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O fim do mundo numa esquina de São Paulo

Edison Veiga

28 Janeiro 2011 | 11h21

CRÔNICA
FOTO: SERGIO NEVES/AE

– Para onde vamos?

Quem pergunta é Batista, o taxista. Eu nunca me lembro a resposta. Porque, alheio em minha confusa cabeça, pareço aquele chavão idiota: não sei o destino, só sei que estou no caminho.

Mas vinha para a redação do jornal, de súbito me lembrei, tão logo olhei para minhas mãos e vi o bloquinho de reportagem e a caneta. E me dei conta que, sim, estava saindo de uma entrevista. E, sim, ainda eram três da tarde. Então, sim, ainda voltaria para o jornal a tempo de escrever.

Chovia, como em quase todos os dias deste janeiro.

“São Paulo bateu ontem, no aniversário da cidade, o recorde histórico de chuva em janeiro. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, entre o dia 1º e as 21 horas de ontem, choveu 493,7 milímetros na capital paulista. Esse índice supera o recorde anterior, de 1947, quando choveu 481,4 milímetros no mês inteiro. Os dados foram registrados na estação meteorológica do Mirante de Santana, na zona norte. A medição sobre o volume de chuvas é feita desde 1943.” Isto eu ouvi no rádio do meu carro na quarta-feira desta semana. Mas o táxi do Batista eu havia tomado na semana passada.

E chovia, como eu ia dizendo. Chovia, como em quase todos os dias deste janeiro.

– Sabia que essa chuvarada toda é porque o mundo vai acabar? – provocou Batista.

Geralmente me fecho num silêncio ranzinza e sepulcral. Mas dei corda:

– Ah, é? Vai acabar como ia no ano dois mil?

– Agora é sério. Não duvide, não, meu filho. Está lá no calendário maia, e esses maias, você sabe, são trutas. Muito mais espertos do que aquele outro lá, Nostra… Nostra… Como é mesmo o nome?

– Nostradamus.

– Isso. Os maias são os caras mais espertos que já pisaram nesta Terra. Eles tinham amizade com ETs e falavam diretamente com Deus. Sem essa coisa de bíblia, padre ou espíritos. Era direto mesmo. Como um telefone.

– Aham.

– E essa chuvarada é sinal dos tempos. Viu só lá no Rio? Lá o mundo já começou a acabar. São Paulo ainda está só nos ensaios.

Pelo menos era engraçada a lógica de Batista.

– Outro dia eu li numa revista esotérica. Porque eu sou chegado nessas coisas, sabe? Eu li que todo mundo está esperando o fim do mundo para 2012 mas ele vem antes. Porque Deus, do alto de sua sabedoria e bondade, não quer deixar o povo sofrendo por antecipação. Vai dar um susto e acabar antes. Apagar a luz, sabe? Fechar a porta.

– Quer dizer que vai ser morte súbita na prorrogação, sem choro nem pênaltis?

– Isso aí. Eu sei até a data.

E fez um suspense, de certo esperando que eu fosse perguntar, ansioso, pela data. Como fiquei em silêncio por longos três minutos, ele retomou a conversa:

– Vai ser dia onze de novembro. Onze do onze do onze, olha que bonito! – sussurrou, como se quisesse guardar segredo.

– E por que não doze do doze do doze? – rebati.

– E eu sei?

Quando chegamos ao jornal ele ainda encontrou tempo para me oferecer, de presente, a revista esotérica que estava no banco de trás.

Não aceitei. De louco, já me basto.

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