Mosteiro de São Bento revela obras raras de biblioteca
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Mosteiro de São Bento revela obras raras de biblioteca

Títulos publicados entre os séculos 15 e 18 foram encontrados no mais antigo acervo da capital; obras estarão acessíveis ao público

Edison Veiga

28 Setembro 2014 | 00h01

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

Nos 416 anos de história, são poucos os que tiveram o privilégio de circular entre os livros da biblioteca do Mosteiro de São Bento, a mais antiga em funcionamento da cidade de São Paulo. Menos ainda são os que manusearam os livros mais raros do acervo de 105 mil obras: 581 títulos publicados entre os séculos 15 e 18. Entre eles estão seis incunábulos, livros rudimentares dos primórdios da imprensa, que mesclam o manuscrito com os tipos móveis.
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Este tesouro encravado no coração da cidade, protegido pela clausura dos monges beneditinos, começa a se tornar mais acessível ao público em geral. Há três meses, o software usado na indexação desses livros foi substituído por um mais moderno. Assim, a partir do primeiro semestre do ano que vem, qualquer um poderá saber, entre mais de 20 mil livros já catalogados no software, quais constam na base.

“Isso vai simplificar nosso processo, já que aquele que precisar consultar um livro de nosso acervo já entrará em contato conosco sabendo que ele existe aqui”, explica o bibliotecário Marcelo Delvalle, que trabalha ali há dois anos. Qualquer pesquisa na biblioteca é autorizada apenas mediante agendamento prévio. Atualmente, a própria equipe é responsável por checar se a obra desejada existe ou não no acervo. O pesquisador não tem acesso ao interior da biblioteca; recebe e consulta o livro em uma sala anexa. Hoje, trabalham ali cinco pessoas: Delvalle, um auxiliar e um monitor, além de dois religiosos.

Catalogação. “Não existe mosteiro beneditino sem biblioteca”, diz o monge-bibliotecário João Baptista. Isso porque a leitura, mais do que uma paixão, é obrigação e oração para os religiosos da Ordem de São Bento, medieval organização fundada pelo santo católico que viveu entre os anos 480 e 550. As normas da vida monástica foram sistematizadas em um livro de 73 capítulos, conhecido como Regra de São Bento, cuja autoria é atribuída ao santo.

Tal regimento é observado por cada um dos 37 monges que vivem no claustro do Largo de São Bento. O que significa que, desde que os primeiros beneditinos chegaram a São Paulo, em 1598, o silêncio da madrugada da abadia é rompido pontualmente às 5h05, quando um deles badala o sino que desperta os companheiros. Vinte e cinco minutos depois, todos ficam a postos no altar da Basílica de Nossa Senhora da Assunção, a igreja contígua ao mosteiro. Ali, entoam o Ofício Divino, primeira das cinco orações do gênero celebradas diariamente.

Mas a chave da biblioteca está no capítulo 48 da Regra. Ele recomenda que os monges se entreguem diariamente ao trabalho e livros. Isso fez com que, historicamente, todo mosteiro nascesse com uma coleção de obras. “Não é exagero dizer que nós, monges, somos responsáveis por preservar boa parte da cultura ocidental durante a Idade Média”, diz Baptista.

Entre os beneditinos, o hábito de ler é cultivado até durante as refeições: enquanto os outros, em silêncio absoluto, comem, um monge recita textos sagrados e trechos de livros de Filosofia, História, Sociologia. “Em geral, no almoço, a leitura é sobre temas gerais; no jantar, privilegiamos algo espiritual”, explica o monge. “Isso tem um significado: nas refeições, nos preocupamos com o alimento para o corpo e para a alma.”

Mas é claro que a coleção beneditina começou de modo muito precário na São Paulo do fim do século 16. “Deviam ser poucos os livros”, diz o monge. Os primeiros registros da biblioteca são de 1750, quando aquisições começam a aparecer em atas dos capítulos – nome dado às reuniões internas dos monges. Eram obras vindas da Europa, principalmente do antigo (hoje desativado) Mosteiro de São Martinho de Tibães, em Braga, Portugal. Na época, entre os beneditinos estava Frei Gaspar da Madre de Deus, considerado um dos primeiros historiadores de São Paulo. Uma imagem dele (abaixo), sentado à frente do abade e tendo ao fundo uma estante de livros, está na biblioteca.

Foto: Reprodução

Esforço. E a catalogação dos livros seguiu sendo feita assim, à mão. O que faz com que a pesquisa seja mais lenta, fichinha por fichinha. Dificulta até mesmo saber a quantidade exata de obras do acervo. “Este número é uma estimativa, muito próxima da realidade”, diz Delvalle, sobre os 105 mil volumes.

Em 2002, esse processo começou a ser modernizado. Aos poucos, os funcionários e religiosos que se dedicam ao trabalho na biblioteca começaram a catalogar eletronicamente os livros. Em média, cadastram 2 mil títulos por ano. “Não é nosso trabalho exclusivo, por isso, o ritmo é esse”, diz o bibliotecário. As novas aquisições – cerca de 60 por mês – já entram na base de dados nova. Aos poucos, os títulos antigos também são incorporados ao sistema. Mais de 20 mil livros já estão catalogados no software. Nessa velocidade, o trabalho não será concluído em menos de quatro décadas.

Sem pressa. Tempo não é problema para a organização que existe há 1.500 anos – e há mais de 400 em São Paulo. Enquanto isso, o monge tem outras preocupações, como a falta de espaço. A parte mais antiga da biblioteca, com belas estantes de madeira, nos anos 1960 ganhou o anexo de uma ala antes usada como dormitório do Colégio de São Bento. Aos poucos, o espaço também está ficando pequeno. “Já estamos prevendo a construção de um mezanino na ala nova”, adianta o religioso.

Para o papa ler. Quando esteve na cidade, em maio de 2007, o papa Bento 16 hospedou-se no Mosteiro de São Bento e teve, à disposição em seu quarto, 30 títulos selecionados da biblioteca da instituição. O acervo foi pensado como uma miscelânea de obras religiosas, culturais, artísticas, literárias e históricas. A maioria procurava mostrar ao líder católico um pouco do panorama brasileiro.
Bento 16 pôde ler, por exemplo, os sermões completos de Padre Antônio Vieira em alemão. Ou se divertir com a prosa de Machado de Assis, com Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas ele não chegou a entrar na biblioteca.

Obras raras. Os 581 títulos publicados entre os séculos 15 e 18 são tratados com carinho especial pelos monges. Ficam acondicionados em sala fechada, climatizada, e o manuseio só é feito com luvas. Para não serem danificadas, essas obras nem recebem etiquetas de catalogação – as informações são colocadas em tirinhas de papel, dispostas entre a capa e a primeira página. Um desses livros é a edição de 1676 da Steganographia, do monge Johannis Trithemius, que aparecia no índex de leituras proibidas pela Igreja Católica. O mais antigo do acervo, um incunábulo de 1496 traz o Novo Testamento em quatro volumes. Há ainda um exemplar romeno de 1500 com a coleção de sermões de Pelbarti de Themefwar.

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

Como o público nunca tem acesso interno às relíquias, João Baptista decidiu levar parte da coleção para o corredor do mosteiro, aberto ao público. Ficam expostas ali, até o dia 5, com entrada grátis, Bíblias do acervo – que tem mais de 500. “É a primeira vez que organizamos uma exposição só com itens de nossa biblioteca”, diz o monge. “Na mostra, é possível conhecer traduções diferentes da Bíblia, como em guarani, árabe, chinês e lituano. Também será possível apreciar um exemplar raro em fac-símile do Códex Vaticanus, um dos mais antigos exemplares existentes da Bíblia. Esta cópia foi produzida e presenteada aos bispos do Concílio Vaticano 2.º.”

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

MOSTEIRO DE SÃO BENTO: EXPOSIÇÃO DE BÍBLIAS. SEGUNDA A SEXTA-FEIRA, DAS 8 ÀS 17 HORAS. SÁBADO DAS 8 ÀS 12 HORAS. LARGO DE SÃO BENTO, S/N, CENTRO, SÃO PAULO.