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Livro conta a história do parque mais antigo de SP

Edison Veiga

12 Maio 2011 | 08h22

O mais antigo parque paulistano se chama Jardim da Luz. E foi ali que os paulistanos puderam ver, pela primeira vez, a maravilha da luz elétrica – em 1883. Também aconteceu no parque a primeira quermesse da cidade, a recepção oficial aos soldados que lutaram na Guerra do Paraguai e muitas outras saborosas histórias da São Paulo antiga. Elas estão descritas no recém-lançado livro Jardim da Luz – Um Museu A Céu Aberto (Editora Senac São Paulo e Edições Sesc São Paulo, 240 pág., R$ 60), dobradinha do arquiteto e designer Ricardo Ohtake e do historiador Carlos Dias.

Boa parte da pesquisa que resultou no livro não foi feita agora. É que, entre 1998 e 2001, Ohtake foi Secretário Municipal do Verde e do Meio Ambiente. E Dias, seu chefe de gabinete. “Logo que assumimos, decidimos vistoriar vários parques. O da Luz foi o primeiro. E eu comentei com ele: olha, eu sei que esse jardim é muito importante para a cidade, mas não sei até que ponto. Aí começamos a pesquisar”, conta o historiador.

Bastante deteriorado à época, o local foi tratado como prioridade pela gestão de Ohtake. “Restauramos todo o espaço. Não havia mais projetos paisagístico. O parque estava desaparecido, era um matagal lá dentro”, conta o ex-secretário. “Era uma pena, pois o parque é muito bonito, tem uma influência muito grande dos jardins ingleses e uma filosofia baseada no romantismo.”

História. A intenção governamental de se criar o Jardim da Luz data de 1798: um documento real ordenando a fundação de um horto botânico em São Paulo, no Rio e em Pernambuco. O parque nasce dois anos mais tarde. “Com uma mentalidade mercantilista”, contextualiza Dias. “Ele foi inaugurado como viveiro de plantas. Afinal, queriam era produzir matéria-prima mesmo.”

Não havia uma preocupação de uso do espaço para o lazer da população. “Parecia um tabuleiro: eram ruazinhas intercalando os canteiros”, comenta o historiador. O local já contava com um lago – não há registros desde quando.

Em 1825, o parque sofre sua primeira reforma. E aí realmente é transformado em passeio público. “Até então, as cidades brasileiras não tinham esse conceito. Pela primeira vez São Paulo ganha um local com água, árvores, plantinhas, estátuas, lugar de contemplação da natureza”, pontua Dias.

O Jardim da Luz passa por nova remodelação na segunda metade do século 19, com a chegada da ferrovia. “Os administradores começaram a se preocupar porque ali era a porta de entrada de São Paulo. Então tinha de ser uma coisa bonita”, comenta. Em 25 de abril de 1870, quando os cerca de 200 soldados do famoso batalhão dos Voluntários da Pátria retornaram da famigerada Guerra do Paraguai, foram recebidos pelas autoridades com um banquete no parque.

Por causa da Estação da Luz, a região ganhou linhas de bonde – que serviam, principalmente, para que a população de qualquer parte da cidade tivesse como chegar até a ferrovia. A primeira linha a passar por ali, com veículos de tração animal, foi aberta em 1872. Esse benefício teve um efeito colateral: o parque passou a ser muito frequentado, sobretudo aos fins de semana. Afinal, era fácil acessá-lo.

Auge. A partir daí, o Jardim da Luz consolida-se como uma referência de entretenimento paulistano. Em 1874, ganha uma torre de cinco andares – demolida em 1900 – onde funcionava o primeiro observatório meteorológico de São Paulo. No mesmo ano, um botequim foi aberto no parque. Em 1876, o jardim ganha iluminação: 763 combustores a gás, com intensidade luminosa de nove velas cada um.

Foi ali que aconteceu a primeira quermesse na capital paulista – organizada pela comunidade francesa, em 1882. E, em outubro de 1883, a primeira exibição de luz elétrica em São Paulo – com uma multidão de curiosos que precisou pagar ingresso para ver a maravilha tecnológica.

Século 20. Na virada do século 19 para o século 20, o Jardim da Luz passou por sua última grande remodelação. Ganhou um minizoológico – com capivaras, veados, macacos, lobos, avestruzes e outros bichos, e passou a ter uma rua interna onde funcionava a grande atração: sob pagamento, podia-se dar a volta em um automóvel.

A decadência do Jardim da Luz coincide com a crise do café, no final dos anos 20. “A partir de então, ele se torna apenas um espaço de passagem. Há reportagens, já na década de 30, questionando a má administração do espaço”, conta o historiador.

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Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 12 de maio de 2011

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