O descaso a partir de um carro no Cantareira
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O descaso a partir de um carro no Cantareira

Automóvel, nosso personagem, simboliza a crise hídrica de SP

Edison Veiga

19 Fevereiro 2015 | 14h07

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão


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Eu preferia que esta fosse uma história fictícia.

Mas não é.

Era uma vez um carro desovado na Represa Atibainha, em Nazaré Paulista, uma das que compõem o Sistema Cantareira. Não tenho a menor ideia da cronologia pregressa desse veículo – se foi submerso por algum golpista de seguradora, se acabou ali após ter sido utilizado em algum assalto.

Vamos chamá-lo de Automóvel, assim com inicial maiúscula.

Daí veio a crise hídrica, a pior de todos os tempos em São Paulo. Causada pela estiagem, em partes. Mas também pela falta de planejamento público, como todos sabemos. O Sistema Cantareira foi baixando, baixando, baixando. Chegou à primeira cota de volume morto – cujo eufemismo oficial é “reserva técnica”. Chegou à segunda cota de volume morto.

Fato é que nosso amigo Automóvel apareceu. Em ruínas, já com a lataria apodrecida. Em volta dele, terra sequinha. Próximo dele, outros tantos – cerca de vinte, pelo que li em um portal de notícias.

Automóvel acabou se tornando um dos símbolos da crise hídrica. Virou referência no nível do Sistema Cantareira. O artista Mundano, conhecido grafiteiro de São Paulo, escreveu “bem-vindo ao deserto da Cantareira” em sua surrada lataria. E desenhou ali uma careta. Preocupada, como todos nós.

Veio o carnaval. O bloco Sereias da Cantareira criou uma marchinha sobre a falta d’água. E gravou um clipe ali, no que restou da Represa Atibainha. Automóvel, nosso famoso personagem, apareceu de novo (veja imagem abaixo).

Automóvel virou símbolo de nosso pior flagelo

Em fevereiro, São Pedro está sendo generoso com São Paulo. A cada dia o Sistema Cantareira ganha um pouquinho de fôlego – ainda falta muito, é claro. Mas eis que Automóvel dá as caras novamente. Agora a água já chega a cobrir suas rodas.

Automóvel é referência. Automóvel é pop.

Várias leituras simbólicas podem ser feitas a partir disto. Uma delas é que vivemos em um local onde os carros são tão protagonistas da vida, onde os trânsitos são tão recordes, onde o transporte individual é sinal indiscutível de status. E, ironia das ironias, Automóvel se tornou símbolo até do nosso pior flagelo ambiental.

A outra leitura é que Automóvel é a prova inconteste do descaso com que as autoridades tratam nossa água. Afinal, se o Sistema Cantareira encher novamente, ele voltará a ser sucata apodrecendo em uma represa que abastece as nossas torneiras.

Ninguém pensou em tirá-lo de lá, limpar todas as sujeiras que a seca tem revelado?

Eu preferia que esta fosse uma história fictícia.