“Não me arrependo. Faria exatamente da mesma forma”
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“Não me arrependo. Faria exatamente da mesma forma”

Edison Veiga

09 Setembro 2010 | 16h27

FOTO: CLAYTON DE SOUZA/ AE
Na década de 50, Waldomiro Zarzur, então um engenheiro de “30 e poucos anos”, projetou e construiu com o sócio – o falecido Aron Kogan – dois prédios que se tornaram símbolo do centro degradado: o São Vito e o Mercúrio. “Fiz o que o mercado da época me pediu”, diz ele, sem arrependimento e com uma ponta de amargura. De acordo com seu raciocínio, numa época em que não existiam facilidades, como crédito imobiliário, só com unidades baratas era possível satisfazer o bolso da classe média baixa.

O senhor fica chateado quando falam do São Vito e do Mercúrio?
Eu me sinto mal. Mas, na verdade, aquilo foi uma imagem distorcida, que ocorreu na época posterior à entrega do edifício. Fizemos o que o mercado nos pedia. Por isso, não me arrependo. Faria exatamente da mesma forma. Além disso, muita gente morou lá.

Eles foram construídos ao mesmo tempo?
Não. Têm histórias diferentes. O Mercúrio foi feito antes, com dinheiro de outras empreitadas. Tanto é que por algum tempo ficou isolado. Era uma torre muito esbelta, atraiu na época até colegas italianos, que vieram conhecer.

E o São Vito?
Veio em seguida. Era um terreno da família Matarazzo, onde havia um poço que fornecia água às indústrias. Fizemos um acordo: eles nos cederam o terreno e, em contrapartida, continuariam retirando água dali. E ficariam com lojas no térreo. O mercado da época era diferente, não existia venda na planta como hoje em dia. O Mercúrio pronto, ao lado, dava credibilidade à nossa empresa, era a garantia de que o São Vito também seria concluído.

A meta era atrair que tipo de clientela?
Eram unidades econômicas, porque o mercado nos pedia isso. Tínhamos o Mercadão ali ao lado e imaginamos que os trabalhadores dali seriam os compradores. E foram. Como tinham recursos mais limitados, construímos unidades econômicas, de um quarto. O empreendimento foi totalmente vendido.

Qual foi a última vez que o senhor esteve neles?
Faz tempo… Durante a construção, sempre estive lá. O prédio foi construído de acordo com a legislação e normas vigentes à época. Depois de prontos, visitei os apartamentos remanescentes, quando tentávamos liquidar. Após isso, nunca mais.

E o apelido de “treme-treme”?
Onde é que nasceu essa história? Será mesmo que foi aqui? Não era bem isso… Se houve a tendência de utilização para fins escusos, de prostituição, eu não sei. São os moradores do prédio que não deram a manutenção devida. Se começam a utilizá-lo para outras funções, a vida dele é prejudicada. A construção do edifício deveria atender de forma digna às necessidades de moradia da classe econômica da época, oferecendo o máximo possível em arrojo arquitetônico, trazendo benefícios aos compradores. Essa é a forma que a minha empresa desenvolve seus produtos. Tanto é que vários dos empreendimentos do grupo valorizaram-se muito, trazendo satisfação e riqueza aos compradores, que se tornaram fiéis à empresa ao longo de sua trajetória que estende aos dias de hoje, ou seja, 60 anos de sucesso.

Na sua opinião, a demolição é a melhor solução?
O grande problema é que não há estacionamentos suficientes no entorno. Se houvesse como solucionar isso, eu diria que a melhor solução seria uma reforma, em vez da demolição. De repente transformar os apartamentos em unidades maiores.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 9 de setembro de 2010