Depois do câncer, a maternidade da superação
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Depois do câncer, a maternidade da superação

Histórias de mulheres que conseguiram ser mães após enfrentarem dolorosos tratamentos médicos

Edison Veiga

07 Maio 2016 | 16h00

Foto: Cleber Carvalho/ Estadão

Foto: Cleber Carvalho/ Estadão

“Às vezes até esqueço que passei por tudo isso”. Carteira na cidade de Mirandópolis, Patricia Alves de Oliveira Moraes (foto acima), 28 anos, é uma mãe que venceu todos os prognósticos médicos: superou um câncer no ovário durante a gestação e, neste domingo, vai comemorar o Dia das Mães mais uma vez ao lado de sua filha Estela Vitória, 7 anos.

“Ela se chama Vitória porque foi uma Vitória, né?”, emenda Patricia. O drama todo foi vivido por ela em 2008. Descobriu que estava grávida no segundo mês da gestação. Logo na primeira consulta pré-natal, o que era alegria se transformou em pânico. “Fui diagnosticada com câncer. E era um caso muito agressivo”, conta. “A médica que primeiro me atendeu foi taxativa: eu perderia (a menina)”.

Encaminhada para o Hospital de Câncer de Barretos, centro de referência do assunto, passou por uma cirurgia e iniciou o tratamento quimioterápico. “Assinei um termo de ciência de que poderia sofrer um aborto em virtude do tratamento”, diz. Seis meses mais tarde, uma nova cirurgia: desta vez, o parto. “Um pediatra retirou a neném e, em seguida, um oncologista já tirou o tumor. Tudo na mesma operação”, recorda-se ela.

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Dia das Mães também se tornou uma data simbólica de superação para a publicitária Kellis Anastacio Vito (acima), de 41 anos. Em 2011, em exames de rotina, ela foi diagnosticada com câncer no colo do útero. Na época, ela morava em Birigui, no interior paulista – hoje vive em Recife. “Os médicos disseram que eu teria de retirar o útero, e estavam preocupados porque eu não tinha filhos”, recorda-se. “Eu disse que tudo bem: era solteira e muito ativa profissionalmente. Aos 37, 38 anos, confesso que não tinha mesmo intenção de me tornar mãe. Estava conformada.”

Foi em Barretos que o panorama mudou. Os médicos optaram por uma cirurgia menos agressiva, tirando boa parte do colo do útero mas preservando a estrutura necessária para uma gravidez. “Eles me conscientizaram: diziam que eu ainda poderia conhecer alguém no futuro e querer ser mãe; então não valia a pena retirar todo o útero”, diz.

Parecia profecia. Em 2013, Kellis conheceu Kleber Luiz Vito, funcionário de uma empresa calçadista, hoje com 31 anos. “Começamos a namorar e ele foi comigo na última consulta de acompanhamento do meu tratamento do câncer, justamente quando o médico ‘liberou’ uma gravidez”, recorda-se. Foi uma gestação de risco, exigindo muito repouso. Cauã é um menino saudável de 2 anos e 5 meses.

De acordo com o pesquisador Marcelo de Andrade Vieira, cirurgião oncológico do Hospital de Câncer de Barretos, as chances de uma mulher engravidar após retirada desse tipo de tumor são muito baixas porque um efeito colateral da cirurgia costuma ser o estreitamento do anel endocervical do colo do útero. “Se nenhum cuidado for tomado, eu diria que em 80% das pacientes a chance de gravidez vai a zero”, afirma ele.

Incomodado com esse cenário – e com o fato de não haver um procedimento padrão para casos do tipo –, ele inventou, em 2012, um dispositivo plástico para colocar no anel durante a cirurgia, preservando-o aberto. Com isso, as chances de gravidez passam a ser de 60% – em uma mulher normal, o índice é superior a 95%. “Desse total, apenas em metade dos casos a gravidez é espontânea”, ressalta o médico. “A outra parte tem de ser via reprodução assistida.”

Foto: Acervo Pessoal

Foto: Acervo Pessoal

De lá para cá, já foram 18 pacientes que utilizaram este dispositivo. Uma delas é a gerente financeira Ana Paula da Silva Azevedo (acima), de 32 anos. Moradora de Naviraí, no Mato Grosso do Sul, ela descobriu o câncer no fim de 2014. O primeiro médico que a atendeu, na vizinha Dourados, recomendou um tratamento agressivo. “Ele queria retirar imediatamente útero, ovários, trompas, tudo…”, conta ela.

Mãe de um filho – Lucas Daniel, hoje com 8 anos –, Ana Paula já estava em seu segundo casamento, com o encarregado de operações André José da Silva, atualmente com 32 anos, e queria ser mãe de novo. A equipe do médico Vieira assumiu o caso, em Barretos.

Ana Paula fez uma cirurgia em março de 2015. Em janeiro deste ano, o médico a liberou para tentar engravidar, se quisesse. Dito e feito. “Estou grávida de 15 semanas”, disse ela ao Estado na última quinta. “Ainda não sei se é menino ou menina. Mas já tenho os nomes escolhidos: ou Vitor ou Vitória, porque esta criança é uma vitória da minha esperança.”

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