As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Sistema

Edison Veiga

28 Fevereiro 2011 | 05h26

CRÔNICA
FOTO: JF DIORIO/AE

Chamo-O Sistema, assim com inicial maiúscula. E refiro-me a Ele assim, porque é o Altíssimo, a divindade suprema que nos rege no mundo hodierno. Pois é como se a ficção kubrickiana de 2001: Uma Odisseia no Espaço tivesse, numa livre adaptação da realidade, se tornado fato. Somos reféns, se não ainda dos computadores, do Sistema.

O que é o Sistema? Este ser absoluto a quem adoramos não é o mesmo vilão combatido em priscas eras. Aquele sistema, grafado miudinho, era mau. Aquele sistema era um desfavor político, uma conjuntura burguesa que merecia ser combatida por jovens rebeldes com ou sem justa causa. Aquele sisteminha, meus caros, não era nada perto do Sistema que hoje domina a humanidade.

Tente ligar para um serviço de atendimento ao consumidor qualquer. Vamos lá, agora. Pode ser para sua operadora de celular. Peça qualquer coisa. Sei lá, peça para consultar o extrato do último mês. Qualquer coisa. Uma informação bobinha.

– Desculpe-me, senhor, mas estamos sem Sistema. Queira, por favor, estar retornando esta ligação mais tarde.

Como as pessoas viviam antes de criarmos nosso Deus Sistema? Fico imaginando o médico: de certo não tinha de preencher no computador, onde mora o Sistema, as fichas do plano de saúde. Bastava o papelzinho. Agora são duas vias no papel e uma no computador:

– Senão o Sistema não aceita.

E aí você sai do médico e vai até a farmácia. Agora o Sistema não quer saber apenas dos remédios tarja preta. Quer também saber de todo e qualquer antibiótico que você consome. O Sistema vai saber até quantas vezes você teve dor de garganta no ano passado. O Sistema é onisciente. O Sistema é onipresente. O Sistema está cada vez mais onipotente.

Impiedoso, o Sistema é alheio às necessidades humanas:

– Ar-condicionado? Olha, o Sistema só permite que ele seja ligado às 11h30. Vai ter de esperar. (O relógio marca 9h37)

E os absurdos não param. Fim de semana na praia, você negocia com a dona da pousada uma esticadinha na diária para aproveitar algumas horas a mais do domingão de sol:

– Sem problemas. Mas peço que você faça o pagamento antes, porque senão o Sistema não aceita.

Bar com amigos. Na onda dessas compras coletivas, você faz um negocião para experimentar umas cervejas diferentes por um precinho camarada. O Sistema não é camarada. O Sistema é mau, já disse lá atrás:

– Não podemos aceitar seu cupom porque já são 21h. E o Sistema só aceita esses cupons até 20h30.

E quando cai o Sistema? Cair o Sistema é o pesadelo de toda a humanidade civilizada. A mocinha do telemarketing tem calafrios quando pensa nessa possibilidade – “Sem Sistema, para quem vou estar ligando? Sem Sistema, o que vou estar dizendo? Sem Sistema, como vou estar usando os gerúndios que tanto estou amando?”. O bancário engravatado nem dorme mais direito por causa dessa possibilidade. E até meu amigo Batista, o taxista, que anda viciado em GPS, benze-se três vezes quando alguém cita o nome do Sistema em vão.

Tem Twitter? Siga o blog