O ‘moço da novela’ de minha avó
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O ‘moço da novela’ de minha avó

O dia em que fiz um tour por Taquarituba com Umberto Magnani

Edison Veiga

27 Abril 2016 | 17h30

Foto: Thiago Teixeira/ Estadão

Foto: Thiago Teixeira/ Estadão

Foi pelo Facebook que soube da morte de Umberto Magnani (1941-2016). “Deixa na memória da gente a figura de um grande ator e de uma figura extremamente gentil, educada, rara”, postou o amigo dramaturgo Mario Viana. Adjetivos precisos. Irei sempre guardar, com carinho, a recordação de sua cortesia ao tomar uma xícara de café com minha avó, noveleira de todas as horas.

Uns 16 anos atrás, conheci Magnani no Teatro Municipal de Avaré, no interior paulista. Era uma noite de sábado. Adolescente, eu havia participado de um certame literário, do qual ele havia sido um dos jurados ou coisa assim. Findo o evento, entre um canapé e outro, tomei coragem para abordá-lo com um exemplar de ‘Enigma’ – primeiro livro de minha lavra, hoje renegado – em mãos.

Gentil e educado, como bem pontuou Mario Viana, Magnani não só folheou o livro como demonstrou curiosidade em saber mais sobre mim, onde estudava, o que fazia, quando e como escrevia, essas frivolidades e seus quetais. Com pretenso orgulho, disse a ele que era repórter, já, e dava expediente em um hebdomadário taquaritubense – no caso, o jornal ‘O Momento’. (A foto abaixo foi tirada nesse evento em Avaré; da esq. para a dir., meu tio, Magnani e eu.)

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Quando me dei conta, estávamos conversando sobre Taquarituba, minha cidade natal. E eu sou bom para falar sobre Taquarituba, a ponto de, convencido de suas belezas naturais, artificiais e humanas, ser capaz de traduzi-las em palavras. Naquela época eu ainda não sabia ser essa uma propriedade minha: a de ver belezas em um lugar apenas por ele ser taquaritubense; de sorte que tampouco imaginava que essas belezas poderiam soar com outros aspectos e até defeitos aos olhares alheios.

“E em Taquarituba tem teatro?”, perguntou-me Magnani, demonstrando extremo repeito àquele moleque deslumbrado com a terra natal. Num misto de resignação e vergonha, murmurei um não quase silencioso. “Porque estou querendo montar uma peça para rodar pelo interior. E muito me interessaria se houvesse um palco em Taquarituba”, emendou o ator.

Comecei a imaginar um ator global das novelas de minha avó em um palco taquaritubense, mesmo que não houvesse lá um teatro municipal. Então, de pronto, comecei a dizer ao Magnani que, veja bem, teatro não temos, mas espaço decente – “e até melhor”, lembro que ressaltei – não falta em Taquarituba: sua peça vai ser um sucesso no clube, em uma escola ou quem sabe no ginásio de esportes…

Magnani realmente era uma “figura extremamente gentil, educada e rara”, perfeitas palavras de Mario Viana. Ele não torceu o nariz para minhas ideias. Ele não ignorou minhas sugestões pueris e idiotas. Ele também não simplesmente assentiu com a cabeça e mudou de assunto ou cortou o papo de vez. Ele olhou o relógio, sorriu e perguntou: “E quanto tempo é daqui até Taquarituba?”.

De carro, uma hora no máximo. Nem bem terminei de dizer isso, Magnani perguntou se “amanhã é um bom dia”, sim, claro, qualquer dia é um bom dia, como assim. E já foi arrumando papel e caneta e anotando meu endereço.

Fui dormir imaginando se era mesmo verdade que aquele ator das novelas de minha avó iria bater em casa em uma manhã de domingo para conhecer Taquarituba na companhia de um adolescente imberbe travestido de guia autóctone. Não, não podia ser verdade. Esse Magnani deve ser um engraçadinho, fazendo troça dos outros.

Umas 11h da manhã a campainha tocou. Lá estava Magnani na calçada. “Vamos?”. Fomos. Clube, ginásio de esportes, parque municipal, praça da igreja, o eterno único edifício inacabado. Todas as belezas taquaritubenses se descortinando ali. Paciente, viu tudo com calma. Educado, não fez nenhuma objeção – embora deva ter pensado em muitas.

Na volta, tomou um café em casa com minha família – e minha avó, que ficou encantada com “o moço da novela”.

A peça nunca foi encenada em Taquarituba, acho que Magnani jamais retornou à minha terra natal. Fiquei com um número de telefone fixo, de sua casa, que ele gentilmente me passou – “para quando você precisar”. Foi copiado imediatamente em minha primeira agendinha de repórter, depois passada a limpo umas três vezes até chegar à versão atual, uma planilha de Google Docs.

Não vou tirar o nome dele de lá – tenho a estranha mania de manter na agenda os contatos dos que já morreram, como lembrança de um bate-papo havido. Também não sei se minha avó já sabe que o “moço da novela” morreu.

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