Milhares viram noite com Monet e Van Gogh
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Milhares viram noite com Monet e Van Gogh

Edison Veiga

06 de agosto de 2012 | 00h01

Centro Cultural Banco do Brasil teve 16 mil visitas entre 15h de sábado e 22h de ontem

Balada paulistana do último sábado: passar a noite em uma exposição. Foi a impressionante – com o perdão do trocadilho – Virada Impressionista, que fez com que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no centro, ficasse aberto das 15h de sábado às 22h de ontem.

A expectativa dos organizadores era receber, durante todo esse período, 8 mil pessoas. Mas o número foi alcançado já às 6h de ontem. E as filas não paravam. “Sou apaixonado por arte e estava ansioso. Não queria deixar de ver esses quadros já no primeiro dia”, disse o jardineiro Jarbas de Oliveira, de 57 anos, que vestiu paletó e gravata – e segurava um chapéu na mão enquanto contemplava os quadros.

Quando ele conseguiu entrar, o relógio já marcava mais de meia-noite. Era preciso enfrentar duas filas, uma delas só para conseguir entrar na fila de acesso, grátis. Tempo médio: 2h30, com picos de mais de 3 horas. Quando foi interrompido por este repórter, Jarbas admirava os traços de Monet – via o quadro O Lago das Ninfeias, Harmonia Verde. “Olha só que perfeição. Dá vontade de chorar”, confessou.

Viradas. Cidade 24 horas por vocação, São Paulo redescobriu o potencial de eventos madrugada adentro em 2006, com a primeira edição da Virada Cultural. De lá para cá, a Prefeitura tem usado e abusado do recurso: além da Cultural, anualmente um retumbante sucesso, tem ainda a Sustentável e a Esportiva e está para sair a Gastronômica. Na esteira desse sucesso, instituições que não têm a ver com a Prefeitura também vislumbraram a possibilidade. É o caso do CCBB.

O centro cultural decidiu abrir as portas de modo ininterrupto no primeiro fim de semana da mostra Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Acervo do Museu d’Orsay. Uma das principais exposições paulistanas do ano, reúne 85 pinturas da coleção de um dos mais importantes museus franceses. Entre elas, obras de Paul Cézanne, Claude Monet, Edouard Manet, Vincent Van Gogh e Auguste Renoir.

Para o público, a ideia pareceu boa. “Quando fiquei sabendo, logo achei que seria um programa diferente para o sábado à noite”, comentou a arquiteta Carolina Laconalio, de 27 anos, meio assustada com o tamanho da fila. “Mas acho que todos tiveram a mesma ideia, não é?” Seu namorado, o músico Demétrios Galhiasse, de 31, concordou. “Só não esperava tanta gente assim.”

Na outra ponta, a dos sorridentes que já saíam do museu, os guias de turismo Diogo Leite, de 37 anos, e Liliana Bracco, de 40, garantiam que valia, sim, a pena enfrentar a espera para conseguir entrar. “Para quem gosta de arte, é imperdível”, afirmava Liliana. “Está incrível. Vou voltar para rever com mais calma”, comentava a professora de artes Gisele Simões, de 41.

Uma base móvel da Polícia Militar esteve a postos na frente do CCBB durante toda a madrugada – mas não foram registrados incidentes relacionados ao evento. Contrastando com a erudição do programa e a anormal movimentação das ruas do entorno do centro cultural, apenas moradores de rua com o sono atrapalhado pelo barulho e alguns bêbados maltrapilhos e felizes. Pouco depois da meia-noite, quatro deles passaram diante do CCBB cantando, desafinados e estridentes, “Felicidaaade foooi-se embora. E a saudade no meu peeeeeito ainda mooooora…”.

Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 6 de agosto de 2012

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