O acervo de um crítico
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O acervo de um crítico

Cartas, ilustrações, fotos e textos preciosos de Delmiro Gonçalves estão em processo de doação para a Pinacoteca

Edison Veiga

22 Fevereiro 2016 | 00h01

Foto: Marcio Fernandes/ Estadão

Foto: Marcio Fernandes/ Estadão


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“O fácil o fóssil/ o míssil o físsil/ a arte o infarte”… Com a inconfundível caligrafia, é Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), o poeta, quem preencheu e assina as páginas a caneta endereçadas ao jornalista, cronista, crítico de arte e dramaturgo Delmiro Gonçalves (1916-1975). O manuscrito soma-se a centenas de cartas, ilustrações, fotografias e textos – próprios ou de terceiros – que Gonçalves legou e, hoje, recuperados por sua sobrinha-neta, estão em processo de doação à Pinacoteca do Estado.

Foto: Marcio Fernandes/ Estadão

Foto: Marcio Fernandes/ Estadão

Fernanda Furmankiewicz, 43 anos, é nutricionista e encontrou as preciosidades na casa do pai, o engenheiro Hélio Furmankiewicz, de 75 anos. “Sempre ouvi histórias de meu tio-avô e consideramos que repassar o material para uma instituição é a melhor maneira de preservá-lo”, afirma ela.

As cartas e o manuscrito de Drummond são o que mais salta aos olhos de quem primeiro se depara com o acervo. O poeta alterna textos datilografados com manuscritos, por vezes assina simplesmente Carlos, noutras somente Drummond, às vezes o completo Carlos Drummond de Andrade. O conteúdo parece estritamente profissional – falam sobre crítica literária e chegam a combinar um texto que o Suplemento Literário do Estado, onde Gonçalves trabalhava, publicaria em homenagem a Manuel Bandeira (1886-1968). Mas o tom é de proximidade, como quando o poeta se dirige ao jornalista tratando-o por “meu caro e bom Delmiro Gonçalves” e dizendo-se “seu grato devedor”.

Foto: Marcio Fernandes/ Estadão

Foto: Marcio Fernandes/ Estadão

Na coleção há também desenhos, a caneta, assinados por Jaguar, uma carta (datilografada) de Rubem Braga (1913-1990), fotografias de diversas personalidades artísticas e correspondências de Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977), entre outros nomes. “Ele era um interlocutor da intelligentsia de sua época”, comenta Fernanda.

Foto: Marcio Fernandes/ Estadão

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Nascido em São Paulo, Gonçalves cursou Direito no Largo de São Francisco – mas não exerceu a carreira jurídica. Enveredou-se pela dramaturgia teatral e pelo jornalismo. Trabalhou em O Tempo, na Folha da Manhã e, de 1954 até a morte, em 1975, no Estado. Neste, foi um dos editores do Suplemento Literário, crítico de arte, redator e cronista do Suplemento Feminino.

Em 1965 publicou seu único livro, uma antologia de crônicas batizada de O Bicho da Lua – um exemplar também será doado. Gonçalves foi secretário do Museu de Arte Moderna, colaborador das bienais de São Paulo e, entre 1967 e 1970, dirigiu a Pinacoteca. Aliás, daí a escolha da família em repassar o acervo à instituição.

Foto: Marcio Fernandes/ Estadão

Foto: Marcio Fernandes/ Estadão

“O conjunto documental possui, em grande parte, itens relacionados à atuação de Delmiro Gonçalves na área teatral, incluindo porém, documentos produzidos no período em que atuou como diretor da Pinacoteca do Estado, sendo portanto, de extrema relevância para a memória institucional”, afirma a coordenadora da Biblioteca Walter Wey e Centro de Documentação e Memória da Pinacoteca, Isabel Maringelli. Uma vez integrado ao acervo, o material será “processado e disponibilizado para consulta e pesquisa”.

Crônicas. Uma cuidadosa pasta contém, uma a uma, as colunas publicadas por Gonçalves no Suplemento Feminino (confira algumas no Acervo Estadão). Rendiam a ele – “solteirão impenitente”, como foi classificado em seu obituário publicado pelo Estado – muitas cartas de leitoras, também arquivadas. “Não o conheço, mas gostaria de saber como é o rosto de um homem que escreve cousas tão sinceras, tão seguras”, escreveu uma delas, Maria Tereza, em 23 de dezembro de 1966.

Mas a crônica que mais repercutiu entre seu público, a julgar pela quantidade de cartas – algumas desaforadas, outras corroborativas – foi quando se meteu a criticar o Monumento a Borba Gato, inaugurado em Santo Amaro em 1962. “É um trambolho que, apesar de ser amado por alguns, não deixa de ser um atentado à estética”, publicou Gonçalves. “Realmente aquele amontoado de pastilhas é um monstrengo. Aqui em casa recomendamos uma visita ao dito quando alguém tiver soluço insistente”, comentou a ele a leitora Dona Helga.

Foto: Marcio Fernandes/ Estadão

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