Pesquisadores encontram ruína de moinho colonial
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Pesquisadores encontram ruína de moinho colonial

O material que pode ser do século 17 está em área que pertence à Prefeitura de Santana do Parnaíba e será analisado pelo Iphan

Edison Veiga

13 de junho de 2014 | 22h03

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foi em uma sala de aula que o arquiteto Victor Hugo Mori, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), se deparou com um achado que pode acrescentar muito à história do Estado de São Paulo. Ele dava aula no curso de zeladoria do patrimônio, promovido pelo Estúdio Sarasá em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, no fim do ano passado. Então um dos alunos contou a história de uma construção antiga, no meio do mato, coisa de uns 7 km do centro da cidade, no Sítio do Morro.

“Ele falou que, para ele, aquilo era patrimônio histórico. Mas achava que era uma antiga prisão de escravos ou coisa assim”, recorda-se Mori. No dia seguinte, o arquiteto e um grupo de alunos foram ao local. Encontraram muito mais do que ruínas de uma antiga casa de detenção. Encontraram o que pode ser um raro vestígio de moinho de trigo do período bandeirista, colonial. Século 17. “Há registros documentais que os bandeirantes produziam, com autorização do capitão-donatário, farinha de trigo. Que não era consumida por aqui, ao contrário da de mandioca e de milho, mas sim vendida, exportada. Era uma fonte de renda a mais para quem vivia de aprisionar e vender índios como escravos.”

O curioso achado rendeu idas e vindas de técnicos do Iphan. Mori recorreu a alguns especialistas. Um deles foi o historiador Francisco Dias de Andrade, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estudioso justamente da produção de trigo no passado brasileiro. “Embora os bandeirantes sejam os responsáveis pelo que se chamou de ‘ciclo de caça aos índios’, hoje sabemos que os chefes paulistas dos séculos 16 e 17 tinham outros interesses na escravização dos índios”, pontua o pesquisador, em relatório enviado ao Iphan. Ele contextualiza a questão: muitos índios eram utilizados como mão de obra nas grandes fazendas, e algumas delas cultivavam trigo. “Em nenhum lugar a produção de trigo foi tão grande e tão importante como em Santana do Parnaíba”, afirma Andrade. “As maiores propriedades parnaibanas tinham mais de 400 escravos e se estendiam por toda a região ao longo do Rio Tietê.”

O historiador lembra que, embora moinhos hidráulicos tenham sido comuns na região, as ruínas do Sítio do Morro são a prova da “existência de um tipo de moagem mais antiga e mais sofisticada”. “Essas ruínas impressionam pelo tamanho e função: reduzir a farinha o trigo aqui produzido”, analisa o historiador. “Ele desperta a atenção também por ter sido todo construído com alvenaria de pedra e argamassa de barro, técnica rara em toda região de serra.”

Planos. O moinho está em área que pertence à Prefeitura de Santana do Parnaíba. Uma equipe do Iphan já esteve reunida com a Secretaria de Cultura do município. A ideia do instituto é acompanhar toda a análise que deve ser feita do material encontrado. E que todo o processo seja feito de maneira aberta, numa espécie de “sítio-escola”, em que estudantes poderão acompanhar as pesquisas. Tudo indica que esse pedaço da história paulista está prestes a ser comprovado – e com muitas testemunhas.

ANÁLISE
Documento datado de 1681 cita a existência de moinho

Francisco Dias de Andrade, historiador

O moinho descoberto em Santana do Parnaíba parece ter sido construído por Antonio Furtado de Vasconcellos, que foi casado com Benta Dias, filha de Suzana Dias e irmã de André Fernandes, fundadores de Santana. Pois já aparece citado no inventário post-mortem de Vasconcellos, aberto em 1628. É só um palpite, mas acredito que deve ter sido construído entre 1620-25. Este Vasconcellos foi um dos primeiros grandes produtores de trigo (fato para o qual já chamava atenção o prof. John Monteiro), e seu moinho aparenta ter sido o mais importante da vila, mesmo depois da sua morte.

Em 1658, foi comprado de Baltazar Fernandes por Paulo Proença de Abreu. O curioso é que Abreu era cunhado de Fernandes, pois havia casado com Benta Dias após a morte de Vasconcellos, em 1628. Mas como ele teve um filho de mesmo nome, não conseguimos descobrir qual deles comprou o moinho em 1658. O importante é que existe um documento de 1681 que descreve a demarcação das terras públicas da vila de Parnaíba onde um dos pontos de referência citados é “a barra [do ribeiro] do moinho que foi do capitão Paulo Proença de Abreu”. O texto dá a entender que o moinho já se encontrava parado ou com uma produção muito pequena de farinha.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 14 de junho de 2014

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