No campo adversário (jogo 7: Holanda 3 x 0 Brasil)
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No campo adversário (jogo 7: Holanda 3 x 0 Brasil)

A última partida da série 'No Campo Adversário', com a despedida melancólica da seleção brasileira

Edison Veiga

14 Julho 2014 | 16h05

Foto: Paulo Liebert/ Estadão

O holandês Ronald não estava nem aí para o jogo de anteontem. “Não vale nada. É tipo um Juventus e Ferroviária: certamente um dos jogos mais chatos do mundo”, dizia ele, minutos antes de a partida começar, sem esconder a decepção pela sua seleção não ter ido para a Final da Copa. Tanto que, quando a reportagem do Estado o contatou pela primeira vez, na última quinta, ele afirmava nem saber se iria assistir ao jogo. Tanto que, quando a reportagem do Estado chegou à sua casa anteontem, ele nem estava – a equipe foi recepcionada por sua mulher, brasileira, porque Ronald havia ido ao Mercadão com dois amigos holandeses que queriam comprar algumas lembrancinhas gastronômicas para levarem de volta para o seu país.

Mas foi só a bola rolar e, bem, o primeiro gol holandês sair logo aos 2 minutos para que o clima mudasse. São as coisas do futebol e, veja, mesmo um Juventus e Ferroviária tem seu valor para quem torce. “Estamos torcendo, estamos vibrando, mas não com aquela tensão toda do restante da Copa”, frisou Ronald, no intervalo do jogo.

Ronald Santing, de 29 anos, vive em São Paulo desde setembro do ano passado. Veio por causa da mulher – na época, namorada -, a brasileira Isabela Dias Ribeiro, de 25 anos. Conheceram-se quatro anos atrás, quando ela fez um intercâmbio na Holanda. “Em meu primeiro dia, ele me ajudou com as malas no trem”, recorda-se ela, hoje psicóloga. Não se separaram mais.

Em São Paulo, Ronald conseguiu um emprego como secretário do consulado holandês. E também atua como documentarista – em parceria com dois colegas holandeses, produziu uma série chamada Itaquera: A Copa no Quintal. “Selecionamos quatro moradores da região do Itaquerão e procuramos mostrar como a Copa do Mundo mudou a vida deles, mudou a vida do bairro”, explica. O material foi exibido pelo canal Futura e também pode ser assistido via internet (em www.itaqueradeserie.com).

“Gosto de viver aqui porque São Paulo é uma cidade muito urbana, com intensa vida cultural, muitos museus, muitos bons restaurantes”, diz Ronald, em ótimo português para quem mora no País há menos de um ano.”O que ainda não me acostumei é com isso de termos de tomar um trem, um metrô e um ônibus e levar duas horas só para conseguir encontrar os amigos para tomar cerveja. Mas são coisas de uma cidade cuja região metropolitana é maior do que o meu país, que tem uma população de 17 milhões de habitantes.”

Ao longo da Copa, o casal hospedou, em seu apartamento no bairro da Pompeia, dois holandeses, amigos de Ronald – os funcionários públicos Jochem Blad, de 27 anos, e Vincent Von Beest, de 32 anos. Eles também estavam um pouco decepcionados com o fato de a Holanda não ter passado pela Argentina na última quarta – assistiram a todas as partidas nos estádios.

No passeio ao Mercadão pouco antes do jogo, compraram alguns produtos típicos brasileiros, como “aquela barra que vocês colocam no queijo” (goiabada), “a areia de botar na comida” (farofa) e chimarrão. Durante a partida, a plateia em frente a TV estava dividida – eram eles três holandeses de um lado e Isabela e cinco amigos brasileiros do outro.

Após o segundo gol holandês, Isabela decidiu acender duas velas para Nossa Senhora Aparecida. “Deu certo contra o Chile”, comentou, lembrando da dramática partida das oitavas de final, quando o Brasil passou nos pênaltis. “Agora já é tarde”, provocou Jochem. Ele tinha razão. Não só pelo jogo de sábado, aliás. A Copa do Mundo acabou.

Confira a série completa:
Jogo 1: Croácia
Jogo 2: México
Jogo 3: Camarões
Jogo 4: Chile
Jogo 5: Colômbia
Jogo 6: Alemanha
Jogo 7: Holanda

Versão ampliada de reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 13 de julho de 2014

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