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Largo do Paiçandu terá escola de circo

Edison Veiga

15 Março 2012 | 11h28

Projeto prevê arquibancada, camarins, museu com biblioteca e auditório iluminado

Em parceria com RODRIGO BURGARELLI

FOTO: REPRODUÇÃO

Prometida há três anos pela Prefeitura de São Paulo, a escola de circo de 6,9 mil m² no Largo do Paiçandu, no centro da cidade, finalmente vai sair do papel. A Secretaria Municipal de Cultura lançou o edital para as obras, estimadas em R$ 35 milhões, que devem ter início neste ano. A expectativa da Prefeitura é de que o equipamento ajude no processo de revitalização cultural da região central.

A escola é intitulada Circo Escola Piolin – homenagem ao palhaço cuja trupe se apresentou no Largo por cerca de 30 anos. O projeto arquitetônico, de autoria dos arquitetos Marcos Cartum, Sandra Llovet e Claudio Libeskind, é inovador. O edifício será dividido em duas partes: uma é um picadeiro circular, com lonas feitas para durar 35 anos ou mais, e a outra é o prédio da escola, que ficará do lado oposto ao Largo e será feito de concreto aparente, para contrastar com a estrutura metálica do picadeiro.

Além das duas estruturas, o Circo Escola terá também arquibancadas, vestiários, camarins, bilheterias, um pequeno museu com biblioteca – onde será a sede definitiva do Centro de Memória do Circo, que desde 2009 funciona na Galeria Olido – e auditório iluminado por luz natural. No mezanino ficará um restaurante com vista para o Paiçandu. A Secretaria de Cultura pretende assinar o contrato até o meio do ano. A duração prevista para os trabalhos é de 12 meses.

Aptidão. Para a execução das obras, serão desapropriados no total seis lotes no quarteirão formado pelas Ruas Dom José de Barros e do Boticário e Avenidas Rio Branco e Ipiranga. A Prefeitura já obteve a imissão de posse de três – dois estacionamentos e um antigo cinema. Faltam ainda os outros três, onde hoje funcionam casas comerciais.

De acordo com a pasta responsável pelo projeto, a escola vai empreender processos seletivos semelhante aos das escolas municipais de dança e de música, ou seja, testes de aptidão para selecionar alunos. As aulas serão gratuitas. A ideia é tanto atender alunos iniciantes quanto turmas mais experientes, visando a preparar artistas para trabalhar profissionalmente em circos. “A construção da escola é uma notícia muito boa para a área circense”, avalia Verônica Tamaoki, coordenadora do Centro de Memória do Circo, da Secretaria de Cultura. “São Paulo sempre primou por ser a capital do circo brasileiro.”

FOTO: ACERVO DE MEMÓRIA DO CIRCO/ DIVULGAÇÃO
História. O endereço escolhido para a escola é cheio de simbolismo. A história da região está intimamente ligada ao desenvolvimento do circo na capital. Desde o século 19, com as temporadas ali realizadas, esse lugar se tornou um terreno sagrado do circo paulistano. Durante décadas, bares e cafés localizados nas proximidades alternaram-se como ponto de encontro de artistas, sempre às segundas-feiras – dia da folga semanal da categoria. O costume, ainda que em menor intensidade, sobrevive nos botecos da região.

As trupes circenses incluíram São Paulo em seu roteiro por volta de 1870. Vinham para a cidade atraídas pelo então farto dinheiro do café. Como a capital paulista tinha muitos imigrantes, que já conheciam espetáculos do gênero quando viviam na Europa, o público era garantido: a população admirava acrobatas, palhaços, malabaristas, anões e todo o tipo de artista mirabolante.

Algumas apresentações ocorriam em teatros e cabarés. Outras, em tendas armadas no Largo dos Curros (atual Praça da República), no Largo de São Bento e no próprio Largo do Paiçandu. Foi ali que o faquir Silki realizou dois de seus quatro longos jejuns – em 1957, quando teria ficado 107 dias sem comer; e em 1980, a última e maior abstinência, de 115 dias.

Quando o Circo Escola ficar pronto, ali serão formadas as novas gerações de artistas da cidade.

QUEM FOI: Abelardo Pinto, o Piolin (1897-1973)
FOTO: REPRODUÇÃO

Piolin é tão importante para a história do circo brasileiro que a data de seu nascimento, 27 de março, é o Dia do Circo no Brasil. Ele se consagrou no início dos anos 1920, na companhia do grupo uruguaio Irmãos Queirolo. Mais tarde, montou a própria trupe. Em 1972, para comemorar o cinquentenário da Semana de Arte Moderna, o então diretor do Masp, Pietro Maria Bardi, convidou o Circo Piolin para se apresentar no vão livre do museu. O palhaço que alegrou várias gerações de crianças e adultos morreu em 1973, após se engasgar com uma bala.

Academia Piolin funcionou por cinco anos, até 1983

A ideia de escolas circenses no Brasil vem desde a década de 1920. “Nessa época, foi criada a primeira entidade da classe circense e havia a discussão sobre a necessidade do ensino”, afirma a pesquisadora Verônica Tamaoki, coordenadora do Centro de Memória do Circo. Trinta anos mais tarde, o palhaço Waldemar Seyssel, o Arrelia (1905-2005), chegou a desenvolver um ousado projeto nesse sentido, com croquis que mostravam como seria o prédio. Não saiu do papel.

Entre 1978 e 1983, chegou a funcionar a Academia Piolin de Artes Circenses, mantida pelo governo do Estado – que atualmente ainda oferece aulas de circo nas Fábricas de Cultura de Vila Curuçá, Sapopemba, Itaim Paulista e Jardim São Luís. Nas próximas semanas, será aberta uma nova unidade na Vila Nova Cachoeirinha.

Reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 15 de março de 2012

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