Noites nuas e o supertrunfo
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Noites nuas e o supertrunfo

CRÔNICA

Edison Veiga

07 Novembro 2017 | 01h31

Foto: Cesar Cardoso/ Creative Commons/ Flickr

Alguém ainda joga supertrunfo?, perguntou ele de si para si, porque como todo solitário era um ensimesmado a travar monólogos mentais sem nem sussurrar. Fazia tempo, na verdade, que havia abandonado a jogatina, talvez o mesmo tempo em que perdera, um a um, todos os amigos, uma a uma, todas as namoradas, nem o Facebook lhe funcionava mais, quem dera o Tinder piscasse algum alerta, alguma promessa de noite que não fosse a sós.

Por que será que sós tem esse essezinho assim no fim, seria uma ironia essa apresentação plural para palavra tão singular?, perguntou ele novamente de si para si mesmo, solitário, ensimesmado, etc.

Bobagem. Levantou-se e foi lá preparar mais um chá. A noite estava fria, nem parecia que já era quase verão, as estações andam meio confusas, deve ser o tal aquecimento global, o danado do Trump, as equações interestelares interferindo tudo, o ser humano desmatando e matando, perdia-se ele em cada pensamento maluco, como parar com isso, agora?

Fez o chá. Fazia tempo que, por pura preguiça, não mais ligava o fogão para nada. Até para aquecer a água do chá recorria ao micro-ondas, vai ver ainda esse negócio iria lhe detonar os miolos, deve ter radiação pesada, imagina que irresponsabilidade isso de usar o micro-ondas até para esquentar uma xícara de água, quase fervendo, depois colocar ali a trouxinha que iria virar chá. Três minutos, nunca mais.

Pronto, podia voltar a escrever agora. O chá esquentava o corpo de dentro para fora, apagava o frio da solidão que vinha de lá da noite, deixava o dentro mais morno, mais aconchego, menos sós, menos só. Mas era só. Só.

Alguém ainda joga supertrunfo?, perguntou ele novamente e digitou no Google, tinha nostalgia, queria ver aquelas caixinha de plástico com cartas, queria ver o supertrunfo de carros de Fórmula-1 igual ao que gostava de jogar em criança, queria matar a saudade do supertrunfo de foguetes e também do de motocicletas. Ele tinha sido um menino criativo, lembrou que no auge dessa brincadeira recortava fichas técnicas de jogadores, publicadas em jornal, colava em cartolinas, transformava em um novo jogo, um supertrunfo de jogadores de futebol. Os do Palmeiras valiam mais. Também, que time aquele, tempos áureos de Parmalat, ganhava tudo, não deixava espaço para ninguém.

Lembrou do jornal. Bons tempos em que lia jornais de papel, bateu até uma saudadinha. E desde pequeno também gostava de jornais velhos. Lembrou-se que revirava um baú da casa da sua avô só com recortes de matérias antiquíssimas de arte, jamais entendeu por que era que a velhinha colecionava essas coisas. Foi ali a primeira vez que viu uma mulher pelada – era uma matéria sobre um artista que pintava nus femininos e a foto mostrava uma modelo posando para ele. Aquele grupo cujo nome não merece ser mencionado odiaria. Os membros daquele grupo cujo nome não merece ser mencionado parecem preferir que as pessoas vejam nus apenas na pornografia, porque quando é arte eles meio que não entendem, têm um colapso, zera tudo. Aí saem criticando, fazem posts na internet, inventam fake news, ameaçam interditar museu.

Voltou ao supertrunfo. Ficou imaginando uma edição com políticos. As cartas poderiam ter “número de votos em sua melhor eleição”, “mandatos consecutivos”, “crimes nos quais esteve envolvido”, “maior propina recebida”, “quantidade de dias em que esteve preso”, “mentiras de campanha”.

Doeu-lhe o estômago.

Decidiu por mais um chá.

De boldo.

Levantou-se e, enquanto a água aquecia, ficou olhando a fresta da janela, levemente desencostada. A rua estava pacata. Silenciosa. Era quase tão solitária como ele.

E então, acordou. Estava transformado em rua. Pronto para ser pisoteado, atropelado, percorrido.

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