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Nomes e onomásticos: a eternidade nossa de cada dia

Edison Veiga

19 Março 2011 | 12h29

Por José de Souza Martins*

Logo cedo, deste dia 19 de março, Dia de São José, recebi de Marie-Ghislaine, amiga belga, um abraço pelo dia do meu onomástico. Marie-Ghislaine foi na USP orientanda do Prof. Lucio Kowarick e aqui realizou uma original pesquisa com mendigos, de que resultou o referencial livro Os Mendigos na Cidade de São Paulo. Para levantar seus dados foi, por longos meses, morar na rua com eles. Era o tempo brabo da ditadura. Foi presa mais de uma vez, suspeita de que sua técnica de observação participante era na verdade artimanha subversiva, materialista e comunista para derrubar o regime militar! Marie-Ghislaine é católica devota e praticante. Todos os anos ela me manda um abraço lá de longe.

O costume do cumprimento no dia do onomástico é arraigado nos países católicos europeus e, geralmente, nos de língua espanhola. É costume que rememora tradição antiga relativa ao caráter mágico dos nomes, provavelmente herança de um dia muito antigo em que o que era mágico se tornou sagrado. Na Conquista, aqui no Brasil, os missionários logo descobriram que os índios tinham nome, mas que o nome era literalmente secreto. Poucos o conheciam e ninguém podia pronunciá-los. Helena Valero, brasileira do Amazonas, que adolescente foi sequestrada pelos índios Ianomâmi nos anos 1930 e que só conseguiria fugir muitos anos depois, já adulta e com filhos ianomâmi, só foi saber o nome de seu marido quando ele morreu.

Conheci, em uma reunião com diversos grupos indígenas, curiosa reação de um cacique que exigia com veemência que os missionários os batizassem. O nome cristão os pouparia do risco da revelação do nome indígena e lhes seria uma espécie de vacina contra a violência dos brancos. Entendi perfeitamente o que queriam. Nos anos 1970, caminhando por uma rua de terra no povoado de São Félix, à beira do Rio Araguaia, ouvi um grupo de crianças insultar um velho índio carajá, que passava. Interpelei as crianças: ” – Por que vocês fazem isso? Aquele senhor é gente como vocês e eu.” Respondeu-me um deles, irritado com a comparação: ” – Não é, não! Ele é gentio e eu sou cristão”. Melancólico e triste indício do que é o nome na nossa cultura. Há muitos anos, de um padre amigo, ouvi esta narrativa curiosa. Em visita de desobriga, em lugar remoto da roça, como era costume antigo, um padre fez todos os casamentos e batizados pendentes. A cada casal, da fila, o padre perguntava o nome da criança. A um casal de negros, com uma menininha no colo, fez a mesma pergunta. ” – Shirley, seu padre”, foi a resposta. “- E lá Shirley é nome de preto? Benedita, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!”

A forte carga mágica dos nomes está desaparecendo aos poucos. Mas sua importância na nominação dos nascituros ainda permanece. Tenho razões para desconfiar que meus avós maternos casaram-se porque ela se chamava Maria e ele se chamava José, rememoração do casal sagrado e fundante do cristianismo, pois não se conheciam. Foi minha bisavó que procurou a patroa de minha avó para pedi-la em casamento para seu filho, que havia chegado à idade núbil. Suspeito seriamente que minha tia-avó paterna, Albina, casou-se com meu tio-avô porque ele se chamava Albino. O amor romântico é relativamente recente na história da formação dos casais, a bem dizer de três ou quatro gerações para cá, quando muito.

Os casos mais frequentes são os das nominações como memória dos ancestrais. Judeus sefaradi e muçulmanos usam o prefixo Ben ou Ibn, em muitos nomes, para designar o “filho de”. Minha avó materna era Benítez, o que quer dizer “filha de” Ibn + itez. Também na Grécia há uma tradição assim. Aqui na USP tive um professor, Otávio Ianni, conhecidíssimo sociólogo, de família originária da região de Salerno, na Itália. Ianni quer dizer “filho de João”, um João grego que existiu um dia quando aquele canto do país era parte da Magna Grécia. Como aconteceu com Arquimedes, que era grego da Itália. Tanto no caso de Benitez quanto no caso de Ianni, nomes que celebram um patriarca ancestral, um pai fundador, o denominador de uma sagrada linhagem de sangue.

Há alguns anos, sabendo que ia à Itália, pediu-me o professor José César Aprilanti Gnacarini, meu amigo e colega na USP, que visitasse a pequena localidade de origem de sua família, em Mântua, o que fiz. Foi uma surpresa descobrir que no cemitério local havia vários Giuseppe Cesare Gnacarini sepultados. E o mesmo constatei comparando os nomes do cemitério de São Caetano e o cemitério de Cappella Maggiore, lugar de origem dos colonos italianos que para São Caetano vieram em 1877. Esses nomes se repetem ainda hoje: memória e celebração da origem e da ancestralidade.

Na minha família materna, são frequentes os nomes masculinos João, José, Antonio e Pedro. Meu avô era José e por ele assim me chamo (e por isso decidiu meu pai, no ato do meu nascimento, que eu seria carpinteiro, como o pai putativo de Jesus, como me revelou minha mãe, pouco antes de morrer). Todos os homens de minha família materna, há quatro gerações pelo menos, tem um desses nomes. O mesmo acontece com o nome das mulheres. Uma trama de nominações que no seu enredamento propõe a família como uma pessoa só ao longo das gerações.

Cada um de nós é, na verdade, uma jazida arqueológica. Nas nominações, os antigos renascem e permanecem. Isso é o que se chama de alma. Essa é a trama da nossa eternidade.

* O sociólogo e escritor José de Souza Martins é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e cronista do Estadão.