O Moisés sobre quatro rodas, o personagem mais sacana da volta do feriadão
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O Moisés sobre quatro rodas, o personagem mais sacana da volta do feriadão

Trata-se do espertinho rodoviário, que pensa ter o direito de abrir o mar vermelho de carros à sua frente

Edison Veiga

30 Dezembro 2014 | 11h12

Foto: André Lessa/ Estadão

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Os carros podem andar a 120 km/h nas grandes estradas. Em outras, a 100 km/h, a 110 km/h. Não importa. Na volta do feriadão, com sorte chegam a 30 km/h. Parando e andando. Andando e parando. Mais parando que andando. Parando.

Serão milhares deles no domingo à tarde, no domingo à noite. Muitos esvaziaram São Paulo por duas semanas, sortudo donos curtindo longa folga. Outros, menos – dez dias? Uma semana? Carregam famílias que trocaram o cansaço do trabalho de um ano intenso pelo cansaço físico do lazer de uns dias intensos em outros ares.

Acidentes vão acontecer, é uma certeza triste. Alguns terão suas existências ceifadas numa Castello Branco da vida e mal conhecerão 2015. Nessas situações, imprudências se confundem com deslizes, desatenções se misturam com ressacas, sonos cauterizam euforias. Depois, as dores das perdas, faceta esta trágica de um tempo que era para ser só de felicidade.

Mas todas as linhas aí acima, à guisa de chatíssimo prolegômeno, servem apenas de cabeçalho para um personagem sacana que habita as nossas estradas. Torpe. Repugnante. E que, apesar de corriqueiro, surge de modo mais consolidado e constante justamente nas voltas dos feriadões. Trata-se da versão rodoviária do espertinho urbano – talvez seja o mesmo, talvez seja o espertinho urbano de shorts e chinelos, o espertinho urbano quando tira férias.

Este ser desprezível e inconsequente acredita que, tal e qual um Moisés sobre quatro rodas, tem todo o direito e dever de abrir o mar vermelho formado pelos carros à sua frente – com as luzes de freio acesas. Para isso, usa não um cajado, mas o famigerado sinal de luz, o farol alto a ferir os olhos no retrovisor.

A estrada está cheia, mas o cidadão acredita que todos os carros devem sair de suas faixas porque simplesmente ele quer passar. Seu farol alto, em sua cabeça doentia, equivale a um giroflex, a uma sirene ardida.

E existe uma versão avançada do espertinho rodoviário. Um Moisés sobre quatro rodas que é tão espertinho, tão espertinho, que em vez de abrir o mar vermelho com seu cajado de farol alto, prefere contornar o mar vermelho – neste caso, um rio de duas margens.

Perco um pouco a fé na humanidade sempre que vejo um carro trafegando pelo acostamento.

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