‘O universo que o Mauricio criou está úmido de filosofia’, diz Cortella
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‘O universo que o Mauricio criou está úmido de filosofia’, diz Cortella

Mauricio de Sousa e Cortella lançam livro infantojuvenil com 35 reflexões contemporâneas

Edison Veiga

25 Setembro 2017 | 05h01

Foto: Werther Santana/ Estadão

Pessoalmente, eles só se conheceram há um ano. E a amizade virou livro. O filósofo Mario Sergio Cortella, de 63 anos, preparou as reflexões; o quadrinista Mauricio de Sousa, 81, encarregou-se de dar vida a elas por meio de sua famosa turminha de personagens. ‘Vamos pensar um pouco?’ acaba de sair pela Cortez Editora, com preço sugerido de R$ 29,90.

Na semana passada, pouco antes de evento realizado no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o Tuca, a dupla bateu um papo com o blog.

Filosofia e desenho em um só livro… Como surgiu a ideia da parceria?

Cortella: No ano passado, na Bienal do Livro de São Paulo, Mauricio e eu nos encontramos na sala dos escritores, nos abraçamos e conversamos um pouco. Nunca antes tínhamos conversado. Demos uma entrevista no mesmo espaço, sobre temas diferentes. Aí, como eu admiro o Mauricio, leio desde que a primeira tirinha do Bidu foi publicada, tivemos a ideia do livro. Ele entraria com a arte, com os desenhos; e eu entraria com os textos. A editora Cortez assumiu o projeto e, um ano depois, cá estamos com o livro publicado.

Como foi o processo de vocês? O pontapé inicial era das ilustrações ou dos textos?

Mauricio: Eu recebi os textos, aí o material foi para o estúdio e a gente produziu as ilustrações.

Cortella: O Mauricio recebeu 60 reflexões – que são para crianças mas não são infantis. Das 60, a equipe dele devolveu 35 ilustrações. Dá para compreender a ilustração sem o texto e o texto sem a ilustração, mas não tem graça.

Mauricio: Percebeu? Tem mais um livro aí, tem outro livro escondido… Se vender bem, vamos correr buscar as outras (reflexões) na estante…

Cortella: Sim, os 35 selecionados são a primeira parte. Mas a Turma da Mônica é grande e vamos ter outras.

Temas filosóficos aparecem constantemente no universo dos quadrinhos de Mauricio de Sousa. Como foi trazer, em livro, esses assuntos?

Cortella: Foi tranquilo, porque é um universo onde todo o território que o Mauricio criou em décadas de trabalho está eivado, está manchado, está úmido de filosofia. Em seus quadrinhos, é impressionante o número de coisas que existem em termos de reflexão e de debate. São indagações a respeito da convivência, há a ideia do mundo rural… Não falo só como leitor, mas como admirador. Observo o que ele fez e faz nesse sentido. Isso significa que a transição entre os dois territórios (a ilustração e o texto) foi simples. Ademais, como sou caipira de Londrina e me identifico mais com o Chico Bento, vou usar uma frase: o caipira diz que ‘é junto dos bão que cê fica mió’. Então, é óbvio que foi incrível trazer reflexão filosófica a partir de um universo muito instigante que são as histórias do Mauricio, que mexem com a gente, emocionam. É delicioso trabalhar com alguém que sabe desenhar. Fico encantando porque eu não sei, só sei fazer magia com palavras.

Mauricio: Logicamente que talvez a criança pequena não compreenda tudo o que está nas letrinhas do livro. Mas é uma excelente oportunidade de o pai e a mãe lerem e assimilarem o conteúdo – e, depois, passarem para seus filhos um pouco da filosofia do Cortella.

Cortella: O livro é uma recusa à ideia do ‘vamos pensar pouco’. Por isso o ‘um pouco’, para dar a dimensão de algo que se eleva. Não por acaso, a frase está no plural: significa pensar em turma, daí a acolhida. E é a negativa da ideia de que crianças e jovens são menos reflexivos; ao contrário, as melhores indagações vêm deste universo.

Foto: Werther Santana/ Estadão

E quais os principais cuidados ao lidar com tal público?

Cortella: Admiro a possibilidade de mexer um pouco com aquilo que pode produzir nas pessoas um incômodo positivo, aquilo que as faz pensar. O importante é que não dá para supor as crianças como sendo ignorantes. A criança conhece muito do mundo que ela conhece muito. Então trabalhamos com reflexões sem que haja um desprezo à capacidade delas, esta é a forma mais inteligente. O Mauricio nunca desprezou o universo infantojuvenil. Ao ler seus quadrinhos, a criança se sente acolhida por uma inteligência que a trata como pensante. O universo do Mauricio de Sousa fala com elas, fala para elas, fala delas; mas nunca as substitui.

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