Os carnavais que foram das ruas para as memórias
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Os carnavais que foram das ruas para as memórias

De escolas a blocos, personalidades relatam como a festa marcou sua vida

Edison Veiga

05 Fevereiro 2017 | 04h00

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Na madrugada de sábado, dia 25, quando a escola Águia de Ouro entrar no Anhembi – com um enredo que homenageia os animais –, o quadrinista Mauricio de Sousa abrirá um sorriso. Ele ainda não sabe se figurará no alto de um carro alegórico ou assistindo de camarote. Mas algumas de suas mais simpáticas criações – Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão, Chico Bento, Rosinha, Franjinha, Jeremias, Luca e Dorinha – estarão desfilando, acenando para o público, com seus animaizinhos de estimação.

O gosto pelo carnaval vem da infância. Mauricio lembra que seus pais eram grandes carnavalescos. “Minha mãe costurava fantasias incríveis para mim. A cada ano, ia vestido como um super-herói diferente”, conta ele, que costumava frequentar as matinês do Clube União, em Mogi das Cruzes, onde morava. “Quando eu tinha 7 ou 8 anos, para não repetir fantasia, inventamos que eu iria de diabinho. Lembro que não aguentava todo mundo puxando meu rabo.”

“Acompanho carnavais desde que saía em blocos na garupa do meu pai, ainda menininho, em Mogi das Cruzes. Depois acompanhei carnavais do Rio, de São Paulo”, recorda-se. Na adolescência, já “metido a desenhista”, chegou a fazer ele próprio a decoração carnavalesca do clube. “Mas o ponto alto, para mim, foi em 2007, quando fui homenageado pela escola Unidos do Peruche. Saí no alto de carro alegórico, dançando o tempo todo. Em outros pontos da escola, estavam os personagens, ao vivo e como grandes esculturas. Foi meu carnaval inesquecível.” Um repeteco que ele espera ver, de certa forma, com a Águia neste ano.

A magia do carnaval é tamanha que a festividade tem o poder de ser inesquecível para os que dele gostam – e para os que também não são lá muito chegados. Com essa premissa, a reportagem foi conversar com algumas pessoas conhecidas para saber qual foi o carnaval mais marcante da vida delas, aquele cujas lembranças não viraram cinzas com a quarta-feira.

“Sempre fui fraco em carnaval, sou tímido”, começou dizendo o cineasta Fernando Meirelles. Para emendar citando um “lá por 1962 ou 1963, em Ribeirão Preto” – ou seja, quando ele tinha 6 ou 7 anos de idade – “uma turma ficava na rua jogando bexigas com água nos carros que passavam na avenida; depois jogavam ovo, farinha. Uns carros entravam na brincadeira, outros brigavam. Foi a primeira vez que eu vi gente muito bêbada caindo e dois caras saindo no braço na minha frente. Eu era criança, achei aquilo muito emocionante.”

Também são do interior paulista as melhores lembranças do escritor e colunista do Estado Marcelo Rubens Paiva – no caso, de uma folia que ele passou em São João da Boa Vista em 1979, quando tinha 19 anos. “Havia um festival de rua e blocos sensacionais, carnaval de verdade, inocente. Eu me fantasiei de mulher por três dias.”

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Produção própria. Tom Zé, o músico, também se fantasiou. Em 1960, em sua Irará natal, aos 23 anos. Mas não de mulher. “Ou as moças não teriam mostrado aquela disponibilidade toda. Na época, a divisão sexual estava bem marcada”, comenta. “Pedi à tia Anatália e desenhamos, em parceria, três fantasias para os três bailes do clube. No primeiro dia, foi um sucesso. No segundo eu já estava com um pouco de tédio… Uma certa depressão com tanta festa. No terceiro dia, peguei a fantasia e dei a Isnard, um amigo, e fiquei em casa quieto. Foi o maior carnaval de minha vida: um dia e meio de clube e fantasia. Baile e meio”, relata.

O músico guarda orgulho de sua confecção. “Naquele tempo circulavam revistas como O Cruzeiro, Jornal das Moças (de costura) e eu, que sempre fui metido em moda, retificava, em cada fantasia propunha várias modificações e tia Anatália desenhava. Ficaram vistosas, moças que me esnobavam dançavam comigo ou perto de mim. Não eram tradicionais, eram alguma coisa que ficava bem para mim, que eu gostava, sem muita patacoada, tinham intenções de nobreza”, diz.

O escritor, editor de livros e jornalista Marcelo Duarte diz que “era daqueles paulistanos que, no carnaval, pegava um avião e ia para Buenos Aires passar o feriadão lá, longe da confusão”. “Uma vez, cobri o carnaval no sambódromo pela Rádio Bandeirantes e depois o desfile das campeãs pela TV Bandeirantes. Nem lembro o ano. Só lembro que foi a única vez que vi um desfile inteiro na minha vida.”

A melhor lembrança da cantora Iza é de quando tinha 8 ou 9 anos e estava na quadra da Imperatriz Leopoldinense. “Morava em Natal, mas fui passar o carnaval no Rio. De repente acabou a luz e eu fiquei assustadíssima, mas ao mesmo tempo chateada, porque pensei que o ensaio fosse acabar”, relembra a cantora Iza. “E não acabou, as pessoas continuaram cantando, a bateria continuou tocando, aquilo ficou muito marcado em mim. Achei muito bonito como o samba e a música estavam unindo as pessoas.”

“Já o meu inesquecível foi quando tive a honra de cantar no Galo da Madrugada”, conta a cantora Bruna Caram, citando evento de 2014. “Afinal, o maior bloco de carnaval do mundo, justo para mim que sou tão do carnaval de rua!”, lembra.

Troféu. O brasilianista Matthew Shirts elenca três como seus carnavais inesquecíveis. O primeiro, em 1976, em Dourados, no Mato Grosso do Sul. “Logo depois de chegar ao Brasil, como aluno de intercâmbio, sem conhecer a festa nem o português, fui integrado ao bloco dos Sujos e levado ao Clube Indaiá, onde, aos 17 anos, depois de uns uísques paraguaios, levei o troféu folião”, narra.

Ele também se lembra com carinho do carnaval de 1984, que passou no Rio e assistiu ao desfile pela primeira vez. “Apaixonei-me ali de vez pela cultura brasileira”, frisa. Em 2001, ele foi encarregado de acompanhar uma americana a um tour carnavalesco paulistano: aula da Vai-Vai em uma noite, carro alegórico da Pérola Negra em outra, camarote do sambódromo para encerrar. “Tive de descansar uns três dias.”

O empresário Chiquinho Scarpa diz que seus carnavais favoritos “ficaram no passado”. “Eram no Teatro Municipal do Rio, onde as pessoas ficavam em camarotes, em grupos fantasiados por estilistas famosos, ou de smoking”, afirma.

Também são do Rio de Janeiro as melhores lembranças da cineasta Lina Chamie – mas, no caso dela, o marco ocorreu na Sapucaí. “Em 2003, ano que eu vi ao vivo do camarote”, diz.

Folia de escritores tem viagem e poesia

Beatriz Bracher tinha 14 anos quando viveu seu carnaval favorito. “Foi em Salvador, em 1975. Pulei os quatro dias atrás de vários trios elétricos, com amigos muito queridos, sem abadá, com muita alegria”, conta. “Os motivos (para elegê-lo o melhor da vida) são estes: amigos queridos, trio elétrico, Salvador e, talvez o principal, os 14 anos.”

Claudio Willer relembra de uma viagem, em 1945 ou 1946. “Eu tinha quatro ou cinco anos de idade? De automóvel para o Rio, meus pais e casal de amigos, nem tinha Via Dutra, viagem longa, pernoite em Barra Mansa. Hotel Leblon na Niemeyer, no pé da Gávea. Música da vez era Chiquita Bacana. Visitamos tudo: Pão de Açúcar, Corcovado, Jardim Botânico, Quinta da Boa Vista. No centro, Cinelândia, lembro de havermos cruzado com escola de samba, desfilavam na rua”, narra. “Houve outros bons carnavais. De 1970, com namorada e família, passeio a Teresópolis e cruzamos com a Mangueira nas ruas do centro, fazia desfile extra comemorando ter sido campeã aquele ano. Houve muitos outros.”

Também teve estrada no carnaval de Marcelino Freire. E poesia. Em 1996, ele e dois amigos, o poeta Edson Cruz e o engenheiro Sourak Aranha, aproveitaram o feriado para viajar mais de 1 mil quilômetros, de carro. “Só para visitar, em Campo Grande, o poeta Manoel de Barros”, afirma. “Passamos as folias ao lado dele e de seus musgos, versos e caramujos. A partir desta data, mantive com Manoel uma duradoura amizade e uma parceria cheia de admiração e de afeto.”

Freire conta que já mantinha contato, via carta, com Barros. E, eventualmente, por telefone. “Liguei para ele, avisei de nossa viagem. Ele falou que estaria em casa e nos recebeu. Passamos o carnaval inteiro por lá. E nos encontramos uns três dias”, diz. “Quem foi dirigindo foi o Sourak – tanto eu quanto o Edson Cruz não sabemos dirigir. O mais incrível é que uma bailarina e atriz, chamada Júlia Pascale, teve a mesma ideia. Ela aproveitou o carnaval para ir dançar um poema para o Manoel. Aí teve a noite de apresentação dela para ele. Assistimos e documentamos tudo. Aliás, eu tenho várias fitas com imagens disso. Um dia eu vou editar essas imagens. Daria um curta. Lindo, lindo.”

Luis Fernando Verissimo, colaborador do Estado, guarda duas lembranças de carnavais passados. “Uma, mais vaga, a de um baile infantil em que fui fantasiado de tirolês estilizado. Felizmente não sobrou nenhuma foto do jovem folião, não há perigo de me chantagearem”, garante. “A outra lembrança é da primeira vez que vi desfilar a Salgueiro, na Avenida Rio Branco, no Rio. Foi amor a primeira vista. O ano? 1959. eu acho.”

Tristeza carnavalesca. O “único carnaval realmente inesquecível” de Miguel Sanches Neto foi o de 1981. “Passei no clube de minha cidade, o Peabiru União Clube (em Peabiru, no interior paranaense). Tínhamos um bloco de acidentados, cada um com partes do corpo engessadas ou enfaixadas, o que explica um pouco a tristeza carnavalesca dos paranaenses. Aos 16 anos, já estávamos nos preparando para as pancadas que levaríamos vida afora. Este é o meu carnaval sem nenhuma alegria.”

Milton Hatoum ressalta que importantes foram “todos os carnavais da juventude manauara”, nos anos 1960. Ele diz que “a filmagem de um baile de carnaval na minissérie Dois Irmãos (da Globo, baseada em seu livro homônimo) é bem fiel à época e ao carnaval manauara”. Já Liliane Prata conta que geralmente aproveita o carnaval para “ficar em casa”.

Mais conteúdo sobre:

São Paulo