Mauricio de Sousa, 80; Rio de Janeiro, 450
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Mauricio de Sousa, 80; Rio de Janeiro, 450

Com exclusividade, a íntegra do discurso feito pelo quadrinista mais famoso do Brasil em evento no Rio

Edison Veiga

26 Fevereiro 2015 | 16h30

Foto: Valentino Mello

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No ano em que completa oito décadas de vida – ele nasceu em 27 de outubro de 1935 -, o quadrinista e empresário Mauricio de Sousa deve receber muitas homenagens. Na última terça, 24, ele participou da abertura do RioContentMarket, maior evento de produção de conteúdo audiovisual da América Latina – e os estúdios da Mauricio de Sousa Produções divulgaram uma animação inédita em comemoração ao duplo aniversário: os 80 anos do Mauricio e os 450 do Rio, no próximo domingo, 1º. Assista:

“Estar no Rio de Janeiro é sempre uma festa. Ainda mais sendo homenageado dentro das comemorações dos 450 anos dessa linda cidade do nosso país”, afirmou Mauricio, ao Estado. “Mas também é uma honra e um orgulho. Aumenta nossa responsabilidade em continuar a aperfeiçoar cada vez mais nosso trabalho educativo e de entretenimento que vem sendo desenvolvido há 55 anos.”

Para marcar essa homenagem do RioContentMarket a Mauricio de Sousa, até 6 de março 200 táxis que circulam pela barra da Tijuca estampam imagens do projeto Mônica Toy, série com design minimalista e foco no público jovem.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Criador da mais longeva e bem-sucedida turma de personagens do Brasil, a Turma da Mônica, Mauricio recordou o início de sua carreira, com uma tirinha estrelada por Bidu e Franjinha, publicada em 18 de julho de 1959 na então Folha da Manhã – hoje Folha de S. Paulo.

Quadrinhos de Mauricio de Sousa estão em 30 países

Atualmente, sua empresa responde por 86% das vendas de revistas em quadrinhos no Brasil. Nesses mais de 50 anos de existência, os personagens de Mauricio conquistaram gerações de fãs e ultrapassaram fronteiras, estando presentes em mais de 30 países e em múltiplas plataformas (gibis, livros, TV, cinema, serviços on-demand de vídeo, redes sociais, games e aplicativos, exposições e espetáculos live-action).

Confira, na íntegra, o discurso feito por Mauricio de Sousa no evento da última terça-feira:

“Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à ABPITV e à Esmeralda Produções pelo convite para abrir o RioContentMarket, um dos maiores eventos do mundo dedicado ao conteúdo audiovisual, aberto à indústria de televisão e às mídias digitais. Muito me honra estar na Cidade Maravilhosa, no cartão de visita do Brasil para o mundo

A cidade do Rio faz parte da história dos quadrinhos. Foi na revista ‘Vida Fluminense’, em 30 de janeiro de 1869, que foi publicada a primeira HQ nacional: ‘As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte’, de autoria do desenhista de origem italiana Angelo Agostini (1843-1910). A história mostra um caipira que se muda para a capital do Império. De certa maneira, também sou um ‘caipira’, que veio do interior de São Paulo e foi tentar a vida na cidade grande. Não tinha nem 20 anos quando juntei vários desenhos meus e me mandei para a redação da ‘Folha da Manhã’, em São Paulo. O que ouvi do chefe do departamento de arte é que devia desistir, pois desenho não dava dinheiro, não dava futuro. Que eu deveria fazer outra coisa na vida.

“Não desisti para não decepcionar meus pais”

Mas eu não desisti com aquele primeiro ‘não’, porque não podia decepcionar meus pais, meus amigos e meus heróis dos quadrinhos, que me ensinaram a ler. Engoli a decepção e voltei para casa disposto a aperfeiçoar meus traços. Assim, depois de algum tempo, voltei ao jornal mas desta vez mostrei minha primeira tira para os chefes de redação. Era essa ilustração que aparece na animação que vocês acabaram de ver. Foi publicada no dia 18 de julho de 1959. Pra mim, além de ser a realização de um sonho, essa primeira tira tem outros significados. É um símbolo de liberdade de expressão: poder pegar uma caixa, subir nela e começar a discursar sobre o que bem entender, para quem quiser ouvir.

Na tirinha, é o menino Franjinha que está lá, esperando o fim do discurso para tirar o Bidu de dentro da caixa. Na época, não se usava a expressão ‘pensar fora da caixa’, mas acho que é isso que os personagens, as animações, os games e todo esse universo de fantasia fazem por nós. Outro dia, tive acesso aos resultados da pesquisa Papagaio, Pipa, Quadrado, Califa, realizada pela empresa MultiFocus Inteligência de Mercado com 1.800 crianças de todo o Brasil, que me deixaram muito feliz. As mais curiosas e interessadas foram batizadas de ‘crianças fora da caixa’. Entre as características dessas crianças, uma me chamou muito a atenção: além de assistirem a mais vídeos na internet, esses meninos e meninas eram os que mais gostavam de estudar e… os que mais liam quadrinhos!

Na primeira metade do século passado, educadores lutavam contra as HQs por considerá-las perniciosas. Elas tirariam o foco dos estudos e dos livros e deviam ser proibidas. Hoje, vemos algo parecido acontecer com a tecnologia, a TV, os personagens. Tudo novo pode chocar, mas, se puder ser berço de mensagens, diversão, entretenimento, cultura, irá se inserir nos nossos hábitos e costumes. E por este caminho, novas produções brasileiras crescem e ganham o mundo, com incentivo da Ancine (Agência Nacional de Cinema) e da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), de associações que lutam pela classe e por todos os canais que apostam nas produções brasileiras. Entretanto existem correntes que veem nos personagens, como aqueles educadores antigos, uma má companhia. Tenho de discordar. Em minha experiência, tenho visto os personagens divertirem, educarem e, sobretudo, inspirarem crianças no mundo todo.

Personagens divertem, educam e inspiram crianças

Uma menina que vê a Mônica se impor sobre os garotos pode perceber que as mulheres têm força, aqui ou em países onde elas ainda buscam seu espaço. Um menino que troca as letras, em vez de ficar tímido, pode mostrar que é inteligente e fazer seus planos infalíveis. Um ‘capiau’, como o nosso Chico Bento, pode compreender que sua cultura tem muito valor. O Chico, hoje, é nosso embaixador das nascentes do Pantanal, numa parceria com o WWF (World Wide Fund) que muito nos orgulha. A Turminha recentemente perdeu os cabelos numa importante campanha do Graacc (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer) para mostrar que crianças com câncer são como qualquer outra: querem e merecem brincar. Luca, inspirado nos atletas paralímpicos que vão mostrar aqui no Rio, em 2016, mais uma vez sua capacidade de superação, é a prova de que as crianças deficientes têm de ser incluídas para que todos ganhem.

Então, eu queria convidar todos aqueles que produzem conteúdo de qualidade para as crianças a continuarem pensando fora da caixa. A continuarem criando, inovando, encantando as crianças do Rio, do Brasil e do mundo. E motivando essas crianças a não desistirem de seus sonhos.

Se eu tivesse desanimado diante daquele primeiro ‘não’, hoje a Mauricio de Sousa Produções não teria 400 funcionários e a Turma da Mônica não teria viajado para mais de 40 países.

“Emociono-me com histórias de pessoas que aprenderam a ler com meus quadrinhos”

E para aqueles que ainda acham que os personagens afastam as crianças do saber, uma das coisas que mais me emocionam é ouvir de pessoas de todas as idades que aprenderam a ler com minhas histórias. Isso sempre vai me emocionar, tenha eu 80, 90 ou 100 anos. Aquele cãozinho da primeira tira é hoje o símbolo da minha empresa e da minha história. Ficou moderninho e ganhou versão inspirada na toy art, que faz parte da série Mônica Toy, nascida na Internet e que agora está conquistando o mundo. Mas agora é hora de eu descer um pouco do caixote. Bom evento para todos. E que continuemos todos a servir de estímulo para que as crianças sigam pensando sempre fora da caixa.

Obrigado.”

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