Agora é oficial: SP tem Batata Square
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Agora é oficial: SP tem Batata Square

Edison Veiga

01 de outubro de 2016 | 00h42

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Faz quase 100 anos que o Largo da Batata, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, é conhecido assim. Faz quatro que, por meio de lei municipal, ostenta oficialmente o nome. Mas só agora a administração municipal deve mandar instalar ali plaquetinhas com a denominação. E elas devem ter a identidade visual de ponto turístico, conforme foi aprovado pela SPTuris. Com direito ao pictograma que identifica praças e a tradução para o inglês – não, não será Potato Square, mas sim, Batata Square.

Para os moderninhos que, nos últimos anos, transformaram a região em reduto hipster e ponto para manifestações em geral, a notícia vem a calhar. “É fundamental o nome reconhecido. Largo da Batata remete à história da própria cidade e principalmente a uma história de vida popular, de ocupação do território desde os primórdios. Faz todo o sentido”, afirma a administradora de empresas Cecilia Lotufo, de 41 anos, fundadora do Movimento Boa Praça.

Foto: Silvana Garzaro/ Estadão

Foto: Silvana Garzaro/ Estadão

Envolvido em recentes investimentos no Mercado de Pinheiros, vizinho ao largo, o famoso chef Alex Atala (foto acima), de 48 anos, é outro entusiasta da história local. “O Largo da Batata entrou na minha vida antes mesmo da cozinha, quando por volta dos 14 anos comecei a frequentar uma loja de pesca que ficava ali”, conta. “A vocação gastronômica do Largo da Batata nasce muito antes do seu próprio nome. A região precisa ser revitalizada e a gastronomia pode ser sim uma grande ferramenta para isso. As artes de rua, de alguma forma, já estão presentes por ali e merecem mais espaço. A união dessas vertentes pode e deve fazer parte de um novo Largo da Batata. Revitalizá-lo talvez seja uma grande missão.”

“Bom, para mim aquele largo sempre foi e sempre será o Largo da Batata. Nunca teve outro nome”, diz o alfarrabista e jornalista Ricardo Lombardi (foto abaixo), de 46 anos, dono de um sebo na região. “Quando criança, minha mãe me levava lá para comprar brinquedos – sempre gostei do nome e da algazarra daquele comércio.” Lombardi observa com empolgação os movimentos que querem valorizar a vocação do local. “O Largo da Batata virou uma espécie de símbolo dessa São Paulo mais coletiva, mais aberta, onde a diversidade está na cara: botecos pés-sujo e bares hipsters.”

Foto: Werther Santana/ Estadão

Foto: Werther Santana/ Estadão

A nomenclatura surgiu nos anos 1920, quando a região concentrava vendedores de batata, próximo à então sede da Cooperativa Agrícola de Cotia. A ocupação da região, entretanto, é muito mais antiga. Consta que em 1560, Pinheiros já era um núcleo habitado, quando os índios guaianás foram transferidos da Vila de São Paulo de Piratininga para ali – os jesuítas mandaram erguer a então Capela de Nossa Senhora da Conceição.

O batismo oficial só aconteceu em 2012, quando foi aprovada na Câmara a lei número 15.615, proposta um ano antes pelo então vereador José Rolim (PSDB). Em sua justificativa, o político dizia ser o local “o primeiro bairro de São Paulo, em razão de suas origens indígenas e portuguesas” e ressaltava que “mesmo com papel importante no desenvolvimento da cidade, o largo permanece sem denominação oficial.”

A lei definiu exatamente o que é o Largo da Batata: “o logradouro delimitado pelas ruas Martim Carrasco, Fernão Dias, Teodoro Sampaio, dos Pinheiros e pela Avenida Brigadeiro Faria Lima, no distrito de Pinheiros, subprefeitura de Pinheiros.”

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Para os moradores e comerciantes antigos, com ou sem placa, sempre foi Largo da Batata. O sapateiro José Carlos dos Santos (foto acima), de 63 anos, começou seu ofício ali, aos 13. Cinquenta anos depois, nunca saiu da região. É testemunha da mudança do perfil do bairro. “Quando comecei, via as carroças que traziam batatas e cebola para vender. Parecia cena de filme de bangue-bangue. Agora são prédios por todos os lados. O aluguel subiu, mas a clientela também aumentou”, resume ele. “É como digo: do couro sai a correia.”

Há mais de 20 anos trabalhando com consertos ali – de tudo: micro-ondas, geladeira, lavadora de roupas… –, Manoel de Souza Prates (foto abaixo), de 54 anos, também não parece se importar com placas e essas oficialidades todas. “É Largo da Batata mesmo, né?”, comenta. “Um dia atendi aqui um senhor que se disse neto de um dono de galpão das antigas daqui. Ele falou sobre essa história de o local ter sido entreposto de produtos agrícolas, daí o nome que pegou.”

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Enquanto isso, ativistas querem recuperar e valorizar as origens do hoje valorizado bairro. “Organizamos até abaixo-assinado na internet. Queremos que a Estação Faria Lima do Metrô seja rebatizada de Largo da Batata”, afirma a publicitária Fernanda Salles, de 47 anos, do coletivo BatataMemo. Até ontem, já eram 797 signatários. “Ao se negar o passado, a história simples que formou o bairro, presenciamos um processo de gentrificação.”

Discurso semelhante está na raiz do coletivo Não Largue da Batata, que se preocupa com o fato de que a especulação imobiliária tem expulsado os antigos moradores do bairro. “A vocação do lugar, que é de usos múltiplos e heterogêneos, está se perdendo”, alerta o movimento.

Imagem: Reprodução

Imagem: Reprodução

A proposta de rebatizar a estação de Metrô (simulação acima) já foi levada para a Assembleia Legislativa. Em 2014, o deputado estadual Carlos Neder (PT) apresentou a proposta – que já passou pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados e, agora, tramita na Comissão de Viação e Transportes, sem previsão se será (e quando) liberada para votação. “O que está por trás disso tudo é recuperar uma história que não tem nada a ver com a elite que hoje vive no bairro”, afirma Neder.

Membro do Conselho Participativo de Pinheiros e blogueiro do Estadão.com.br, o administrador de empresas e urbanista Mauro Calliari (foto abaixo), de 54 anos, acredita que a toponímia carrega as marcas do tempo que são parte essencial do lugar. “Esse tipo de nomenclatura vem de uma fase da cidade em que os nomes tinham a ver com a função do território. Perder esse significado, deixar de honrar esse passado é como matar uma ligação com a origem”, comenta.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Em paralelo, Fernanda e outros ativistas querem também que a Prefeitura exponha, em mostras temporárias e permanentes no bairro, relatórios e artefatos arqueológicos encontrados no Largo da Batata em recentes escavações ali realizadas por conta das obras de reurbanização. Um ofício já foi encaminhado à administração municipal com essa demanda.

A Secretaria Municipal de Cultura informa, em nota, “que os materiais da escavação arqueológica encontram-se atualmente no Sítio Morrinhos” e que “não há previsão para organização de uma exposição das peças”.

Sobre a instalação das placas com a denominação Largo da Batata, a Prefeitura diz, também em nota, que a “Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) elaborou projeto de sinalização do Largo da Batata que contempla a instalação de placas na região de Pinheiros, com a orientação de acesso ao Largo. O Projeto Orientador de Tráfego foi tratado em conjunto com a SPTuris e aguarda o agendamento para execução do projeto”.

A SPTuris confirma que deu parecer positivo ao fato de que o Largo da Batata pode “ser considerado um atrativo turístico para receber a sinalização específica” e indicou “o pictograma, topônimos das placas indicativa e de identificação, bem como tradução”. “Agora, cabe à CET executar o projeto, confecção e implantação”, diz o órgão. A CET ressalta que ainda não agendou a data de execução do serviço.

Para os ativistas, ainda não é bastante. A ideia é também lutar para que ruas do entorno sejam renomeadas em alusão à história do local. Para Fernanda (foto abaixo), nomes como Rua da Olaria – em referência a uma cerâmica colonial que funcionava ali – e Rua do Pierê – por causa dos índios – poderiam constar do mapa.

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

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