As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Mutante e a Pompeia

Edison Veiga

02 Dezembro 2010 | 02h17

Ele é “filho da Pompeia”. Arnaldo Dias Baptista, atualmente com 62 anos, ficou famoso por ser o cérebro da banda Os Mutantes – que lançou Rita Lee, nos anos 60. Sua primeira banda, ainda na adolescência, chamava-se Wooden Faces. Em 1962, ele montou, com seu irmão Cláudio César, o grupo The Thunders. Quatro anos mais tarde, com seu outro irmão, Sérgio Dias, juntou-se ao grupo Six Sided Rockers, que já contava com a presença de Rita Lee – com quem Baptista viveria seu primeiro casamento. Era o embrião dos Mutantes – Baptista sairia da banda em 1973, após várias brigas internas e, inclusive, o fim do romance com Rita.

No ano seguinte, em carreira solo, lançou Loki, até hoje considerado seu melhor trabalho. Em 1978 nasceu seu único filho, Daniel – fruto do segundo casamento do cantor, com a atriz Martha Mellinger.
A década de 80 não começou bem para ele. Em 1981 foi internado na ala psiquiátrica do Hospital do Servidor Público, devido a comportamento agressivo causado por uso excessivo de drogas. Ele tentou suicídio se defenestrando do quatro andar. Passou quatro meses em coma – sobreviveu a uma séria fratura no crânio. Na recuperação, conheceu sua atual mulher, Lucinha Barbosa. Em 1985 ela o levou para viver em seu sítio, em Juiz de Fora (MG).

Em 2006 houve um revival do grupo Os Mutantes e Arnaldo voltou a tocar ao lado do irmão Sérgio Dias e do baterista Dinho Leme após 33 anos de sua saída da banda e 30 do fim do grupo. Diante da negativa de Rita Lee a retornar à banda, Zélia Duncan aceitou o posto. A retomada durou até setembro de 2007. No ano seguinte foi lançado o documentário Loki – Arnaldo Baptista, contando toda a trajetória do artista. Por telefone, ele falou ao Estado sobre sua relação com São Paulo – em especial com o bairro da Pompeia (na foto abaixo, o artista em 1975).

FOTO: ARQUIVO ESTADO

Vinte e cinco anos depois, tem saudades de São Paulo?
Não totalmente. A cidade passou a ser urbana demais para mim.

Como foi sua infância na Pompeia?
Eu não era muito “rueiro”, de ficar brincando de corre-corre na rua, jogando pedra, essas coisas. Eu não era tão moleque. Gostava de brincar em casa, de banco imobiliário, por exemplo. Mas tinha um respeito pela vida no sentido de pegar mais cultura. Minha mãe (Clarisse Leite Dias Baptista, morta em 2003), era concertista e então eu ficava em casa estudando piano e violão. Papai (o jornalista César Dias Baptista) também era cantor e poeta. Então eu fui entrando nessa das artes, fui me formando criança assim.

Você viveu por bastante tempo nesse bairro?
Sim. Foi lá que nasceram os primeiros conjuntos. E mesmo Os Mutantes. A Rita Lee morava na Vila Mariana e eu na Pompeia. Eu ia visitá-la e a gente se dava bem. Foi uma coisa bacana.

Que locais você frequentava, em São Paulo, que contribuíram para sua formação cultural?
Papai era da política (foi secretário de Adhemar de Barros), então a gente tinha um camarote no Teatro Municipal. De vez em quando eu ia lá e ficava assistindo óperas e mil coisas nesse sentido. Era gostoso fazer esse tipo de coisa. Minha mãe era concertista e também atuava lá, e eu gostava de acompanhar. Um lado musical meu, ligado à opera, nesse sentido, se desenvolveu com a minha mãe. Isso tem uma importância para mim na formação da cultura. Um lance ao qual eu não pertencia totalmente, porque meu negócio era mais rock ‘n roll. Mas eu ia levando nesse sentido.

Que outras lembranças você tem da cidade?
Eu me divertia muito empinando aeromodelos no Parque do Ibirapuera, eu fazia essas coisas. Depois passei a gostar bastante de motocicletas, já aos 18 anos. Tive um monte de motocicletas, cinco de uma só vez. Eu ia estudando mecânica para deixá-las envenenadas. Nessa época eu aprendia inglês e alemão, muito mal.

Em que colégios você estudou?
Estudava no Caetano de Campos. Gozado, papai fez até o quarto ano lá, na mesma escola. A gente compactuou isso. Estudei lá até o fim do ginásio, depois fiz o clássico no Mackenzie. Paradoxal isso, eu estava estudando para me preparar para ser advogado. Não sei se seria um bom advogado, o homem não é perfeito, errar é humano… Eu não estava com vocação para Direito… E nessa época eu comecei a ganhar dinheiro com o conjunto, com a música, e abandonei os estudos.

Para a sorte da música…
Maravilha você dizer isso (risos).

Além da Pompeia, onde mais você morou em São Paulo?
Mais tarde, com a mãe do meu filho, eu vivi na Vila Mariana. Isso foi depois dos Mutantes. O problema é que sempre reclamavam do barulho, porque eu tocava em casa e meu som era muito alto. Houve uma época em que morei em Pinheiros, em um apartamento. Eu ligava as coisas para começar a tocar e aí, dez minutos depois, o porteiro já interfonava dizendo que estavam reclamando, que o barulho era infernal. Então eu me mudei para a Cantareira. Mas só depois que vim para o sítio (em Juiz de Fora) é que acabaram os problemas todos com a acústica.

Você tem contato com seu filho?
O Daniel mora em Israel e se tornou rabino. Fiquei sabendo outro dia, isso. Não mantemos contato. Eu sou ateu psicodélico, ele é rabino, então fica difícil. Uma vez o Sean (Lennon, filho do John Lennon) me falou que é dificílimo ser filho de artista. Então o Daniel não gosta de aparecer muito em função de eu ter me tornado famoso. Mas eu posso estar falando bobagem, não tenho certeza.

Versão ampliada de entrevista publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 21 de novembro de 2010