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Meu Dia Mundial Sem Carro

Edison Veiga

23 Setembro 2010 | 08h33

Pelo menos não estava chovendo. Contados, da hora em que apertei o botão do elevador até a chegada ao ponto de ônibus, 778 passos, 15 minutos. Da Rua Fernão Dias à Teodoro Sampaio, em Pinheiros. Normalmente, caminho 52 passos da porta do apartamento ao carro estacionado na garagem do prédio.

Eu ainda olhava a plaquetinha suja afixada ali, com os itinerários que cruzavam o local – como há opções para a Barra Funda, meu Deus! – quando o busão azul 117Y – Cohab Antártica chegou. Oba, é nesse que eu vou.

Ótimo, quase vazio. Apenas nove passageiros, o motorista e a cobradora. Na catraca, uma dupla surpresa: meu velho bilhete único, sem uso desde que comprei um carro, há quase dois anos, ainda tem créditos; e a cobrança, portanto, é pela tarifa antiga (R$ 2,30 em vez dos atuais R$ 2,70).

Sentei na janelinha. Dali vi uma moça de nariz adunco lendo, concentradíssima, a edição do Jornal do Ônibus colado no vidro. O texto falava sobre o Dia Mundial Sem Carro, com a chocante informação de que um ônibus transporta o equivalente a 50 carros. OK, este não era o caso daquele 117Y, que trazia apenas doze pessoas, contando comigo, contando com motorista, contando com cobradora. Fato é que o nariz da moça apontava de um jeito tão poético e alinhado o cartaz colado no vidro que este foi o único momento em que me arrependi profundamente de não ter carregado minha câmera fotográfica.

Durante o trajeto – Teodoro Sampaio, Henrique Schaumann, Sumaré, Barra Funda – as pessoas todas ficavam presas a seu autismo musical. Cada qual com seus fones de ouvido. Nenhum diálogo. Nenhum sorriso. Nenhum olhar. Eu não tenho walkman, nem discman, nem tocador de MP3. De modo que anteontem, em meu carro, fiz o percurso até o trabalho ouvindo um CD do Chico Buarque. Mas ontem, no ônibus, aproveitei o tempo para ler um livro do Drummond. Tudo bem, Drummond é bom.

Às 10h05, quando já fazia 25 minutos que havia saído de casa – tempo suficiente para, de carro, chegar até o jornal – eu estava no meio da Sumaré. Nem tinha avistado ainda o Palestra Itália, sede do meu time de coração, com aquela placa onde se lê “Campeoníssimo”. O relógio marcava 10h20 quando o ônibus parou no Terminal Barra Funda.

Caminhei 73 passos até avistar, já paradinho ali, o verde 9191 – Jd. Eliza Maria. A sorte estava ao meu lado, pensei, feliz por não perder tempo esperando ônibus em nenhum dos dois pontos do dia.

Dentro do veículo, 14 passageiros, o motorista, o cobrador e o mesmo cartaz do Jornal do Ônibus divulgando o glorioso Dia Mundial Sem Carro. Às 10h25, o motorista pisou no acelerador para o itinerário que passaria pela Rua Quirino do Santos e pelas avenidas Marquês de São Vicente e Ordem e Progresso, cruzaria a Ponte do Limão, pegaria um pequeno trecho da Marginal do Tietê e, por fim, chegaria à Avenida Professor Celestino Bourroul, onde fica uma das entradas do Estadão.

Na esquina da Quirino dos Santos com a Marquês de São Vicente, um estridente celular tocou. Para minha surpresa, era do motorista. Para minha surpresa maior, ele atendeu.

A ligação durou pouco. Menos de um minuto. Sua atenção voltou-se, então, exclusivamente ao trânsito, ao trajeto. Eu estava na janelinha, de novo.

Às 10h30, 45 minutos depois de sair de casa, desci na Celestino Bourroul. Em frente ao bar de nosso amigo Johnny – cujo nome oficial, conforme atestam o sem-número de comprovantes do meu cartão de débito é “Bar Amigos do Jhonnys”, assim com H entre o J e o O e um S no fim. De lá até a catraca do jornal, mais 112 passos.

Saldo do dia, portanto: 45 minutos, distribuídos entre dois ônibus e 963 passos. Missão cumprida.