Museu do Ipiranga teve papel importante na preservação do acervo do ‘Estadão’
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Museu do Ipiranga teve papel importante na preservação do acervo do ‘Estadão’

Edison Veiga

15 de junho de 2012 | 04h53

Em 1996, um acordo firmado entre o jornal O Estado de S. Paulo e o Museu Paulista – mais conhecido como Museu do Ipiranga – tornava pública uma coleção riquíssima: um exemplar de cada uma das edições publicadas pelo veículo, desde a número 1, de 1875, quando o jornal ainda se chamava A Província de São Paulo.

Após 16 anos servindo a pesquisadores que recorriam à instituição, a coleção se mudará em breve para a nova sede na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Cidade Universitária. A mudança acontece no momento em que todo o conteúdo do jornal estará disponível na internet. Desde o mês passado, todas edições publicadas nesses 137 anos estão no portal Estadão.com.br.

“Os exemplares originais sempre eram acompanhados dos microfilmes para consulta”, comenta a historiadora Solange Ferraz de Lima (foto acima), vice-diretora do museu. Ela acompanhou pessoalmente todas as etapas envolvendo o acervo.

Além dos exemplares de circulação diária, o museu recebeu também as séries completas do Supplemento em Rotogravura, dedicado a temas específicos da vida social, política e econômica brasileira, publicados entre 1928 e 1942. “No Museu Paulista, essas coleções dialogavam com os demais segmentos de nosso acervo, que incluem fotografias, objetos relacionados ao cotidiano e ao espaço doméstico, à vida pública, ao trabalho, atravessando temas variados, como a Revolução de 32, a vida de Santos Dumont, a evolução urbana da capital paulista”, acrescenta.

“Ambas as coleções são fontes de grande importância para a pesquisa histórica. Os jornais são fontes privilegiadas para o ofício do historiador. Especialmente no caso das linhas de pesquisa desenvolvidas no Museu Paulista, um museu universitário de história especializado no campo da cultura material”, diz.

O público pesquisador do museu é formado, em grande parte, por profissionais da área acadêmica. Aspectos da sociedade paulista e paulistana alimentaram muitas pesquisas de mestrandos, doutorandos e alunos de graduação sobre o cotidiano da cidade, a história política do Brasil no Império e na República.

Pesquisadores independentes também fizeram uso desse acervo, com consultas para caracterização de épocas para produção de filmes, e também para livros didáticos.

Estrutura. Entretanto, uma coleção desse porte também trouxe consigo alguns problemas. O Museu Paulista funciona em um edifício centenário, cuja construção foi concluída em 1890, e que não foi projetado para ser museu – as reservas técnicas ficam em áreas adaptadas.

“As condições do edifício, com pé direito muito alto, não permitem a criação de áreas inteiramente climatizadas”, comenta a vice-diretora. “Como não podemos sobrecarregar os pavimentos superiores, essas coleções necessitavam ficar no subsolo do museu.”

Mas os acervos da instituição continuaram crescendo, e muito. “Começamos a ter, e ainda temos, sérios problemas para a acomodação do acervo. Existem projetos em curso nesse sentido, desde a adaptação do subsolo até um bloco técnico exclusivo para as reservas.”

Por causa disso, as coleções de jornais foram transferidas inicialmente para uma casa no Parque Cientec, espaço da USP na zona sul da capital, e, posteriormente, para outra casa alugada perto do museu. “Mas em nenhuma delas havia condições necessárias para abrigar um acervo de tal importância. Por essa razão, e com muito pesar, decidimos que para o bem da conservação desse acervo teríamos que abrir mão da tarefa de abrigá-lo.”

A melhor solução era que essas coleções continuassem na USP, senão no edifício do Museu Paulista, em outro espaço, mais adequado.

“É com prazer que vimos isso acontecer. As coleções que abrigamos por tanto tempo e com muito esforço continuarão na universidade, alimentando a produção de conhecimento, e em melhores condições, em um edifício especialmente construído para abrigar esses acervos.”

Higienização. Guardados provisoriamente num depósito climatizado até a transferência para a Brasiliana, os jornais foram higienizados página a página. “Conservação de jornais não é uma tarefa fácil”, explica a professora. “O papel ácido e as encadernações de couro ou material sintético resultam em um terreno propício para a proliferação de fungos.”

A logística era quase um ritual: os volumes ficavam na quarentena, dali saíam para limpeza com aspirador e trincha, remoção de dejetos e higienização interna folha por folha, com escova e aeração (folhear delicadamente o volume). Depois eram armazenados, enquanto outro lote ficava na quarentena.

(Este foi o tema de minha coluna veiculada em 23 de maio pela rádio Estadão ESPN)

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