As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

“O jornalista dá muita porrada no escritor”

Edison Veiga

03 Dezembro 2010 | 14h01

Márcio ABC, jornalista e escritor, acaba de lançar seu segundo romance, Desrumo, e é o sétimo participante da série de entrevistas por escrito.

FOTO: DIVULGAÇÃO

Como nasceu Desrumo?
Acho que nasceu da necessidade, quase uma obsessão, que norteou minha pequena literatura até aqui: contar histórias cruas ambientadas em um mundo agreste do qual eu não tinha como fugir. Eu vivi no sítio até os 7 anos de idade e depois ainda mantive contato durante muito tempo porque tinha avó e tios morando lá. Isso me influenciou muito e me fez conceber pelas coisas do campo um profundo respeito e carinho. Quando acabei meu primeiro romance – Parabala –, já comecei Desrumo. Foi uma época em que eu ainda precisava falar desse ambiente que fez parte da minha vida e me influenciou. Agora, com este segundo livro publicado, acho que vou conseguir me libertar.

De que maneira seu novo livro se desprende do anterior, Parabala? É possível compará-los?
É possível compará-los sob o ponto de vista da ambientação. Parabala se passa na primeira metade do século passado. Desrumo já é mais para os anos 1950. Mas ambos estão, grosso modo, ambientados no campo, estão quase sempre distantes da sociedade urbana, estão metidos em casos, lendas e fatos da vida agreste. Também é possível compará-los diante de um componente crucial da linha mestra dos dois romances – ambos tratam de uma grande paixão. Mas o enredo é completamente diferente. Parabala narra o suposto rapto de uma moça rica, filha de fazendeiro, casada e mãe de duas crianças. O responsável por isso é um negro misterioso. E a narrativa parte da caçada imposta a esse criminoso. No caso de Desrumo, o ponto central talvez seja a obsessão. O protagonista passa a vida obcecado pelo seu único amor. O grande amigo do protagonista passa a vida obcecado pelo crime. E há também uma obsessão pela amizade. Enfim, são histórias completamente diferentes que se abastecem de alguns combustíveis parecidos, como por exemplo as surpresas impensáveis que a vida pode nos proporcionar.

Como o jornalista e o escritor convivem? Eles se completam ou travam uma luta infinita entre si?
No meu caso, que vivo o jornalismo diário, o jornalista dá muita porrada no escritor. Em vários sentidos. Primeiro, no sentido pragmático: o jornalista deixa pouco tempo para o escritor. É como se o escritor, de vez em quando, conseguisse se agarrar às cordas do ringue para ficar em pé ao menos por alguns instantes. E é nesses poucos momentos que o escritor precisa fazer sua parte, enquanto não vem um novo cruzado que o atira novamente à lona. Há também o sentido da própria escrita. Muitas vezes, o jornalista acha o escritor ridículo. Porque o jornalista sabe, por exemplo, como se escreve um texto jornalístico, como se fecha uma edição, como se redige um artigo etc e tal. Mas ele acha que o escritor não domina como ele seu ofício. E isso deixa o escritor inseguro. É uma porrada e tanto. E às vezes o escritor demora para se recuperar dessa crise de capacidade imposta pelo jornalista. No fim, acho que é uma boa luta também para o escritor, que apanha muito, é verdade, mas não perde de vista sua persistência para conseguir se equilibrar no ringue.

Como nascem seus personagens?
A maioria vem de um cruzamento entre objetos ficcionais e recursos reais. Eu gosto muito de usar nos meus personagens aspectos que presenciei na vida e tomei como interessantes, curiosos, marcantes. Acho que deve ser assim com todo mundo que escreve ficção, né? No meu caso o que não deve ser muito comum, talvez até raro, é que eu costumo sonhar com personagens que já chegam prontos. Muitas vezes, eles chegam trazendo consigo o próprio enredo do conto, da história secundária do romance… Eu acordo com aquilo na cabeça e anoto para não esquecer. Depois, é preciso saber se esse personagem (e/ou essa história) vai sobreviver ou morrer logo. E esse, sinceramente, é um processo que não sei explicar.

A escrita literária lhe é um prazer, uma dor ou apenas um reflexo natural que justifica a existência?
É um prazer, uma dor, o prazer da dor e a dor do prazer.

Seu processo de escrita é disciplinado? Como?
Não sou disciplinado. Em parte porque minha atividade jornalística não permite. Eu não consigo me planejar para escrever. Eu vejo entrevistas de autores contando que de tal hora a tal hora eles se dedicam a escrever, depois fazem isso e aquilo, e tenho um pouco de inveja. Para escrever, é preciso concentração e, acima de tudo, inspiração. E não é possível tê-las quando você está esgotado mentalmente ou fisicamente depois de doze ou treze horas de trabalho, viagens, reuniões etc etc. Eu viajo bastante a trabalho pelo interior de São Paulo e também na capital. Eu dirijo meu carro e em muitas ocasiões, durante esses percursos, meu processo criativo também se acelera. Eu planejo desenvolver várias ideias. Tenho várias ideias. Mas tudo é esmagado quando bate o cansaço. Então, eu preciso retomar depois, quando muita coisa já se perdeu pela estrada. Às vezes, eu digo a amigos que sou vagabundo para escrever. Levei sete anos para acabar Desrumo. Mas pensando bem, acho que sou um pouco injusto comigo. Minha falta de disciplina não é totalmente voluntária.