O motoqueiro inveterado
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O motoqueiro inveterado

Edison Veiga

23 de agosto de 2010 | 15h52

FOTO: DIVULGAÇÃO

Manual do Viajante Solitário foi um dos mais de 4 mil livros lançados na Bienal de São Paulo, que terminou ontem. O autor, José Albano, conta sua saga Brasilzão afora a bordo de uma moto de 125 cilindradas, ano 1983. Ele fotografou todas as aventuras – e as imagens ilustram o livro.

Nas vezes em que esteve na capital paulista, Albano preferiu usar a moto apenas para entrar e sair da cidade, tamanho o caos do trânsito. No dia-a-dia, a velha companheira de duas rodas ficava estacionada.

O motociclista inveterado bateu um papo com o blog.

Quando você decidiu sair de moto pelo Brasil, fotografando tudo?
A primeira viagem ocorreu em 1988, quando eu ainda não estava preparado para enfrentar as estradas. A leitura do livro Motorcycle Touring, de Bill Stermer, me abriu as estradas a partir de 1991. Baseado nas idéias do autor, aperfeiçoei um método de viajar que tenho usado com sucesso desde então. No manual que estou lançando, repasso aos leitores o que aprendi. O livro é ilustrado com fotos e casos vividos nas estradas.

Tem ideia de quantas cidades conheceu? Quantos quilômetros percorreu? Quantas fotos tirou?
Não mantenho um registro numérico das minhas viagens… No registro emocional, posso dizer que as cidades que mais me agradaram são as que têm água ou relevo interessante. Minhas favoritas, quanto ao relevo: Viçosa do Ceará; Milagres e Jacobina, na Bahia; Ouro Preto, em Minas. Quanto à proximidade da água, amo todas as cidades do litoral brasileiro, com destaque para Vitória e o Rio de Janeiro, generosas na presença de água e relevo.
Quantos quilômetros? Nem faço ideia… Já refiz a parte interna do motor pelo menos cinco vezes, mas só um mecânico poderia tentar calcular quantos quilômetros, em média, se pode rodar entre as reformas do motor.
Quanto às inúmeras fotos, gosto mais de registrar a paisagem vista das estradas do que as cidades onde passo. E nas fotos de estradas, tento sempre incluir a moto.

O que o levou a fazer essa aventura?
Sou representante, no Ceará, de uma associação que reúne comunidades alternativas do Brasil. A associação promove um encontro anual que dura uma semana, sempre no mês de julho, sempre no meio rural, cada ano num estado diferente. Desde 1991, vou de moto. Fora essas viagens anuais, viajo muito no Ceará e no Nordeste para atualizar o banco de imagens de onde trabalho, fazer turismo e rever os amigos.

Como é sua moto?
É a mesma que comprei de segunda mão, mas seminova, em 1984. A moto é o modelo luxo (ML) da Honda CG 125cc, fabricada em 1983. Tenho um mecânico amigo que a mantém em bom estado desde o início.

Conte-nos alguma história que o marcou nesses anos todos de viagem.
Tive panes, tive quedas, tive doenças, fui roubado, assaltado, corri risco de morrer fulminado por raios… mas nada disso me marcou tanto quanto o enorme prazer do dia a dia na estrada. Resumo isso no texto da contra-capa do livro:
“Na estrada, tenho a oportunidade de escutar meu pensamento, a oportunidade de estar comigo mesmo durante horas seguidas, dias seguidos, sem a interrupção do trabalho, da família, dos amigos, do telefone, da TV. Dentro do capacete, falo sozinho, canto, digo poemas que sei de cor, choro ou dou risadas na medida em que se desenrola a fita da memória de bons e maus momentos que vivi. Sobre a moto, solto nas estradas, tenho a oportunidade de arejar a cabeça, de reciclar minha vida, rever o passado, planejar o futuro, enquanto desfruto da rara oportunidade de estar imerso no presente. Aproveito esse estado de consciência para definir prioridades, mudanças para quando voltar pra casa, como melhorar as coisas, o que fazer pela qualidade da minha vida… Viajando de moto, me dou a oportunidade de passar a vida a limpo, enfim…
Parentes e amigos resmungam: ‘Que loucura!’
Mas sei que o motociclista viajante provavelmente causa inveja nos outros, despertando seus desejos suprimidos de liberdade e aventura, desejos de enfrentar adversidades, vencer desafios, vivendo, como vivem, num mundo cada vez mais previsível.”

Em suas viagens de moto, você esteve em São Paulo? Quando foi? Como foi cruzar a cidade de moto?
Passei por São Paulo pelo menos quatro vezes, vindo de Belo Horizonte, do Rio, de Curitiba, de Santos. Tenho uma filha que mora perto da Ponte Estaiada, o que me fez transitar principalmente pelas marginais. Foi tão assustador pilotar em São Paulo que acabei usando minha moto somente para entrar e sair da cidade, deixando-a estacionada no jardim da casa da minha filha todas as vezes que parei alguns dias por aí.

Pelos locais que você passou, qual foi o pior em relação à estrada? E o melhor?
A pior estrada municipal ou estadual onde transitei foi entre Palmeiras e o Vale do Capão, na Chapada Diamantina, Bahia, verdadeira pista de obstáculos… A pior estrada federal onde passei foi a BR-135, com trechos praticamente desfeitos no Piauí.
A melhor estrada onde já andei foi a Rodovia Ayrton Senna, em São Paulo. Já a mais bonita é a estrada de descida da Serra da Graciosa, no Paraná.

E em relação ao trânsito?
Peguei o pior trânsito no anel de contorno do Recife, tráfego intenso e nervoso de onde escapei vivo por sorte.

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