Nos passos de d. Pedro
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Nos passos de d. Pedro

Pesquisadores refazem trajeto que imperador percorreu nos dias que antecederam a Independência do País; a partir de fevereiro, turistas poderão fazer passeio

Edison Veiga

04 Janeiro 2016 | 05h00

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

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D. Pedro chegou antes do combinado em uma fazenda e acabou almoçando sem ser reconhecido como príncipe; plantou uma palmeira; fez promessa para Nossa Senhora Aparecida; trocou de calças com um guarda. Foram muitas as peripécias do nobre na viagem realizada do Rio a São Paulo – iniciada por ele como príncipe, concluída como imperador.

Em 14 de agosto de 1822, d. Pedro saiu do Rio – com uma comitiva de sete pessoas. Antes de proclamar a Independência, no histórico 7 de setembro, entretanto, o monarca peregrinou por muitas cidades no Vale do Paraíba. Cento e noventa e três anos depois, o historiador e arquiteto Paulo Rezzutti – autor de, entre outros, ‘D. Pedro: A História não Contada’ – e a guia de turismo Kátia Nicolav, a Cacau – especializada pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo –, seguiram os passos de d. Pedro e encontraram preciosidades preservadas, além de curiosas histórias de outras personalidades brasileiras, como o escritor Monteiro Lobato e religioso Frei Galvão.

“Em seis dias, percorremos 1,3 mil km”, conta Cacau. “Conversamos com moradores locais, historiadores e agentes culturais. E, claro, visitamos os pontos de relevância histórica.” Como ponto de partida, a dupla utilizou relato escrito em 1864 pelo major reformado Francisco de Castro do Canto e Melo, irmão da Marquesa de Santos. “Ele fazia parte dos ‘leais paulistanos’, uma divisão de 1,1 mil homens que foi formada e armada em São Paulo e enviada ao Rio por convocação de d. Pedro em janeiro de 1822”, explica o historiador, lembrando que Francisco integrou a comitiva que acompanhou d. Pedro.

“São Paulo estava o caos”, afirma Rezzutti. “O governo eleito havia dado um golpe no próprio governo e se recusava, apesar da ordem do príncipe, a se dissolver e chamar novas eleições. D. Pedro veio para fazer as ordens dele serem cumpridas. E aproveitou a viagem para apaziguar a província e fazer alianças com os fazendeiros mais poderosos do Vale do Paraíba, que lhe serviriam na Independência.”

(No mapa abaixo, clique no numeral para ler sobre cada uma das paradas do imperador.)

Roteiro. Da Quinta da Boa Vista, a primeira parada foi na Fazenda de Santa Cruz, que era da própria família imperial. Ali pernoitou. No dia seguinte, d. Pedro já estava em terras paulistas. Chegou à Fazenda Três Barras, em Bananal, na época pertencente ao capitão Hilário Gomes de Almeida – que, doente, estava acamado e foi visitado pelo príncipe em seu quarto. Hoje ali funciona um hotel-fazenda.

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

“Bastante modificado por sucessivas reformas, o local se transformou no Hotel Três Barras”, comenta Rezzutti. “Em memória da passagem do príncipe, uma suíte, onde dizem que ele dormiu, foi batizada de ‘imperial’. Outro visitante ilustre do local, já com esse transformado em hotel, foi o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que utilizaria a fazenda para seus encontros amorosos.”

No dia 17 de agosto, um d. Pedro “quase anônimo” foi para São José do Barreiro, passando pela Fazenda Pau d’Alho. “A fazenda, que começou a ser construída em 1817 pelo coronel João Ferreira, recebeu o príncipe para uma refeição apressada”, pontua o historiador. “Apostando corrida com os demais componentes da comitiva, chegou antes do esperado na fazenda e pediu um prato de comida. A proprietária, sem saber que o forasteiro era d. Pedro, não negou comida ao viajante, mas o recebeu na cozinha, afinal a sala de jantar estava sendo preparada com toda a pompa e circunstância para receber o príncipe regente para almoçar.”

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

Em seguida, ainda no mesmo dia, foi a vez de a comitiva parar na casa do capitão-mor Domingos da Silva, em Areias – onde hoje funciona o Hotel Sant’Ana. “Teria dormido no último quarto, uma espécie de mirante ainda existente de onde é possível ver parte da cidade e da região”, relata Rezzutti. “Areias também entrou para a história nacional por outro motivo, foi o local onde Monteiro Lobato morou e onde trabalhou como promotor público de 1907 a 1911. Devido ao marasmo da cidade e das demais no entorno, apelidou a região de ‘Cidades Mortas’ e as imortalizou com diversos contos que lançou em livro com este título. Ainda hoje, a casa onde Lobato morou e o local onde ele trabalhou, a antiga Casa de Câmara e Cadeia, estão lá.”

Cachoeira Paulista, então chamada de Porto Cachoeira, foi ponto de parada rápida no dia 18, apenas para o almoço. À noite, a comitiva chegou à Lorena. “Nessa cidade, d. Pedro ficou na casa do capitão-mor Ventura José de Abreu. A residência não existe mais. O príncipe teria plantado uma das primeiras palmeiras da Rua das Palmeiras, que se localiza no centro da cidade. Também conheceu a Casa de Câmara e Cadeia, que não foi preservada, e a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.”

Em Guaratinguetá, no dia 19, ficou hospedado na casa do capitão-mor Manoel José de Melo – cuja construção não existe mais. “Poucas construções, aliás, são remanescentes da época da passagem do príncipe pela cidade”, comenta o historiador. “Dentre elas, a casa onde nasceu Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro.”

A comitiva saiu maior de Guaratinguetá. D. Pedro arregimentava novos seguidores, que formavam uma guarda de honra. O grupo passou pela então Capela de Nossa Senhora Aparecida, hoje município de Aparecida. “Localizada no alto de uma colina, era cercada por coqueiros”, diz Rezzutti. “A capela era um conjunto maciço, parte em pedra, com duas torres e a cúpula arredondada, que guardava a imagem de Nossa Senhora, pescada no Rio Paraíba, e por isso ‘Aparecida’. Segundo a tradição popular guardou, além de suas orações d. Pedro teria feito um voto de que tudo ocorrendo como desejado, ele tornaria Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil independente.”

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

A parada seguinte seria em Pindamonhangaba. Ali, d. Pedro ficou hospedado no sobrado do irmão do capitão-mor, o monsenhor Ignácio Marcondes de Oliveira Cabral. “Conhecido como ‘sobrado dos Marcondes’, a residência foi ao chão como diversos outros prédios históricos na cidade, que guarda uma história muito particular do período da independência”, conta Rezzutti. “Devido à grande quantidade de homens influentes da região a se juntarem a d. Pedro em sua guarda de honra, existe numa das praças centrais da cidade um monumento lembrando esse fato. Outra curiosidade é que Pinda foi a única cidade sem ser capital que recebeu os restos mortais de d. Pedro I durante as comemorações do Sesquicentenário da Independência. O caixão ficou na igreja de São José nos dias 2 e 3 de setembro de 1972. No local, conhecido como Panteão de Pindamonhangaba, estão enterrados os membros pindamonhangabenses da Guarda de Honra. A igreja, que necessita de restauro, encontra-se fechada sem previsão de reabertura.”

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

Em Taubaté, em 21 de agosto, d. Pedro passou a noite na casa do cônego Antônio Moreira da Costa. A construção não existe mais. “Teria visitado o antigo Convento de Santa Clara, fundado em 1673. Também a antiga Igreja do Pilar é um dos testemunhos antigos da passagem do príncipe pela cidade”, pontua. “Várias administrações, desde 1873 até o século 20, buscaram relembrar a passagem de d. Pedro pela cidade. Em 1873 foi a rua do gado batizada como Rua do Príncipe. Depois, na República, mudada para Rua 15 de Novembro. Em 1955, o nome dos taubatenses que seguiram com d. Pedro para São Paulo como parte de sua guarda de honra foram postos em algumas ruas da cidade. A Rua Ipiranga e a Avenida D. Pedro I também tiveram seus nomes colocados no mesmo ano.”

No dia 22, foi recebido pelo capitão-mor Claudio José Machado, em Jacareí. “Uma curiosidade: A travessia de Taubaté para Jacareí era feita de balsa pelo Rio Paraíba. Conta-se a história que d. Pedro, irrequieto como só ele, sem ter paciência para esperar a balsa, esporeou a montaria e atirou-se às águas do Paraíba para ser logo recebido pela multidão de Jacareí que o esperava do outro lado da margem. Após ser recebido, com os calções molhados, pôs-se a procurar alguém que tivesse o seu tamanho e que estivesse com as calças secas”, narra Rezzutti. “A vítima foi Adriano Gomes Vieira, de Pindamonhangaba, que havia se ligado à guarda de honra e que atravessou de balsa para Jacareí. Adriano teve a ‘honra’ de dar suas calças secas para o príncipe, ficando com as molhadas dele.”

Em Mogi das Cruzes, no dia 23, foi recebido pela população local e assistiu à missa na Igreja de Sant’Ana, onde hoje está a Catedral de mesmo nome. Ali, ficou hospedado com o capitão-mor Francisco de Mello. Chegaria a Penha de França, hoje parte da cidade de São Paulo, no dia 24. Assistiu à outra missa ali, na manhã do dia 25, antes de sua entrada oficial em terras paulistanas, quando foi recebido pela vereança, pelos religiosos e pela população diante da Igreja e Convento do Carmo. “A igreja da Ordem Terceira e o relevo do local, são os dois únicos guardiões atuais da passagem do príncipe pelo local”, comenta.

Em São Paulo, d. Pedro teve uma intensa rotina antes do 7 de setembro que foi eternizado. “Convocou novas eleições e, enquanto isso, governou a província interinamente”, afirma Rezzutti.

Para fazer. Ao longo de 2016, o circuito de 12 cidades – incluindo o então vilarejo de Penha de França, hoje município de São Paulo – será comercializado a viajantes culturais pela empresa Turismo na História. O roteiro foi dividido em quatro trechos – programação detalhadada pode ser conferida em www.turismonahistoria.com.br.

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História

Foto: Paulo Rezzutti/ Turismo na História