Os bichos que (quase) ninguém vê
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Os bichos que (quase) ninguém vê

Dentre as 480 espécies de animais do Zoológico de São Paulo, nove estão em uma 'reserva técnica' - e não são expostas ao público

Edison Veiga

09 de maio de 2015 | 16h00

Foto: Zoológico de São Paulo/ Divulgação

Perereca-de-Alcatrazes. Foto: Zoológico de São Paulo/ Divulgação


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São pequenas – as fêmeas medes 28 mm, 5mm a mais do que os machos – e inofensivas. E raras – na natureza só existem na Ilha de Alcatrazes, no litoral paulista. No Zoológico de São Paulo vivem cerca de 100 exemplares da perereca-de-Alcatrazes (Scinax alcatraz), ameaçada de extinção. Em ambiente controlado, se desenvolvem e se reproduzem – eram apenas oito, três anos atrás. Mas nenhum visitante do parque pode vê-las, admirá-las.

“Muito além do entretenimento, um dos pilares da nossa instituição é a conservação de espécies ameaçadas”, explica o biólogo Daniel Sesso Ferrari. “No caso da perereca-de-Alcatrazes, criticamente em risco, fazemos um importante trabalho de reprodução, realizado aqui pela primeira vez em cativeiro.” Na prática, o projeto funciona como uma reserva técnica de um museu – em que quadros ficam fora de exposição, por preservação, manutenção e rodízio do que é exposto. A situação dessa perereca, entretanto, é mais delicada: como se trata de uma espécie endêmica da ilha, o Zoo funciona como um back-up do que existe na natureza. “Se algum desastre acabar com a população existente na ilha, temos de estar preparados para repor”, completa o biólogo.

O anfíbio é um dos nove bichos, dentre os 480 existentes no Zoo, que são mantidos fora da exposição. Essa coleção secreta conta com aves, mamíferos e répteis, por motivos diversos. Em geral, são animais que precisam ficar resguardados do assédio humano – e acabam tendo contato apenas com os biólogos e técnicos responsáveis por seu manejo diário.

Araçari-banana. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

Araçari-banana. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

É o caso do casal de araçari-banana (Pteroglossus bailloni), um tipo de tucano. Estes são conhecidos dos visitantes mais antigos. Um ano atrás, entretanto, os bichos foram isolados para terem, digamos, mais privacidade no processo de acasalamento. “Parece que vem dando certo, pois observamos que o macho está cortejando a fêmea, trazendo frutas para ela e cuidando do ninho”, revela a bióloga Bianca de Souza Alves Gonçalves.

Arara-azul-de-lear. Foto: Rafael Arbex/ Estadão

Arara-azul-de-lear. Foto: Rafael Arbex/ Estadão

Sucesso este que foi recentemente obtido por um dos casais formados dentre o plantel de 12 araras-azuis-de-lear (Anodorhynchus leari), também mantidos bem longe da curiosidade do público. No início de abril, nasceu ali um filhote da espécie, seriamente ameaçada de extinção. Foi a primeira vez que a ave se reproduziu em cativeiro no País.

Zebra-de-grevy. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

Zebra-de-grevy. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

A reprodução também deu certo no caso da zebra-de-grevy (Equus grevyi). Há três anos, o único exemplar do Zoo, um macho, recebeu a companhia de duas fêmeas. Decidiu-se retirá-lo da exposição e levar o trio para uma fazenda em Araçoiaba da Serra, no interior paulista, que pertence ao Zoológico. “Para conseguir se acasalar, esse bicho precisa de mais espaço, de um ambiente mais confortável”, diz Daniel. “Além disso, seu processo de corte é um tanto agressivo – o que, apesar de natural, poderia ser assustador para o público.” No ano passado, veio a comemoração: nasceram dois filhotes, machos. “A ideia é que, em algum momento, tenhamos novamente a espécie em exposição”, antecipa o biólogo.

Porco-africano. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

Porco-africano. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

Também nessa reserva técnica vivem os três únicos exemplares de porco-africano (Phacochoerus africanus) que existem no Brasil – dois machos e uma fêmea. Quando forem expostos, devem se tornar sensação, sobretudo entre a criançada. Afinal, é esse o bicho que inspirou o personagem Pumba, de O Rei Leão. “Como nunca trabalhamos com tal animal, estamos estudando o manejo e elaborando um protocolo de cuidados”, comenta Bianca. Um novo recinto, próprio para a espécie, deve ser construído para abrigá-lo.

O casal de lontras (Lontra longicaudis) recebido pelo Zoo há dois anos está somente aguardando a construção do recinto expositivo. “Já analisamos os pormenores e planejamentos um espaço com tudo o que eles precisam”, diz a bióloga. Concluídos os estudos, o Zoo deve abrir um processo licitatório para a obra.

Rã-pimenta. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

Rã-pimenta. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

No caso das quatro rãs-pimentas (Leptodactylus labyrinthicus), recebidas há um ano, o espaço já está pronto. Se tudo der certo, elas devem passar a ser vistas pelo público dentro de uma semana. Como todos os animais recebidos pelo Zoo, os bichos passaram por um processo de quarentena. “Realizamos todos os exames. Fezes, sangue e vários outros. Só com os laudos em dia é que os animais podem ficar no espaço expositivo”, conta Bianca. Uma das rãs tinha fungos – foi tratada e agora está tinindo.

Urumutum. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

Urumutum. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

E também há os que não estão expostos por uma questão de curadoria. “É comum o revezamento de algumas espécies”, afirma Daniel. Atualmente, são esses os casos dos quatro urumutuns (Nothocrax urumutum), galináceos que cederam suas instalações para as duas jacutingas (Aburria jacutinga). E das dez ararajubas (Guaruba guarouba), cujo recinto hoje é ocupado por nove marianinhas (Pionites leucogaster).

Ararajuba. Foto: Carlos Nader/ Divulgação

Ararajuba. Foto: Carlos Nader/ Divulgação

“Sabemos que expor os animais ao público, mais do que lazer, tem a função de gerar uma conscientização ambiental. Entretanto, pelos trabalhos de pesquisa e conservação que realizamos, é importante também cuidar desses bichos de uma maneira mais restrita”, comenta Daniel.

Lagarto-rabo-de-macaco. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

Lagarto-rabo-de-macaco. Foto: Paulo Gil/ Divulgação

Além dessas nove espécies cujos exemplares todos estão fora de exposição, o Zoo mantém outros bichos nessa reserva técnica. “Quando há muitos indivíduos de uma mesma espécie, por exemplo, e não temos espaço para todos no recinto expositivo”, cita o biólogo. O lagarto rabo-de-macaco (Corucia zebrata) enquadra-se nesta categoria. O Zoo já tinha dois exemplares e recebeu, há mais de um ano, outros oito de uma instituição norte-americana – esse conjunto novo aguarda a construção de um recinto maior para abrigar todos eles, juntos. “Ainda há situações em que precisamos separar algum exemplar para tratamento veterinário ou quando isolamos apenas um casal do grupo para reprodução”, completa.

Foto: Rafael Arbex/ Estadão

Foto: Rafael Arbex/ Estadão

Centro de conservação deve ser inaugurado em junho

Se mantido o cronograma, deve ser inaugurado em junho, na fazenda de 534 hectares mantida pelo Zoológico de São Paulo desde 1982 em Araçoiaba da Serra, no interior paulista, o novo complexo do Centro de Conservação da Fauna do Estado de São Paulo (Cecfau). A unidade tem como objetivo implantar programas integrados de conservação de fauna silvestre, mantendo e reproduzindo espécies amaçadas de extinção.

“Então, vários dos bichos que hoje estão aqui em São Paulo deverão se mudar para lá”, conta o biólogo Daniel Sesso Ferrari. É o caso das araras-azuis-de-lear. “Lá teremos condições de reproduzir de um modo mais próximo ainda da natureza o ambiente original da espécie”, explica o biólogo.

A infraestrutura do complexo vai contar com recintos para reprodução de tamanduás-bandeira (inclusive com maternidade), espaços próprios para abrigar primatas e uma completa seção de apoio técnico, com hospital veterinário, farmácia, ambulatório e espaço para quarentena. Conforme anunciou a secretaria estadual do Meio Ambiente, Patrícia Iglecias, a intenção é inaugurar o Cecfau na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho.

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