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“Na poesia menos é sempre mais”

Edison Veiga

11 Março 2011 | 06h25

O poeta Frederico Barbosa, que neste fim de semana se apresenta no Itaú Cultural, é o décimo participante da série por escrito.

FOTO: JB NETO/AE

Como você se descobriu poeta?
Ninguém descobre “ser poeta”. Descobre-se o prazer em brincar com a linguagem. Não existe “ser poeta”, como uma entidade… As pessoas se fazem poetas, a partir do momento em que passam a encarar com alguma seriedade a brincadeira com a linguagem. Mas não tanta que destrua o prazer… só o suficiente para estimular a busca de aprimoramento constante.

Por que a poesia?
Porque na poesia menos é sempre mais. O que importa é a densidade, o impacto certeiro, o efeito avassalador. Na poesia é sempre tudo ou nada.

De sua biblioteca pessoal, qual o livro favorito? Por qual motivo?
Livros de poesia. Para ficar só na nossa língua, as Obras Completas de Gregório de Matos, as Obras Completas de João Cabral de Melo Neto, as Obras Completas de Fernando Pessoa, todos os livros de poesia de Augusto de Campos, porque nesses livros sempre encontro um poema que se renova, que ressurge genial. São poetas que se fazem reler.

Onde o poeta encontra refúgio?
Meu refúgio está tanto na arte mais alta, de Beckett, Debussy e Mondrian, quanto no lixo mais podre da civilização. Perco horas na “trash tv”, assistindo aos piores programas possíveis na televisão. Tenho um estranho prazer em ver a que ponto pode chegar o ser humano.

De que lado você fica entre o sentido e a sensação?
Fico com os sentidos. Todos os seis.

De seus versos, quais melhor o definem?
Desexistir

Quando eu desisti
de me matar
já era tarde.

Desexistir
já era um hábito.

Já disparara
a auto-bala:
cobra cega se comendo
como quem cava
a própria vala.

Já me queimara.

Pontes, estradas,
memórias, cartas,
toda saída dinamitada.

Quando eu desisti
não tinha volta.

Passara do ponto,
já não era mais
a hora exata.

Nos próximos dias 12 e 13 você encarna um menestrel concreto pós-pós-moderno e recita poemas do Haroldo de Campos. Como se sente o poeta quando no palco, tão centro das atenções?
Eu faço recitais de poesia há vários anos. Sempre acompanhado de músicos e outros artistas. A intenção sempre foi mostrar que a poesia é gostosa de se ouvir, que um recital pode ser um show de verdade. Minha tentativa sempre foi a de deixar a poesia no centro das atenções, não o poeta e muito menos ainda o declamador. O que importa é a poesia em si. Nos espetáculos de sábado e domingo, teremos três poetas recitando textos do Haroldo de Campos, acompanhados por dois músicos, um VJ e um técnico especialista sem imagens e luz… Todos nós estamos trabalhando para realçar a poesia de Haroldo de Campos. Estou certo de que quem for ao Itaú Cultural dia 12 ou dia 13 terá uma bela revelação por meio da poesia.