No campo adversário (jogo 6: Alemanha 7 x 1 Brasil)
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No campo adversário (jogo 6: Alemanha 7 x 1 Brasil)

Edison Veiga

09 Julho 2014 | 14h16

Foto: Paulo Liebert/ Estadão

Quando saiu o primeiro gol, ele levantou os braços e, ali, sentado no sofá, comemorou racionalmente, como um bom alemão. Quando Klose anotou o segundo, apenas comentou um “você sabia que agora ele é o maior artilheiro da história das Copas?”. No terceiro gol, foi consolar a mulher, brasileira, com um abraço meio que pedindo desculpas. “Este era um resultado que eu jamais esperava”, disse após o quarto gol. Levantou-se do sofá e não se sentaria mais até o fim da partida. Saiu o quinto gol e ele soltou um “uau” pausado, escandindo as letras – se é que se pode escandir algo que não sejam sílabas. “Mais um? É demais”, afirmou depois do hexa, digo, do sexto. No sétimo, ele passou a lamentar: “o Brasil não merece isso”.

Com cervejas – brasileiras -, salsichas e pretzels, o alemão Eckhard Kupfer, de 72 anos, viu sua seleção protagonizar o que se tornou um vexame para os brasileiros. Diretor do Instituto Martius-Staden, entidade de intercâmbio cultural Brasil-Alemanha, ele convidou amigos brasileiros, um suíço – o comerciante Hugo Buser, 67 anos, há 39 no Brasil – e uma alemã – a especialista em comércio exterior Monika Böhmer, 66 anos, no País desde 1976 – para assistirem à partida em sua casa, na companhia da sua mulher, a enfermeira Selma de Souza, 42 anos, brasileira.

Imigração. Amigos, amigos, futebol à parte, o sonho de se tornar um pouco brasileiro começou a ser cultivado por Eckhard quando ele ainda era um alemãozinho de 10 anos, na cidade de Stuttgart. “Li um livro alemão, de ficção, que contava as aventuras de uma pessoa que tinha vindo morar no Brasil. Fiquei encantado”, conta. “Naquela época, a Alemanha era muito restritiva e comecei a sonhar com a terra da liberdade que, para mim, era o Brasil.”

O tempo passou, ele entrou para a universidade, cursou Línguas, Filosofia, depois Comércio Exterior. Casou-se com uma alemã. Resolveu aprender português. Em 1977, a empresa onde trabalhava comprou uma parte de uma companhia brasileira. Precisavam mandar alguém para ficar três meses em São Paulo. Eckhard se candidatou. Veio.

Três meses não foram suficientes. Pediu outros três meses. Depois, negociou três anos. Em seguida, outros três anos. Nesse meio tempo, Eckhard começava a se tornar um pouco brasileiro também – e em seu coração de apaixonado por futebol, o VFB de Stuttgart passou a dividir espaço com o São Paulo Futebol Clube. Aqui nasceram seus dois filhos, hoje respectivamente com 34 e 33 anos. Eckhard se abrasileirava, assim como os mais de 100 mil alemães de nascimento que adotaram o Brasil.

“Sentia falta de algumas coisas da Alemanha, como a facilidade de locomoção, seja a pé, seja de bicicleta. Mas logo me adaptei a São Paulo e até às cervejas brasileiras”, recorda-se.

Só que sua relação com o Brasil seria interrompida por um período. “Acabei me mudando para a Flórida, nos Estados Unidos, e até pensei que iria passar o resto da vida lá”, conta. Não foi bem assim: pouco mais de três anos mais tarde, com uma proposta de trabalho irrecusável debaixo dos braços, estava de volta a São Paulo. Para morar na mesma casa que ocupa até hoje, na Chácara Monte Alegre, zona sul da cidade.

Seguiu trabalhando com comércio exterior até 1995, quando decidiu se dedicar a escrever. Livros e artigos sobre cultura alemã, sobre imigração alemã no Brasil, enfim, temas dos quais é observador e personagem ao mesmo tempo.

Em 2003, passou a atuar como colaborador do Instituto Martius-Staden. Dois anos mais tarde foi convidado a assumir a presidência da entidade. “Eu já estava meio aposentado, mas acabei me envolvendo”, justifica-se. Separado há 10 anos de sua primeira mulher, ele se casou, pouco mais de um ano atrás, com a enfermeira Selma. Que, ontem, não teve jeito: ficou triste com a felicidade do marido. Ela vestia camisa amarela. Ele, o uniforme da seleção alemã.

Versão ampliada de reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 9 de julho de 2014

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