Nova meditação conquistou da Oprah à polícia
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Nova meditação conquistou da Oprah à polícia

Técnica conhecida como da 'atenção plena', a mindfulness é estudada na Unifesp e se espalha por centros de terapia paulistanos

Edison Veiga

23 Outubro 2016 | 03h00

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

Atenção plena. Foco no presente. Concentração. Batizada de mindfulness, a técnica de meditação e exercícios de tradição oriental adaptada ao mundo ocidental tem ganhado cada vez mais adeptos. Centros de treinamento e prática se espalham por São Paulo, de carona em um fenômeno que, somente no ano passado, movimentou R$ 984 milhões nos Estados Unidos, segundo dados da consultoria Ibis World.

Internacionalmente, o rol de praticantes famosos vai da apresentadora de TV Oprah Winfrey ao jogador de basquete LeBron James. Segundo estudos, a mindfulness tem ajudado a melhorar a alimentação, organizar a carreira, controlar ansiedade, aliviar a depressão, reduzir o estresse… Desde 2011, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mantém um programa de treinamento e estudos da técnica, o Mente Aberta.

Entre encaminhados por unidades de saúde e profissionais de áreas específicas que vêm sendo atendidos pelo Mente Aberta, recentemente foi firmado um acordo experimental com a Polícia Militar. Vinte integrantes do batalhão de Santo Amaro, na zona sul, encontram-se uma vez por semana com a psicopedagoga Sonia Beira Antonio, mediadora da atividade. “Começamos em agosto e é a primeira vez no Brasil que policiais militares estão sendo capacitados para utilizar a técnica”, conta ela. “Neste caso, estamos focando em redução de estresse, já que a atividade deles é extremamente estressante. Esperamos que o projeto se expanda para outros batalhões.”

Foi o estresse no trabalho que levou Pedro Vieira Maciel, de 29 anos, a procurar os profissionais da Academia de Mindfulness, um centro privado de treinamento da prática. Gerente de operações de uma empresa de crédito universitário, ele vivencia situações de cobrança diariamente. “Percebi que precisava estar mais focado no presente, porque quem olha só para o futuro tende a ficar ansioso, quem se preocupa muito com o passado pode ficar depressivo”, conta Maciel, que fez um intensivo do programa no início do mês e já começa a colher os frutos. “Em menos de uma semana de meditação, já obtive um feedback positivo de um gestor, que disse que eu havia melhorado a performance e a postura.”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Expansão. Responsáveis pela Academia de Mindfulness, em Pinheiros, zona oeste, o engenheiro agrônomo Alexandre Lunardelli e a administradora Joselita Cunha calculam que já treinaram mais de 1 mil pessoas, entre cursos e palestras. “Daqui a alguns anos, mindfulness vai ser como coaching é hoje: todo mundo vai saber o que significa”, acredita Lunardelli.

Há duas portas de entrada para quem busca a técnica. O curso de oito semanas, mais convencional, e o intensivão, com todo o treinamento em um fim de semana. No primeiro caso, em São Paulo, o custo vai de R$ 800 a R$ 1,2 mil. A versão compacta custa de R$ 650 a R$ 900.

“No estado mental de mindfulness, trabalhamos dois componentes: a atenção e a atitude”, explica o médico Marcelo Marcos Piva Demarzo, professor da Unifesp e coordenador do Mente Aberta. “É um pouco parecido com atividade física: precisa de exercícios constantes, treinamento. Só assim vêm a aptidão e os resultados.”

Graças aos grupos acompanhados pela Unifesp, Demarzo relata cientificamente benefícios em pacientes com quadros de dor crônica a hipertensão, passando por diabete e depressão, entre outros problemas.

Foto: Márcio Fernandes/ Estadão

Foto: Márcio Fernandes/ Estadão

“Vejo muitas mudanças desde que comecei a praticar, em setembro do ano passado, mas a principal foi uma maior atenção e qualidade nas minhas ações. Percebo que estou mais assertiva e consciente das minhas escolhas”, afirma a professora e aromaterapeuta Andrea Darco, de 43 anos. “Sou mais tranquila, presente e feliz.”

“Gradualmente consegui ser mais observadora, mais focada no aqui e no agora, ir estabelecendo limites mais claros e dar respostas menos automáticas às situações”, diz a psicóloga Eliana de Cássia Martins Gouveia, de 56 anos, praticante há mais de um ano. “A gente acaba se apropriando mais dos próprios pensamento, sensações, emoções e respondendo de forma mais consciente. Algumas práticas ensinadas também me possibilitaram relaxar e dormir com mais facilidade.”

Ciência. Vários estudos internacionais vêm apontando benefícios da mindfulness. No ano passado, a Universidade Carnegie Mellon, na Pensilvânia, Estados Unidos, demonstrou benefícios decorrentes da técnica. De acordo com os pesquisadores, a redução do estresse promovida pela meditação reduz o risco e a gravidade de doenças como depressão e problemas do coração. Tudo por causa de uma “inversão” no padrão de comportamento do cérebro: a mindfulness aumenta a atividade no córtex pré-frontal, a mesma região que “diminui” em pessoas estressadas.

“A técnica ganhou bastante reconhecimento graças às comprovações científicas de que ‘estar presente’ altera a estrutura neurofisiológica e isso traz benefícios psicológicos”, comenta Danielle Wang, responsável pelo treinamento ministrado no Hiperespaço, na Vila Madalena.

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