O jornaleiro francês
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O jornaleiro francês

Há exatos 140 anos, pela primeira vez um entregador de jornais saía às ruas da cidade - levava o 'Estadão'

Edison Veiga

23 de janeiro de 2016 | 00h02

Foto: Militão Augusto de Azevedo/ Reprodução

Foto: Militão Augusto de Azevedo/ Reprodução

Por Edison Loureiro*

Em 1875 circulavam três jornais diários em São Paulo: o Correio Paulistano, o mais antigo; o Diário Popular e a Província de S. Paulo que havia sido fundado em janeiro daquele ano. A cidade já era servida por estradas de ferro, os bondinhos puxados a burro já transitavam por várias partes e já havia hotéis, restaurantes, confeitarias e cafés.

Mas o paulistano que quisesse ler o jornal tinha que providenciar uma assinatura anual ou ir à redação de um deles para comprar um número avulso. Não existiam bancas e nem venda de jornais na rua. Se um viajante tomasse o trem na Estação da Luz, que levasse seu jornal de casa, pois não teria onde comprar outro.

As mercadorias vendidas nas ruas eram de outro tipo: pamonha, milho verde assado, cuscuz, pinhão cozido e até bundinha de formiga içá torrada, petisco muito apreciado. Estas mercadorias recebiam o apelido genérico de quitandas. Os jornais, onde pontificavam intelectuais, se discutia política e se comentavam notícias importantes, não poderiam ser comparados a prosaicas quitandas.

Mas eis que na manhã de 23 de janeiro de 1876 a população se surpreende com uma figura estranha na cidade. Um francês barbudo de 32 anos, montado num pangaré velho, usando um enorme barrete branco na cabeça e ostentando medalhas no peito, soprava uma corneta pelas ruas.

O nome do francês era Bernard Gregoire. Oferecia aos passantes o jornal A Província de S. Paulo, que com o advento da república mudou seu nome para O Estado de S. Paulo.

Criou polêmica, até jornalistas torceram o nariz para a iniciativa. Mas ao fim de algum tempo os outros jornais acabaram aderindo à novidade.

Bernard Gregoire expandiu sua atividade para Campinas, cidade onde foi morar por um tempo, e Santos. Em Campinas, no primeiro dia de atividade teve problemas, pois o delegado, sabe-se lá por qual motivo, não permitiu que ele trabalhasse, tal a estranheza da sua atividade.

E o francês fez mais, em 25 de março daquele mesmo ano, abriu a sua “Bibliotheca da Estação”, anunciando que na Estação da Luz venderia jornais, folhetos, romances, etc. O nome banca de jornal ainda não existia. Tampouco a palavra jornaleiro; Bernard Gregoire era chamado de apregoador de jornais ou vendedor de jornais, ou ainda “crieur de jornaux”, pois o idioma francês era a moda da época.

As medalhas que ostentava com tanto orgulho eram a Cruz de Bronze, oferecida pela Sociedade Francesa de Socorro aos Feridos, e a Medalha de Honra da Société Nationale d’Encoragement au Bien, por serviços de socorro prestados durante a guerra franco-prussiana. Além disso, também já havia prestado socorro durante epidemia de cólera em Valogne e combatido no exército regular. Feito prisioneiro, estava prestes a ser fuzilado quando conseguiu escapar.

Gregoire já havia sido “crieur de jornaux” anteriormente, vendendo o Petit Journal em Paris e a Gazeta de Notícias no Rio de Janeiro.

Bernard Gregoire sempre anunciava e dava notícias pelos jornais, não só pelo jornal A Província de S. Paulo, como também pelo Correio Paulistano, que também passou a vender. Mas a partir de outubro de 1876 sumiu das páginas dos jornais.

Mas não foi esquecido, pois além da foto feita por Militão Augusto de Azevedo, ganhou um desenho a bico de pena de Wasth Rodrigues que o retrata montado num cavalo, no então acanhado largo da Sé tendo ao fundo a igreja de São Pedro da Pedra e a antiga catedral da Sé.

O desenho acabou se transformando no ex-libris do jornal O Estado de S. Paulo e depois, já estilizado, faz parte do logotipo do Estadão.

Foto: Acervo Estado

Imagem: Acervo Estado

* O memorialista Edison Loureiro é economista aposentado.

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