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“Meu refúgio são os poetas”

Edison Veiga

24 Dezembro 2010 | 08h23

O premiado escritor Paulo Rodrigues é o oitavo participante da série por escrito.

FOTO: ERNESTO RODRIGUES/AE

Você é um escritor que se descobriu da melhor forma possível: ganhando uma biblioteca. Como foi essa história?
Em verdade, quem ganhou a biblioteca foi minha madrinha. Ela foi babá numa família rica que decidiu um dia renovar a biblioteca da casa. Então ela herdou esses livros e os acomodou nas prateleiras de um barracão no fundo do quintal. Nas férias escolares, eu passava boa parte do dia naquele barracão, lendo tudo que caía nas mãos. Li coisas próprias para a idade, como As Aventuras de Tom Sawyer, do Mark Twain, e outras nem tanto, como Boêmios Errantes, do Steinbeck.

De que maneira seus livros nascem?
Muitas coisas que escrevo vêm da memória, sobretudo dos meus tempos de suburbano. Naquele tempo eu era um garoto muito simples que convivia com uma gente, também muito simples, que tinha um jeito muito próprio de encarar a vida. Não faziam parte da metrópole, tampouco eram interioranos. Seu linguajar, seus costumes, sua religiosidade, sua ética era, por assim dizer, quase que uma mescla dos dois lados. Era um universo pouco conhecido hoje em dia, mas muito fértil para quem prestasse a devida atenção. Enfim, meus escritos partem da observação do meio e das pessoas com quem convivo.

Do prêmio APCA em 2001 à final do São Paulo de Literatura em 2010, de que forma os certames literários o entusiasmam?
Já percebi colegas se decepcionando por não terem vencido este ou aquele prêmio. Eu, a princípio, escrevo para me satisfazer. Nunca penso sequer em publicar, muito menos em ganhar concursos literários. Talvez por não ser um intelectual, por ter vindo de uma camada muito simples da sociedade, ver meu nome na lombada de um livro impresso era o longe que eu sonhava. Tudo que vem além disso é acréscimo, é superação dos limites da minha própria ambição.

Como a literatura está presente em seu cotidiano?
Sou muito mais um leitor que um escritor. A leitura é o meu vício. Não frequento os meios literários, não faço parte de grupos, nem sou convidado para nada. Não falo isso com mágoa, ao contrário. Gosto de ficar no meu canto, longe do burburinho. É muito bom poder andar anonimamente pelas ruas.

O que gosta de ler?
Leio um pouco de tudo, leio sempre que posso, em qualquer lugar, desde que haja condição para me abstrair. Até um certo tempo, eu só lia e relia os clássicos. Agora tenho procurado me atualizar, conhecer os contemporâneos. Me surpreendi positivamente, tem muita gente boa por aí. Alguns já reconhecidos, outros buscando seu espaço. Isso é muito bom.

Qual seu refúgio favorito? Por qual motivo?
Meu refúgio são os poetas. Quando estou me sentindo abandonado pelas palavras, busco nesses artesãos a possibilidade de um veio. Não faço uma leitura interpretativa, nem tenho capacidade para isso. Me deixo apenas levar, e de repente a vertente aparece.

Há vida após o ponto final de cada livro?
Um artesão da praça (personagem de um livro inédito) pergunta certa vez ao poeta: o que é uma história senão um recorte de outra maior e mais importante?