de Cajobi, ele se tornou conhecido principalmente por ter instaurado o movimento poesia práxis, em 1962, com o livro Lavra Lavra – laureado com o prêmio Jabuti. Em São Paulo, foi Secretário Municipal de Cultura e é professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Desde 1992 ocupa a cadeira 26 da Academia Paulista de Letras.

FOTO: FILIPE ARAUJO/AE

Você nasceu em uma cidade pequena do interior e chegou a São Paulo ainda adolescente. Como foi o espanto da descoberta da metrópole?
Senti o impacto de uma grandiosidade ameaçadora e fascinante, ao mesmo tempo. Passei a entender melhor as diferenças dos dois mundos vitais que compõem o perfil da cultura brasileira: o mundo rural e o mundo urbano.
Isso se refletiu bastante em minha poesia, desde o meu livro de estréia, Espaço Inaugural (1955), até o meu livro Indústria (1967), especialmente.

Em sua trajetória poética, qual é o livro preferido de sua autoria? Por quê?
O bom pai, se tem dois ou mais filhos, não discrimina e nem prefere mais um e menos o outro. Com os livros, isso também acontece. Livro meu, digno de ser publicado, ganha logo a minha estima e a minha preferência. Está claro que, no conjunto das obras de um autor, alguns livros, aos olhos da crítica e do público, acabam se sobressaindo mais. No meu caso, por exemplo, embora o meu livro de poemas, Os Rodízios, de 1958, tenha conquistado o Premio Nacional de Poesia, não obteve ele a repercussão de Lavra Lavra, de 1962. Isto porque, o Lavra Lavra (Prêmio Jabuti para melhor livro de poesia do ano) lançou e instaurou a poesia práxis, no Brasil. Apesar do destino próprio de cada um, tenho preferência igual pelos dois e pelos diferentes quarenta e tantos já escritos por mim. Quando os releio, tenho o prazer intelectual de reencontrar um autor novo que me era desconhecido, e com o qual nem sempre concordo. Nesse sentido, não preciso inventar heterônimos, na trilha de Fernando Pessoa, para conviver com os meus textos e as minhas idéias. Basta que eu seja o homônimo de mim mesmo, como tentei demonstrar no poema Esboço de Breve Manifesto Dromedário, de meu também premiado e preferido livro Caravana Contrária.

E o Mário Chamie leitor, do que gosta?
Gosto de muitas e variadas coisas. Vou e volto aos clássicos antigos, modernos e contemporâneos. Hospedo nas minhas leituras Homero ao lado de Virgílio; Dante ao lado de Shakespeare; Cervantes ao lado de Camões; Sterne ao lado de Rabelais, Proust ao lado de Kafka; Machado de Assis ao lado de Guimarães Rosa, Thomas Mann ao lado de Clarice Lispector,Borges ao lado de Calvino, Oswald ao lado de Mário de Andrade, etc. Gosto bastante dos poetas transgressores tais como o latino Catulo, François Villon, Baudelaire, Rimbaud, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Murilo Mendes, Wallace Stevens, João Cabral, Camilo Pessanha ou mesmo Jorge de Lima. Cito alguns porque a lista não é pequena. Na verdade, hoje, gosto mais de reler do que ler, sem deixar , é claro, de estudar diversos autores novos de real interesse.

Dentre os poetas brasileiros vivos, quais você mais admira? Por quais motivos?
O que me importa é a poesia em si. Para mim, é secundário se o poeta está vivo ou morto. A poesia, que resiste e sobrevive ao tempo, ganha o estatuto da perenidade. Desconfio que o horizonte poético do momento anda um pouco acanhado.
Salvo raríssimas exceções, os poetas de agora, talvez por falta de uma mundividência mais ousada e corajosa, praticam uma poesia datada e sem contribuições mais definitivas ou inovadoras.

Você teve contato com o grupo fundador do movimento concretista, na São Paulo dos anos 50. Pouco tempo depois, rotulado de dissidente, inaugurou a poesia práxis. Em que sentido sua poesia de então se propunha diferente da praticada pelos concretistas? Por que o divórcio?
Nunca estive envolvido com o grupo do movimento concretista. É verdade que os concretistas tentaram me cooptar de diversas maneiras. Quando perceberam que as suas tentativas nesse sentido fracassaram, resolveram me envolver pelos falsos meios da desqualificação indireta do meu trabalho individual de criação poética. Inventaram, então, a balela de que eu era dissidente deles. Ora, a poesia práxis é um projeto independente, cujas características próprias não só se opõem como combatem a ortodoxia do concretismo, em todas as suas linhas. Ler ou analisar a poesia práxis, sob a descabida ótica da dissidência, é um ato de cegueira crítica que se invalida a si mesmo. Basta, aqui, uma distinção fundamental: enquanto a poesia concreta sustentava o “fim do verso” e do discurso articulado, petrificando a palavra em “coisa” inerte e o poema em mero “objeto visual”, a poesia práxis devolvia à palavra a sua força intrínseca de “organismo vivo”, devolvendo ao poema a faculdade de gerar, nas suas conexões internas, significações imprevisíveis e transformadoras. Essa postura práxis é que levou o concretismo a tentar mudar de rumo. Portanto, a palavra “divórcio” não vem a propósito, nessa questão. Eu nunca integrei o grupo concretista. Sempre me mantive autônomo, e a palavra, aí, “divórcio” não cabe.

Houve um período, logo após a criação da poesia práxis, em que você atuou como professor conferencista em diversas universidades estrangeiras, sobretudo nos Estados Unidos. De que forma isso contribuiu para seu amadurecimento literário?
A minha passagem por universidades estrangeiras (na Europa, Estados Unidos e Oriente Médio) decorreu da repercussão internacional alcançada pela poesia práxis. Sem dúvida, esses cantatos de alto nível me ofereceram elementos e recursos intelectuais de grande valia. Ajudaram-me a crescer e a distinguir os caminhos artísticos e literários que vim a seguir. Esses caminhos estão presentes na vasta obra poética, ensaística e ficcional que produzi. Uma vasta obra, diga-se, à espera de uma abordagem elevada e à altura de sua qualidade específica.

Nos anos 80, você foi Secretário Municipal de Cultura. Qual a melhor lembrança desse período?
A lembrança da grande energia e do espírito de liberdade com que me entreguei à implantação de programas e idéias culturais que tanto beneficiaram e beneficiam até hoje os cidadãos paulistanos, paulistas e brasileiros. O símbolo dessa energia e desse espírito de liberdade é, entre outros, o Centro Cultural São Paulo, de que muito me orgulho.

Como é seu fazer poético? De que maneira o processo flui?
O meu fazer poético e a minha poesia fluem e refluem constantemente.
A rigor, a fluência excessiva favorece a espontaneidade duvidosa de todo e qualquer ato de criação. Quando sou tomado pelo fluxo de idéias, pensamentos ou emoções, procuro, sem perder o viço do fluxo, depurar as suas possibilidades transformadoras de sentido. É no refluxo desse processo de depuração que o ato de criar amadurece e dá os seus melhores e mais convincentes frutos.

Em recente obra de cunho ensaístico, você incorpora outro Mário, o de Andrade. Acredita que há um pareamento entre a obra de ambos? De que forma?
Sim, pode haver alguma correspondência, por força do afinco e interesse com que sempre estudei a obra de Mário de Andrade. Escrevi longos ensaios sobre ele. Isso, sem contar a circunstância ocasional que nos pôs diante de situações e desafios análogos no trato da administração pública da cultura, nessa desenfreada Paulistânia de todos nós. O meu livro Pauliceia Dilacerada lida com a circunstância e com a correspondência, aqui referidas, a ponto de me permitir lembrar que “há Mários que vem para o bem, e que dos Mários o menor sou eu”.

Qual sua biblioteca favorita em São Paulo?
É a biblioteca onde, hoje, eu me sinto mais em casa. E essa não poderia ser outra se não a biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Não posso me esquecer, porém, de que grande parte da minha formação literária, eu a fiz sob os tetos da Biblioteca Mário de Andrade. Nem vou omitir, nesta resposta, as treze bibliotecas de bairro que implantei, quando secretário de Cultura em nossa cidade.

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