O ‘abraço fraterno’ entre católicos e muçulmanos
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O ‘abraço fraterno’ entre católicos e muçulmanos

Papa e grande imã fazem reunião histórica no Vaticano

Edison Veiga

23 Maio 2016 | 18h56

Foto: EFE

Foto: EFE

Em um encontro de cerca de meia hora com o grande imã Ahmed al-Tayeb, na biblioteca privada do Palácio Apostólico do Vaticano, o papa Francisco simbolicamente reatou relações com os muçulmanos sunitas. A reunião, ocorrida nesta segunda (23), terminou com um histórico “abraço fraternal”.

De acordo com informações divulgadas pelo Vaticano, a conversa foi pautada pelo compromisso de ambas as autoridades com a paz no mundo, repudiando atos de violência e terrorismo. Francisco presenteou o líder islâmico com uma medalha da oliveira da paz e uma cópia da encíclica ‘Laudato si’’.

O abraço entre o papa e o imã passou ao mundo uma imagem de reconciliação, já que havia um certo estremecimento entre catolicismo e islamismo – mais precisamente, entre a Santa Sé e a Universidade de Al-Azhar, a instituição mais importante do islã sunita – desde 2006, quando o papa Bento XVI relacionou a violência ao islamismo, em discurso na Universidade de Ratisbona, na Alemanha. Não à toa, papa Francisco encerrou a reunião desta segunda afirmando que “nosso encontro de hoje é uma mensagem por si só”.

O episódio de dez anos atrás desencadeou uma reação entre intelectuais muçulmanos. Assinada por 138 pensadores de 43 países diferentes, ‘Uma Palavra em Comum entre Nós e Vocês’ era um convite ao diálogo, à compreensão mútua e ao amor.

O documento frisava que nenhuma religião em si geraria a violência – neste ponto, portanto, os signatários se posicionavam contrariamente ao discurso de Bento XVI. Por outro lado, e aí havia um ponto de convergência entre aquilo que fora dito pelo sumo pontífice, eles concordavam que, se mal interpretadas, todas as religiões poderiam resultar em atos de violência.

Ecumenismo e diálogos inter-religiosos. O encontro entre o papa e o grande imã tem uma representatividade que, nos tempos hodiernos, transcende a religião, abarcando de certa forma a geopolítica internacional. Isto porque, à parte conflitos de fé, o mundo – sobretudo a Europa – vivencia uma crise imigratória em que povos orientais, em fuga de guerras, enfrentam toda a sorte de barreiras na tentativa de adentrar ao Ocidente.

“Francisco tem se mostrado preocupado com o problema dos refugiados, lembrando da responsabilidade dos católicos em acolher os muçulmanos que enfrentam dificuldades. Ao mesmo tempo, a Igreja busca ajudar na superação dos conflitos entre Ocidente e Oriente”, analisa o biólogo e sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Trata-se de uma preocupação particular da Igreja hoje.”

Ribeiro Neto lembra, contudo, que existe uma longa história de tentativas de boas relações entre as religiões, inclusive entre muçulmanos e católicos. “O próprio cardeal Joseph Ratzinger, antes de se tornar papa Bento XVI, fazia parte de um grupo internacional que buscava valorizar os diálogos entre cristãos, judeus e muçulmanos”, pontua o sociólogo.

Jesuíta como Jorge Bergoglio, o teólogo e sacerdote germânico Karl Rahner (1904-1984) foi um importante expoente do catolicismo a abordar o pluralismo religioso e o ecumenismo. “Rahner ressaltava a necessidade do diálogo, naquele momento, sobretudo com os judeus e as diversas denominações cristãs”, contextualiza Ribeiro Neto.

O olhar para o mundo muçulmano a partir da Igreja Católica aparece de modo mais intenso com os conflitos no Oriente Médio, já em uma era posterior ao Concílio do Vaticano II – ocorrido entre 1962 e 1965. “É quando a Igreja Católica começa a se dar conta de que existe um problema na relação com o mundo islâmico. Não se pode simplesmente tratar os muçulmanos como ‘aqueles que não têm fé’”, pontua o sociólogo.