No campo adversário (jogo 5: Colômbia 1 x 2 Brasil)
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No campo adversário (jogo 5: Colômbia 1 x 2 Brasil)

Edison Veiga

05 Julho 2014 | 12h47

Foto: Erica Dezonne/ Estadão

Deus não entra em campo. Quem garante é o padre colombiano Luis Espinel Vargas, de 32 anos. “Não rezo pela seleção. O jogo é decidido pela técnica dos jogadores”, dizia ele, minutos antes da partida começar. A reportagem não sabe se foi falta de oração colombiana, se Deus é brasileiro mesmo ou se, realmente, o campo é laico – fato é que deu Brasil.

Padre Luis e o seminarista Julián Zapata Betancur, de 24 anos, também colombiano, assistiram ao jogo de ontem na casa da assistente social Ana Paula Caffeu, de 44 anos, na Vila Prudente. Ela é brasileira e trabalha na Paróquia Nossa Senhora da Paz, no Glicério. Padre Luis e o seminarista Julián são ligado a essa paróquia – ambos pertencem à Missão de São Carlos e são designados para atuar em outros países, sempre em defesa dos imigrantes e dos refugiados.

“Antes de vir para São Paulo, há um ano e meio, morei na Itália, nos Estados Unidos, na Venezuela e na Argentina”, conta o sacerdote. “Eu vivi um tempo no México, até ser mandado para cá”, completa o seminarista.

Foto: Erica Dezonne/ Estadão

Imigrantes. Eles gostam de viver em São Paulo. “É uma cidade que acolhe os imigrantes. E aqui há gente do mundo todo”, diz padre Luis. “Sou bem recebido por todos. Só sinto falta de comer arepa todo dia”, comenta Julián, em alusão ao quitute típico de seu país.

Em São Paulo, eles têm muito trabalho, já que a igreja do Glicério é conhecida justamente pela atuação junto aos imigrantes e refugiados. Por outro lado, estão na cidade que mais abriga conterrâneos no País – dos cerca de 8 mil colombianos que vivem no Brasil, a maior parte está na capital paulista.

Tanto Luis quanto Julián são aficionados por futebol. O primeiro torce para o América de Cali, na Colômbia, e para o Internacional (“por causa da cor vermelha”, explica), no Brasil. Julián é Nacional de Medelin lá e Santos aqui. “Por causa da história, do Pelé e do Neymar”, conta.

Eles têm os uniformes 1 e 2 da seleção colombiana. Ontem, estavam de vermelho. “Viemos com o segundo uniforme porque é assim que a seleção vai jogar, já que o Brasil vem de amarelo”, explicou o padre, um pouco antes de a bola rolar.

Julián vibrou durante toda a partida enrolado à bandeira colombiana. Inquieto, por vezes se levantava, circulava, conversava com os brasileiros – a anfitriã e amigos. Padre Luis torcia em silêncio. Circunspecto. Sentado no meio do sofá, bem em frente à televisão, na maior parte do tempo permaneceu com semblante sério, um pouco inclinado, cotovelos apoiados nos joelhos. Talvez porque o primeiro gol do Brasil, logo no ínicio da partida, tenha apagado um pouco suas esperanças. Talvez porque, mesmo dizendo que Deus não interfere no futebol, estivesse rezando.

Na próxima quarta, dia 9, celebra-se o dia da Virgen de Chinquiquirá, padroeira nacional da Colômbia. Padre Luis diz que a missa por aqui, na Paróquia Nossa Senhora da Paz, está marcada apenas para o dia 20, um domingo.

Versão ampliada de reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 5 de julho de 2014

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