‘Laudato Si’: primeiras impressões
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‘Laudato Si’: primeiras impressões

Exposição apresentada na mesa-redonda Laudato Si’, a encíclica ecológica do Papa Francisco: primeiras impressões, realizada no Auditório das Paulinas Livraria, no dia 19 de junho de 2015

Edison Veiga

25 Junho 2015 | 06h57

Foto: L'Osservatore Romano

Foto: L’Osservatore Romano


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Por Francisco Borba Ribeiro Neto*

Laudato si’ chega num momento complexo para a defesa do meio ambiente em todo o planeta. Apesar do otimismo gerado pela Eco-92, pelo Protocolo de Kyoto (1997) sobre a redução da emissão dos gases responsáveis pelo efeito estufa e pelos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas (2000), os primeiros 15 anos deste século viram um aumento da degradação ambiental e o sacrifício das agendas conservacionistas em função do crescimento econômico. Por outro lado, também cresceu a frequência dos desastres naturais por causas climáticas, como furacões, secas prolongadas, invernos muito frios e enchentes.

Várias lideranças mundiais se declararam comprometidas com a questão ambiental e dispostas a mudar a escrita recente na Conferência de Paris sobre o clima (COP21) que acontecerá neste ano. Mas o discurso dos políticos há muito vem desencantando a população mundial. Diante desta situação, o Papa Francisco coloca toda a sua autoridade moral – ele que é o líder mundial mais respeitado e admirado da atualidade – a serviço da defesa do meio ambiente e da sustentabilidade da vida humana e de todos os seres vivos no planeta. A guerra do meio ambiente não é só do papa, mas de toda a humanidade. Não será ele, nem a Igreja, a vencê-la sozinho. Mas os homens lutarão com redobrada força e alegria por terem este aliado com eles. Francisco vem para “levantar o moral da tropa” e a recepção dada à encíclica no mundo todo mostra que esta contribuição é muito bem-vinda.

Ele deixa claro que não deseja entrar em polêmicas científicas sobre o peso das causas naturais e das atividades humanas nas variações climáticas – mas pede que os países tomem medidas concretas para não aumentar os riscos do aquecimento global e outros problemas ambientais.

Papa afasta-se do ambientalismo ‘fashion’

Ao mesmo tempo, lembra que todos são vítimas da crise ecológica, mas são sempre os mais pobres, os excluídos, quem mais sofre. Por isso, ao enfrentar os problemas ambientais, temos que ter uma preocupação particular com as questões sociais correlacionadas. A responsabilidade ambiental é de todos, ricos e pobres. Mas aqueles que mais usufruíram dos recursos naturais têm um dever maior na conservação do meio ambiente, devendo fazer maiores sacrifícios e colaborar com os demais. Com isso, afasta-se de um “ambientalismo urbano e burguês”, “fashion” digamos assim, e se posicionando por um ambientalismo que é simultaneamente luta contra as desigualdades sociais, a pobreza e a exclusão.

Existe uma condenação (implícita ou explícita ao longo do texto) de soluções tecnicistas ou mercantilistas para a questão ambiental, e a tomada de posição a favor de soluções integrais (na linguagem católica) que favoreçam uma mudança cultural e de mentalidade – próxima ao movimento ambientalista de matriz utópica e oposto ao ambientalismo tecnocrático ou visto como “ecobusiness”. Aqui, duas vertentes que influenciam o pensamento de Bergoglio se somam numa crítica ao modelo cultural e socioeconômico vigente: (1) de Bento XVI ele recupera a crítica à pretensão antropocêntrica do homem como medida de todas as coisas, que gera o relativismo, o cientificismo e o tecnicismo, (2) das escolas teológicas latino-americanas atuais (Teologia do Povo argentina e a Teologia da Libertação brasileira) recupera a desconfiança com relação à mercantilização da vida e a idolatria ao dinheiro do capitalismo.

Laudato si’ é a primeira encíclica ecológica da história, mas segue uma linha traçada por Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, que enfatiza a responsabilidade da humanidade diante da criação. Uma famosa citação da Bíblica diz que Deus criou o homem para que ele dominasse a terra (Gn 1, 26). Mas, numa correta interpretação, esta frase não quer dizer que o homem pode fazer o que bem entender com a natureza, mas sim que ele deve cultivá-la e guardá-la (Gn 2, 15) segundo o desígnio de Deus – que deseja a harmonia entre todas as coisas. A encíclica de Francisco deverá se orientar nesta perspectiva de reforçar a responsabilidade do ser humano como guardião que cultiva com amor a criação e não como dominador que a explora e desfruta para depois a descartar ou abandonar.

Carta se insere em novo momento da Doutrina Social da Igreja

Mas então ela não tem nada de novo? Pelo contrário, ela se insere num novo momento da Doutrina Social da Igreja, inaugurado pela Deus caritas est de Bento XVI. Depois do que eu chamaria de “fase personalista” de João Paulo II, Bento XVI e Francisco pertencem a uma fase mais mística, marcada pela predominância do amor, como categoria geradora da presença cristã no mundo. Para se ter uma ideia, o Compêndio de Doutrina Social da Igreja já trazia um capítulo completo sobre a questão ambiental, com uma estruturação completa, começando pelas raízes bíblicas da visão cristã do meio ambiente até chegar aos problemas atuais – como em Laudato si’. Contudo, no texto da encíclica de Francisco, as palavras amor e caridade aparecem, proporcionalmente, 10 vezes mais que no Compêndio! Não se trata de uma questão de estilo redacional, é evidentemente um outro modo de ver e comunicar a mensagem cristã. E aqui temos a grande contribuição que Francisco dá ao movimento e à militância ambiental: mostrar a relação do ser humano com o meio ambiente como questão amorosa e mística, retomar a beleza do “sopro do Espírito” como condição para a superar a crise ecológica (por isso ele pode dizer que a música, a arte e a beleza (que aparece com quase tanta importância no texto quanto a responsabilidade) são fundamentais para resolver a questão ecológica. Do catolicismo oriental, Francisco recupera esta raiz de fascínio e de beleza diante da relação do homem com o mundo criado e dado a ele por Deus:

“No fim, encontrar-nos-emos face a face com a beleza infinita de Deus (cf. 1 Cor 13, 12) e poderemos ler, com jubilosa admiração, o mistério do universo, o qual terá parte conosco na plenitude sem fim. Estamos a caminhar para o sábado da eternidade, para a nova Jerusalém, para a casa comum do Céu. Diz-nos Jesus: « Eu renovo todas as coisas » (Ap 21, 5). A vida eterna será uma maravilha compartilhada, onde cada criatura, esplendorosamente transformada, ocupará o seu lugar e terá algo para oferecer aos pobres definitivamente libertados”.

* O biólogo e sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto é coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).